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Clássicos modernos, o primeiro grande acerto da DC Comics e uma delícia pop estão entre os reforços do acervo neste mês

Por Isabela Boscov - 4 jul 2020, 20h00

Encontros e Desencontros

Em um bar do hotel Park Hyatt de Tóquio, o astro decadente Bob Harris toma um uísque solitário, ouve uma cantora torturar Scarborough Fair, de Simon & Garfunkel, e pensa que, mesmo quando já se está no fundo do poço, sempre é possível cavar mais um pouco. Num quarto do mesmo hotel, a jovem Charlotte, sentada no parapeito da janela, olha a cidade e não vê nenhum caminho que possa tirá-la da encruzilhada em que está. Não que Bob ou Charlotte ponham esses pensamentos em palavras: uma das razões pelas quais Encontros e Desencontros não raro se aproxima do sublime é que a diretora Sofia Coppola confia na sua força e na de seus atores – Bill Murray e Scarlett Johansson – na mesma medida em que desconfia da capacidade dos diálogos para exprimir os ânimos intangíveis que seus personagens estão atravessando: casamentos e carreiras que não estão indo nem vindo, o deslocamento geográfico, a comunicação truncada entre pessoas vindas de idiomas e culturas que carecem de pontos de contato. Sofia trata, principalmente, daquele espaço que, num relacionamento, fica entre a amizade e o amor e pode trazer todas as perdas e ganhos de ambos. Em Tóquio para gravar um comercial, Bob Harris se defronta de forma inescapável com seu declínio e sua crise de meia-idade. Charlotte é bem mais nova, mas enfrenta desorientação semelhante. Não sabe com o que trabalhar e não sabe mais quem é seu marido, um fotógrafo que foge dela em todas as oportunidades possíveis. A princípio, é isso que une Bob e Charlotte: o fato de estarem perdidos. Depois, a sensação de que, mais do que colidir casualmente, eles se encontraram um ao outro, numa paixão que não diz seu nome nem oferece a segurança de uma consumação.

Encontros e Desencontros
Lost in Translation, 2003 Universal/Divulgação

Elizabeth

Quem está atrás de uma dramatização perspicaz e historicamente fluente do reinado da formidável Elizabeth I faz melhor em bater em outra porta – por exemplo, a minissérie de 2005 Elizabeth I, protagonizada por Helen Mirren. Como disse o New York Times à época, este filme é a versão Vogue da história: a cabeça do diretor Shekhar Kapur está  nas jóias e nos figurinos deslumbrantes, nas locações sensacionais, nas terríveis rivalidades fraternas e nos romances arrebatadores. Tudo aquilo que fez a filha de Henrique VIII com Ana Bolena capaz de transformar um reino falido e dividido na maior potência mundial do seu tempo fica em segundo plano – a argúcia política, o tino para as dubiedades da diplomacia, o espírito invencível, a visão modernizante, a compreensão do soft power que a arte e a cultura representam. O que não quer dizer que, além do visual, o filme não tenha outros prazeres, sendo o maior deles o desempenho poderoso e luminoso da então iniciante Cate Blanchett. Em tempo: fuja também do recente Duas Rainhas, com Margot Robbie e Saoirse Ronan, que quando não está distorcendo a história a está mutilando.

Elizabeth
Elizabeth, 1998 Universal/Divulgação

A Lista de Schindler

Steven Spielberg tira de um episódio da história real – então ainda pouco conhecido – o tema do homem bom que, para não apenas para fazer o bem como também para sobreviver, tem de se passar por um homem mau. É verdade que Oskar Schindler (Liam Neeson), industrial alemão com ótimas conexões com nazistas graduados, não tinha a melhor das intenções quando começou a arregimentar judeus para trabalho escravo em suas fábricas. Mas o que viu nos campos de concentração onde ia procurar seus operários o horrorizou ao ponto de ele arriscar a própria pele e usar o recrutamento como estratagema para salvar vidas – 1.200 delas. Em chave altamente dramática e em um belíssimo preto e branco, Spielberg reforça uma mensagem constante na sua obra, a da importância da consciência. No elenco, brilham também Ben Kingsley e sobretudo Ralph Fiennes, em começo de carreira no cinema, como um enregelante oficial nazista.

A Lista de Schindler
Schindler’s List, 1993 Universal/Divulgação

Em Ritmo de Fuga

O protagonista de Em Ritmo de Fuga mal saiu da adolescência e já é um habilíssimo motorista de carros de fuga, como demonstra a prodigiosa sequência sem cortes da abertura, tão cheia de manobras impossíveis (feitas na raça pelos dublês) que se reage a ela com exultação: Baby (Ansel Elgort) faz miséria ao volante sem nem tirar os fones nos quais ouve Bellbottoms, do The Jon Spencer Blues Explosion. A música, na verdade, é indispensável; Baby cronometra cada nova fuga com uma faixa específica para ela. Baby fala pouco, ouve música o tempo todo – são 43 canções listadas nos créditos – e fica na sua quanto pode. Mas não é fácil, considerando o tipo de companhia em que ele anda. Baby desgraçadamente entrou em dívida com Doc (Kevin Spacey), agenciador de roubos variados. Enquanto o rapaz não quitar a dívida, Doc não vai deixar barato. Aliás, talvez nem depois. Dirigido pelo inglês Edgar Wright, do indispensável Todo Mundo Quase Morto, este Em Ritmo de Fuga é uma bolha de sabão, com a história mais original, a direção mais inspirada, a seleção de músicas mais bacana e o protagonista mais irresistível que se possa imaginar. Ansel Elgort, que arrasou em A Culpa É das Estrelas, repete o feito aqui (infelizmente, ele anda meio mal no noticiário), em companhia de um punhado de ótimos atores cujo prazer em estar no filme é visível – além de Kevin Spacey, participam Jon Hamm, Jamie Foxx, Jon Bernthal, Lily James e outros que você nem conhece, mas que dão um show também (o pai surdo de Baby, a caixa da agência do correio, a senhora negra de quem Baby rouba um carro). Duas horas de felicidade perfeita.

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Em Ritmo de Fuga
Baby Driver, 2017 Sony/Divulgação

Sniper Americano

Recriando a trajetória de Chris Kyle (Bradley Cooper), atirador de precisão com 160 mortes confirmadas na Guerra do Iraque, Clint Eastwood encara de frente o peso da responsabilidade individual: a solidão de um sniper é verdadeira, a consequência de suas decisões é inalterável e a intimidade com o alvo em sua mira não tem paralelo nas outras situações de combate. A tração sobre sua psique, portanto, é incalculável. Como disse o próprio Eastwood – ou seu personagem – em Os Imperdoáveis, “matar um homem é uma coisa infernal. É tirar dele tudo que ele tem, e tudo que jamais vai ter”. Matar 160 homens, ainda que em situação de necessidade imperativa e conforme as regras militares, é todos os nove círculos do inferno – ao qual Kyle se vê preso principalmente quando está de licença em casa, longe da ação da guerra, e percebe que perdeu quase por completo a capacidade de se comunicar com a mulher (Sienna Miller, muito bem) e com os filhos. 

Sniper Americano
American Sniper, 2014 Warner/Divulgação

Mulher-Maravilha

Que criatura tão estranha – um homem! – que cai de avião na sua ilha: salvo do afogamento pela amazona Diana Prince (Gal Gadot), o espião americano Steve Trevor (Chris Pine) só precisa limpar o sal dos olhos para concluir que nunca viu mulher mais impressionante do que esta. E Diana instintivamente sabe que este é um exemplar masculino, digamos, especial. Em cem outros roteiros, Diana e Steve bateriam cabeça o filme inteiro antes de se descobrirem almas gêmeas. No roteiro dirigido por Patty Jenkins, não: Steve e Diana causam certa perplexidade um ao outro, mas acolhem a atração imediata – e fácil, calorosa, cheia de flerte e de expectativa. O que se tem, aqui, é romance entre um homem e uma mulher que se apreciam mutuamente e que, quando se descobrem muito diferentes, tendem a achar que a diferença é bem agradável. Este é o filme que a personagem merece: a ação é cheia de impacto e de personalidade, o humor e o drama vêm na medida certa e, pela primeira vez, um filme do DC-verso fluiu sem esforço e sem desafino. O mais positivo de todos os aspectos positivos: teria sido fácil ceder ao feminismo triunfalista – mas Mulher-Maravilha acredita com sinceridade (e com razão) que esse é o tipo de jogo que não leva a nada. O mundo em que Diana vai parar é de um machismo atroz? Ora, que os tolos fiquem com suas tolices: Diana acha que Steve é ótimo, e Steve acha que Diana é o máximo. Quando eles discordam, não é porque são homem e mulher – é porque têm opiniões diferentes. Juntos eles lutam melhor, divertem-se mais e salvam mais gente. Salvam inclusive o espectador – de discursos vazios, de cenas genéricas de destruição e de um desapontamento.

Mulher-Maravilha
Wonder Woman, 2017 Warner/Divulgação

Minority Report

Em 2054, a unidade policial intitulada Pré-Crime, chefiada por John Anderton (Tom Cruise), completa seis anos de testes bem-sucedidos. Partindo das antevisões de três mutantes paranormais chamados precogs, os policiais sabem quais homicídios serão cometidos, por quem e contra quem. Como combate à violência, é um avanço sem precedentes. Mas, em nome da segurança, é preciso abrir mão da privacidade e da liberdade em níveis estarrecedores. Todos os cidadãos estão sujeitos a scans de retina a cada passo, os outdoors mandam mensagens personalizadas aos passantes, as lojas cumprimentam os fregueses pelo nome, os carros sabem quem os está dirigindo e, quando uma regra é violada, conduzem o motorista à polícia. Mais assustador ainda é o fato de o Estado se outorgar o direito de prender uma pessoa e neutralizá-la intelectualmente sem que ela tenha, de fato, cometido seu crime. Todo o sistema depende de um único ponto: a infalibilidade dos precogs. É para verificá-la que o ex-seminarista e burocrata obstinado Witwer (Colin Farrell) é enviado à divisão. Anderton tem de vigiá-lo, e ele tem de vigiar Anderton – tarefa que ganha força de lei quando os precogs têm uma visão na qual o próprio chefe do Pré-Crime aparece assassinando um homem que ele nem ao menos conhece. Anderton passa, então, a ser o alvo do sistema que ele engendrou e no qual sempre confiou de forma absoluta. Nos primeiros 100 de seus 145 minutos, Minority Report é uma ficção científica brilhante. Steven Spielberg dosa com parcimônia os efeitos digitais e, quando os usa, o faz de forma arrasadora. No mais das vezes, os efeitos simplesmente se confundem com o tecido do filme, em cujo centro está o que se pode chamar de um certo mal-estar da civilização, tão mais assustador por ter suas raízes já bem fincadas no presente.

Minority Report
Minority Report, 2002 Fox/Divulgação
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