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Roman Polanski narra episódio de antissemitismo na França em novo filme

Polanski, o indivíduo, tem um crime na Justiça; Polanski, o cineasta, é capaz de produzir um filme de argumentos irrefutáveis como 'O Oficial e o Espião'

Por Isabela Boscov - Atualizado em 13 mar 2020, 18h32 - Publicado em 13 mar 2020, 06h00

Não há dúvida sobre quanto é pessoal, para o diretor Roman Polanski, a história que ele narra em O Oficial e o Espião (J’Accuse, França/Itália, 2019), já em cartaz no país. Primeiro porque o caso de Alfred Dreyfus, o capitão judeu do Exército francês condenado em 1894 pelo crime de alta traição, é um dos episódios mais escandalosos do antissemitismo institucional que grassava na república das supostas liberdade, igualdade e fraternidade — e Polanski, judeu nascido em Paris e criado em Cracóvia, na Polônia, sabe na pele o que isso significa: aos 6 anos, só se livrou da liquidação do gueto e da câmara de gás de Auschwitz, para onde sua mãe, grávida de quatro meses, foi imediatamente mandada, porque o pai conseguiu fazê-lo passar por um buraco no muro, em uma fuga à qual se seguiram anos vagando sozinho pelo campo, escondendo-se e fugindo das tropas nazistas. Radicado em Paris desde 1977, quando escapou da Justiça americana por um crime infame e tão notório que quase dispensa recapitulações — as relações sexuais com uma menina de 13 anos —, Polanski nos últimos anos tem assistido a um êxodo de judeus da França, que abandonam o país em temor do recrudescimento da hostilidade contra eles. Não menos importante é que, depois de ser linchado pela opinião pública e passar anos preso na Ilha do Diabo, Dreyfus foi afinal inocentado para além de qualquer dúvida ou suspeita por um dos homens que haviam colaborado para sua condenação — o coronel Marie-Georges Picquart, que muito abertamente não gostava de judeus, mas gostava menos ainda de farsas grotescas como aquela de que Dreyfus fora vítima. Separar a opinião dos fatos, e o homem de sua obra — eis o pleito de O Oficial e o Espião.

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À farsa em si: em 1894, a inteligência militar francesa detectou um vazamento de informações para a Alemanha, o inimigo para o qual perdera a Guerra Franco-Prussiana de 1870. A natureza das informações sugeria que o espião seria algum oficial com acessos muito específicos (depois se descobriria que até essa dedução fora equivocada). Quando quatro nomes vieram à tona, três deles nem foram considerados: Dreyfus (no filme, Louis Garrel), o único judeu no Estado­-Maior, foi automaticamente escolhido como suspeito e também já como culpado. O processo que se seguiu foi uma mistura de fraude, ilegalidade e incompetência, como Picquart (Jean Dujardin) viria a constatar quando, por sua participação no julgamento, ganhou um alto cargo no setor de inteligência. O coronel alertou todos os seus superiores para o erro cometido contra seu ex-aluno, que, aliás, desprezava. Foi rechaçado e instado a manter o silêncio sobre o assunto em todas as ocasiões. Não conseguiu: repugnava a ele que um inocente amargasse a prisão e que, para acobertar a bagunça, o comando militar estivesse em vias de dar uma promoção ao verdadeiro traidor. Picquart foi primeiro posto de escanteio e, depois, preso, mas antes e depois de sua libertação continuou trabalhando pela exoneração de Dreyfus.

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De início, uma dúvida incômoda se insinua — se, ao recuperar esse episódio célebre, Polanski estaria indiretamente reivindicando inocência em sua condenação pelo crime do qual ele é réu confesso, e de cuja punição fugiu com covardia deplorável ao descobrir que receberia uma pena exemplar. Polanski deu-se ao direito de levar uma boa vida na França, casar-se de novo (uma de suas outras mulheres, Sharon Tate, fora assassinada por seguidores do guru Charles Manson em 1969), ter filhos, continuar fazendo filmes (alguns ruins, mas outros belíssimos, como O Pianista, ou de inteligência cintilante, como O Escritor Fantasma) e ganhar Oscars, enquanto Samantha Geimer, a menina que ele embebedou e drogou, é até hoje perseguida pela sombra do abuso. Polanski, em suma, ficou livre, e quem cumpriu pena foi Samantha.

Não só Polanski tentou — inutilmente, ainda bem — forçar a mão da Justiça americana a um perdão integral para ele, em 2008, como desde então outras mulheres fizeram contra ele acusações semelhantes à de Samantha. Polanski, o indivíduo, valeu-se de maneira torpe de sua fama para cometer abusos e fugir à responsabilidade por eles. Indicado a doze César, o Oscar francês, por O Oficial e o Espião, o cineasta de 86 anos não teve coragem de comparecer à cerimônia, há algumas semanas — e vários presentes abandonaram a festa em protesto ao prêmio de direção concedido a ele.

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E, no entanto, como é possível a qualquer um estar muito errado em determinadas coisas e certo em outras, Polanski, o cineasta, tece em O Oficial e o Espião um argumento irrefutável: o de que linchamentos públicos não são em hipótese alguma uma forma de justiça, e de que a justiça dos tribunais só é digna desse nome quando as pessoas que nos parecem detestáveis a recebem nos mesmos termos e na mesma medida de quem nos parece simpático. Dreyfus, um oficial exemplar, enfrentou vergonha e exílio e perdeu uma década de sua vida por ser judeu, o que na França do século XIX bastava como motivo de opróbrio. Polanski é um homem nada exemplar, mas ainda assim seu filme merece ser elogiado pelo rigor e sobriedade com que é conduzido, pela pertinência com que surge neste momento político — e pela clareza de suas ideias.

Publicado em VEJA de 18 de março de 2020, edição nº 2678

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