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Que rei sou eu?

'O Rei' é um exemplo de ambição feliz: cita o "Henrique V" de Shakespeare e o confronta para discutir as qualidades que deveriam definir um estadista

Robert Pattinson, que não para de surpreender, sabe fazer uma ótima cara de menosprezo tipicamente gaulês: no papel do Delfim, o herdeiro do trono francês, o ex-galã de Crepúsculo olha para o jovem e franzino rei inglês à sua frente e diverte-se com a ideia de que Henrique V pretenda jogar seu pequeno e exausto exército contra as numerosas forças francesas — e no campo do adversário, em situação geográfica desvantajosa. Que venham, dá de ombros o francês, recusando a oferta de um combate corpo a corpo com o rei inimigo para definir o resultado. Em horas, porém, a Batalha de Agincourt terá sido ganha pelos ingleses graças à sua estratégia e aos seus formidáveis arcos longos, em uma vitória tão esmagadora que, transcorridos 600 anos (e mais de 400 desde que foi mitologizada por William Shakespeare na peça Henrique V), ela ainda é tema de estudo militar. Mas o objetivo de O Rei (The King, Inglaterra/Austrália/Hungria, 2019) não é celebrar esse capítulo notável da Guerra dos 100 Anos. Ao contrário, o filme que acaba de estrear na Netflix quer alertar para a relutância, o pesar e o espírito grave com que um governante deveria recorrer ao conflito armado — ou a qualquer forma de força — antes de ter esgotado os recursos racionais, aqueles que os afoitos costumam considerar sinal de fraqueza.

É perfeita a escolha do diretor David Michôd para o papel-título. Timothée Chalamet, de Me Chame pelo Seu Nome, vem percorrendo uma ascensão tão vertiginosa que se chega a temer por ela. No roteiro escrito por Michôd e pelo ator Joel Edgerton, o príncipe vive cercado pela dúvida alheia: dissoluto, ele dorme com prostitutas e bebe em tavernas com o cínico sir John Falstaff (Edgerton) para repudiar o pai tirano e sem caráter que o enoja, e cujo trono não quer herdar. Mas a sucessão é inevitável, e Henrique demonstra como é sério para ele o peso da coroa. Sua força, porém, permanece em questão, e assim mesmo ele é reticente ao ponderar a opção da guerra. Citando o texto de Shakespeare e ao mesmo tempo batendo de frente com ele, também Michôd e Edgerton — sem falar em Chalamet — dispersam as dúvidas em torno de uma proposta assim ambiciosa: conversam de maneira incisiva com a plateia contemporânea, e realizam uma façanha tão completa que até seu substituto para o célebre discurso do “bando de irmãos”, se não compete em beleza, não faz feio em vigor — e em atualidade.

 

Publicado em VEJA de 6 de novembro de 2019, edição nº 2659

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