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O garimpo da semana: Jornada pela Liberdade

Por Isabela Boscov Atualizado em 30 jul 2020, 23h22 - Publicado em 5 mar 2016, 17h17

A virtude de ser um cabeça-dura

Até as nações mais civilizadas são capazes de barbarismo. A questão é: como reconhecê-lo pelo que ele é? Dirigido pelo inglês Michael Apted de um jeito bem convencional, mas com muito apuro e um resultado que às vezes é eletrizante, Jornada pela Liberdade está disponível no Netflix e também em DVD e conta a história de um sujeito que estava várias décadas à frente do seu tempo: William Wilberforce, que passou quase cinquenta anos brigando no Parlamento para obrigar a Inglaterra a abdicar do tráfico de escravos – e, depois, a usar sua Marinha para reprimir os países que continuavam a traficar, como Portugal (destino da maioria dos escravos traficados no período em que Wilberforce atuou: o Brasil). Foi uma briga boa, e Michael Apted, que é craque em transformar biografias em painéis muito ricos do tempo e lugar em que elas se passam (é dele O Destino Mudou Sua Vida, com Sissy Spacek, que eu adoro), juntou ainda um elenco de primeiríssima: Ioan Gruffudd, Benedict Cumberbatch, Michael Gambon, Albert Finney, Ciarán Hinds e por aí vai.

Leia a seguir a resenha que eu escrevi quando o filme foi lançado em 2008


 Um político dos bons

A empolgante história de William Wilberforce, o parlamentar que fez a Inglaterra abolir o tráfico de escravos

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William Wilberforce e William Pitt são nomes conhecidos de qualquer inglês que tenha prestado um mínimo de atenção às aulas da escola – e um dos méritos de Jornada pela Liberdade é apresentá-los ao restante do público. Amigos do peito desde a universidade, esses dois prodígios do século XVIII chegaram ao Parlamento britânico no início dos seus 20 anos; aos 24, Pitt se elegeu primeiro-ministro (não à toa ganhou o apelido de “O Jovem”, para diferenciá-lo de seu pai, de quem herdou o nome e que também ocupara o cargo). Mas, em vez de só fazer alguns discursos e conchavos, como era costume até então, decidiu fortalecer o cargo e implantar um projeto político. Entre os itens prioritários de sua agenda estava banir o tráfico de escravos, que a Inglaterra liderava, e ao qual ele não podia se opor diretamente, já que a maioria dos parlamentares tirava dele, de alguma forma, sua fortuna. Pitt convocou então Wilberforce para a tarefa, apresentando-o a um grupo de religiosos que eram abolicionistas devotados e convencendo-o a usar toda a sua invectiva, energia e extroversão para pleitear uma lei contra o tráfico. Wilberforce acabou ficando mais realista do que o rei: de 1787, quando iniciou a missão, até sua morte, em 1833, pôs todo o resto de lado para trabalhar pela abolição, erguendo um movimento que ecoaria, nas décadas seguintes, em outros dois grandes centros escravagistas – os Estados Unidos e o Brasil.

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Jornada pela Liberdade é um desses filmes de época que os ingleses fazem como ninguém: é convencional (até quadrado, seria possível dizer), mas meticulosamente bem estruturado e narrado, e tem fartura daquele tipo de ator que floresce nas ilhas: gente que sabe vestir uma meia até o joelho e envergar uma peruca empoada sem que pareça estar numa festa a fantasia. O galês Ioan Gruffudd, de Quarteto Fantástico, é o indominável Wilberforce, que gostava tanto de abrir a cozinha de sua mansão para os mendigos locais quanto de entreter figurões em seu salão. O elegante e longilíneo Benedict Cumberbatch interpreta William Pitt com um misto cativante de esperteza, secura e afeição. O veterano Michael Gambon (o Alvo Dumbledore de Harry Potter) dá um banho como o conservador que se passa para o lado dos abolicionistas, e Albert Finney encarna de forma soberba John Newton, um ex-capitão de navio negreiro que se arrependeu de seus pecados, compôs o belíssimo hino evangélico Amazing Grace e foi o mentor espiritual de Wilberforce.

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Pitt e Wilberforce se opunham à escravidão por razões morais, mas eram duas raposas que sabiam como qualquer outro político usar lábia e artimanhas para chegar aonde queriam. A diferença está, claro, no aonde ao qual eles queriam chegar. A argumentação de Wilberforce, exposta em décadas de campanha junto ao público, sobre a inviolabilidade do conceito de que todos os homens são iguais foi tomada de empréstimo em parte pelo presidente americano Abraham Lincoln no ato de 1863 que aboliu a escravidão – e praticamente na íntegra por brasileiros como Joaquim Nabuco, Rui Barbosa e o ex-escravo Luiz Gama, que cumpriram no Brasil papel semelhante ao que Wilberforce desempenhou junto aos ingleses. Eis aí, portanto, o que há de mais inteligente e atual em Jornada pela Liberdade: a defesa que o filme faz da política como uma arena não apenas possível, mas ideal, para o exercício da ética.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 16/04/2008
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2008

JORNADA PELA LIBERDADE
(Amazing Grace)
Inglaterra, 2006
Direção: Michael Apted
Com Ioan Gruffudd, Benedict Cumberbatch, Albert Finney, Michael Ganbom, Romula Garai, Rufus Sewell, Youssou N’Dour, Ciarán Hinds, Toby Jones

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