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“Glow” e a nova onda das séries: não é comédia, é drama para rir

“Glow”, da Netflix, e “Barry” e “Silicon Valley”, da HBO, renovam o humor recusando-se a distingui-lo do que é trágico

Agora na sua segunda temporada, Glow, da Netflix, é uma série cheia do charme cafona e exagerado dos anos 80. Adoro porque estive lá e, sim, usei jaqueta curta com ombreira, enchi o cabelo de camadas e, como as protagonistas, achei que estava abalando. A trilha sonora é coisa de mestre; vai do melhor ao pior da década sem escalas. O assunto: um diretor falido de filmes Z e um herdeiro sem nada na cabeça juntam forças para montar, em Los Angeles, um programa de luta-livre feminina na TV. As inscritas na seleção são um sortimento de mulheres para quem as coisas andam mal. Mal no trabalho, no amor, em casa, nas finanças, na autoestima – em geral, mal em várias áreas ao mesmo tempo. O diretor, Sam Sylvia (Marc Maron), cheirou tudo que ganhou um dia, e está no fim da linha. Ele, assim como as mulheres e o herdeiro financiador, Bash (Chris Lowell), descobrem no programa uma tábua de salvação – precária e instável mas, ainda assim, uma tábua.

Glow

 (Netflix/Divulgação)

A tosqueira da luta-livre (ainda mais assim, com um punhado de amadoras e quase nada de grana) é libertadora: as personagens que as meninas inventam para si no ringue são todas estereótipos – citando as minhas atrizes favoritas do elenco, a soviética malvada (Alison Brie), a americana perfeita (Betty Gilpin), a folgada que vive de ajuda do governo (Kia Stevens), a fortona exótica (Britney Young), a esquisita que se veste de loba (Gayle Rankin), a árabe terrorista (Sunita Mani). Mas servem a cada uma delas como role play e análise freudiana; no que elas envergam e abraçam o estereótipo, já começam a briga de sair de dentro dele. Rio sem parar, porque os episódios curtos são extremamente bem escritos. Ou melhor: às vezes percebo que, apesar de estar rindo, estou com o coração na mão. Como a vida pode ser complicada, quanta esperança a gente investe em coisas que nunca vão resultar como se imagina – e que habilidade cada um de nós tem de enfiar os pés pelas mãos. Mas que capacidade temos, também, de achar amparo em lugares improváveis, e de nos recompormos para a próxima traulitada. Estou usando o pronome “nós”, e não “elas”, porque esse é o feito excelente de Glow – outra década, outros valores, outras ambições, e as pessoas são sempre o que são.

Glow

 (Netflix/Divulgação)

É nesse estado de espírito, também, entre chorar de rir e chorar de chorar, que termino cada episódio de Barry, da HBO, sobre um matador profissional apático que, certo dia, se apaixona pela ideia de fazer teatro. Ou quando vejo Silicon Valley (também da HBO), um catálogo das aflições e humilhações – as grandes e as miúdas – que se enfrentam na mera tentativa de não fracassar na profissão. Ainda existem séries de comédia pura e simples, claro, e enquanto houver Brooklyn 99 vou continuar assistindo. Mas para mim, ao menos, Unbreakable Kimmy Schmidt ou Crazy Ex-Girlfriend, por mais adoráveis que sejam, deixam agora a sensação de que falta algo importante nelas – angústia real, tristeza, desesperança. Os sinais indicam que muitos roteiristas hoje sentem o mesmo, porque claramente há uma transformação em curso: a comédia está deixando de ser cômica e passando a ser um drama no qual se ri – às vezes com gosto, outras vezes de nervoso ou desalento. Na verdade, quando assisto a Better Call Saul, Goliath ou Orange Is the New Black (produzida pelas mesmas Carly Mensch e Jenji Kohan de Glow, aliás), nem sei mais em que território estou, se do drama ou da comédia. E nem quero saber: estou no território dos personagens que são como a maioria das pessoas que eu conheço – uma bagunça –, e dos roteiristas que sabem que a única diferença real entre a tragédia e o humor não é de natureza. É só de ponto de vista.

 

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