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Isabela Boscov Por Coluna Está sendo lançado, saiu faz tempo? É clássico, é curiosidade? Tanto faz: se passa em alguma tela, está valendo comentar. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Destino Especial

Está sentindo falta de Stranger Things? Este filme sensacional pode ajudar

Por Isabela Boscov Atualizado em 13 jan 2017, 15h45 - Publicado em 3 out 2016, 02h33

É fogo: alguns dos melhores filmes que eu tenho visto ultimamente não passaram no circuito brasileiro. Foram direto para DVD e/ou on-demand. Com Jeff Nichols, um cineasta americano absolutamente sensacional, é a terceira vez que isso acontece. Só um dos quatro filmes que ele fez até aqui chegou aos cinemas nacionais: o ótimo Amor Bandido, de 2012, que ganhou lançamento porque era estrelado por Matthew McConaughey, que estava em alta naquele momento. Não tiveram a mesma sorte nem Separados pelo Sangue, de 2007, nem o estupendo O Abrigo, de 2011 (repito um apelo que já fiz antes: por favor assista a O Abrigo; é você quem vai sair ganhando), nem tampouco este surpreendente Destino Especial, que concorreu no Festival de Berlim em fevereiro deste ano e está lá, bonitinho, à sua espera, no NOW, no Looke e em outras plataformas digitais.

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Jeff Nichols, de 37 anos, nasceu no Sul profundo, no estado de Arkansas, e todos os filmes dele são retratos riquíssimos do Estados Unidos rural, conservador, não raro atrasado, cheio de sentimentos religiosos que às vezes derrapam no fanatismo, mas também caracterizado por um senso agudo de independência e responsabilidade individuais. É um ambiente fascinante, e Nichols o torna sempre indivisível das histórias que se passam nele. Nichols tem também um gosto pelo fantástico, e adora o maravilhoso, intenso, denso e excêntrico Michael Shannon – igualzinho a mim. Em O Abrigo, Shannon fazia um pai de família trabalhador do Meio Oeste americano, muito sério, que um dia qualquer começava a ter pressentimentos sobre a aproximação de um apocalipse e se entregava desesperadamente à tarefa de construir um bunker no quintal da sua casa. Todo mundo – inclusive ele próprio – achava que ele estava sofrendo alucinações. Estava ou não estava?: essa é a dúvida que o filme trabalha de maneira magistral.

Em Destino Especial, Shannon de novo pode estar – ou não – experimentando algum tipo de desequilíbrio. Ele interpreta Roy, que rapta seu filho de 8 anos, Alton (o assombroso Jaeden Lieberher), de um culto liderado por Sam Shepard, que crê que o menino vai ser o catalisador de alguma espécie de fim do mundo. O FBI já anda há algum tempo investigando a seita, e portanto se envolve também na perseguição a Roy, que está fugindo de carro com o filho e tem a companhia de um velho amigo, Lucas (Joel Edgerton, em um desempenho comovente), que é policial estadual.

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O clima é extraordinariamente tenso – algo que a excelente cinematografia e trilha sonora acentuam –, e as explicações vão chegando muito aos poucos: por que Alton só pode ficar acordado durante a noite, e tem de dormir durante o dia? Por que ele usa o tempo todo uns óculos como esses de natação, bem fechados e escuros? Como aconteceu de ele ser separado do pai e da mãe (Kirsten Dunst) e acabou adotado pelo líder da seita? E por que o menino é tão importante para o FBI e também para a sempre muito esquiva Agência de Segurança Nacional (NSA, em inglês), que designa para o caso Paul Sevier (Adam Driver), um agente brilhante, cheio de curiosidade e também ele algo excêntrico?

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Assim como em Stranger Things, a série-mania da Netflix, Destino Especial vem carregado de influências do cinema dos anos 80, em particular do Starman – O Homem das Estrelas de John Carpenter e do E.T. – O Extraterrestre e o Contatos Imediatos do Terceiro Grau de Steven Spielberg. Mas subtraia daí toda inclinação para graça, fofura, sentimentalismo ou nostalgia: o cinema de Nichols não é colagem nem homenagem. É uma coisa só dele, e parte sempre de um entre dois pontos cruciais – a necessidade voraz das crianças por uma figura paterna, ou o amor feroz de um homem por sua família. A coisa mais bonita de Destino Especial está aí, no empuxo emocional do relacionamento entre Roy e Alton. Na interpretação belíssima de Michael Shannon, Roy irradia esse amor intenso pelo filho. Não um amor de meiguices ou abraços, e sim algo severo, taciturno. Mas incontestável, e não há dúvida sobre o quanto Alton se sente envolvido e protegido pelo sentimento do pai.

Ou seja: um filme de caçada, de teorias de conspiração e de algo mais que não vou dizer, e que é também uma história de abalar entre um pai e um filho. Tudo isso com uma originalidade única e lindamente interligado, sem prejuízo de nenhum aspecto em favor de outro. Por isso Jeff Nichols é, hoje, um dos meus cineastas favoritos. E por isso estou torcendo para o próximo filme dele, Loving, que deu o que falar no Festival de Cannes em maio, tenha melhor sorte por aqui: esse, pelo menos, eu adoraria ter a chance de ver na tela grande.

DESTINO ESPECIAL
(Midnight Special)
Estados Unidos, 2016
Direção: Jeff Nichols
Com Michael Shannon, Joel Edgerton, Adam Driver, Jaeden Lieberher, Kirsten Dunst, Sam Shepard, Paul Sparks, Bill Camp, David Jensen

 

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