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“Deserto”: um thriller de perseguição nu e cru

Gael García Bernal e Jeffrey Dean Morgan são caça e caçador na fronteira americana

Por Isabela Boscov Atualizado em 2 nov 2017, 21h10 - Publicado em 2 nov 2017, 18h49

Jeffrey Dean Morgan fuma o tempo todo, bebe bourbon direto da garrafa como se fosse água, dirige uma caminhonete dessas que fazem três litros por quilômetro e – caso ainda reste alguma dúvida sobre ele ser uma péssima pessoa – leva uma bandeira confederada na antena do rádio. Depois de assassinar com um rifle de precisão, um a um, os imigrantes ilegais que atravessam o deserto, ele soca o volante de felicidade, grita “yooohooo” e – para o caso de você ainda não ter entendido – completa, falando para si mesmo: “Esta é a minha casa”. Fica pior: ele emprega um cão inocente, que não sabe o que está fazendo e só quer agradar ao dono, no serviço hediondo de sair caçando os mexicanos que a polícia de fronteira não viu ou não pegou. Eu gostaria que Jonás Cuarón, filho do Alfonso Cuarón de Gravidade e diretor deste Deserto, tivesse mais apego à sutileza porque a) gente ruim nem sempre anda por aí com o figurino completo para ser mais facilmente identificada; b) nem todo mundo que veste o figurino faz coisas ruins; c) embora Jonás use a moldura do ódio aos imigrantes que viceja em certas regiões fronteiriças dos Estados Unidos, o que está dentro dessa moldura, na verdade, é muito menos um comentário político que um thriller de perseguição nu e cru – e nisso Jonás não é só bom; é ótimo.

Deserto
Esfera Filmes/Divulgação

Assumidamente inspirando-se no estupendo Encurralado, o filme com que Steven Spielberg fez sua estreia, em 1971, e aproveitando-se da sua experiência como corroteirista de ação quase sem diálogos do magnífico Gravidade – dirigido por seu pai –, Jonás opõe Sam, o personagem de Dean Morgan, a Moises, interpretado por Gael García Bernal, um dos ilegais que, por terem ficado para trás do grupo principal, escaparam do primeiro ataque de Sam (Moisés, caso você não esteja lembrando, foi o patriarca que liderou os judeus em sua fuga do Egito pelo deserto, na Bíblia). No cenário árido e vastíssimo que às vezes revela e outras vezes esconde quem está se movendo por ele, Sam e Moises perseguem-se alternando posições, ora colocando-se um como a caça, ora como o caçador. É curto e direto: menos de uma hora e meia de tensão ininterrupta evoluindo de maneira impecável contra a paisagem. Os personagens são rabiscados, apenas; sabe-se deles apenas o mínimo indispensável para que suas atitudes ganhem sentido no contexto da ação. E, em que pese a obviedade com que Sam é caracterizado, o desfecho surpreende pela concisão e pela propriedade do recado: sem os imigrantes do México e da América Central, os Estados Unidos não andam mais, porque só eles têm a garra necessária (e o desespero) para desempenhar as funções às quais os americanos já não se dispõem.

Deserto
Esfera Filmes/Divulgação

Curiosidade: embora o pôster de Deserto traga um retrato sorridente de Donald Trump, o filme foi rodado antes até da campanha presidencial de 2016, quando Hilary Clinton ainda era a candidata mais forte. Os fatos se encaminharam de modo diverso do que se imaginava, e Deserto acabou virando emblema do que promete se tornar um subgênero cinematográfico – o dos filmes anti-doutrina Trump (Tempestade: Planeta em Fúria é outro exemplar da corrente). É oportuno: as milícias como os Minutemen, que à revelia da lei e de qualquer moralidade se atribuem o direito de patrulhar os pontos de travessia com uso de força, andavam na moita nos últimos anos mas, encorajadas pelos discursos vitriólicos de Trump contra a imigração, já estão pondo as manguinhas de fora de novo para voltar a brincar de Velho Oeste com o pessoal que sonha ir lavar pratos, cuidar de jardins e trabalhar na colheita manual de frutas. Gente mal-intencionada, como terroristas e narcotraficantes, em geral tem meios bem menos desesperados de entrar no país do que arriscando-se a morrer no deserto ou na correnteza do Rio Grande.


Trailer

DESERTO
(Desierto)
México/França, 2015
Direção: Jonás Cuarón
Com Gael García Bernal, Jeffrey Dean Morgan, Alondra Hidalgo, Diego Cataño, Marco Pérez
Distribuição: Esfera Filmes

 

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