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Demônio de Neon

Você acha que já viu de tudo? Pois se enganou

Por Isabela Boscov Atualizado em 13 jan 2017, 16h01 - Publicado em 28 set 2016, 18h54

O dinamarquês Nicolas Winding Refn tem um recorde só seu: foi vaiado duas vezes seguidas no Festival de Cannes, pela plateia de críticos. A primeira, em 2013, depois da exibição de Apenas Deus Perdoa. A segunda vaia, ainda mais forte, foi neste ano, ao final de Demônio de Neon, que está entrando em cartaz agora no Brasil. Curiosidade: em 2011, antes dessas demonstrações de reprovação, Refn ganhara o prêmio de direção em Cannes por Drive. Mais curioso ainda: os atributos que fizeram Refn ser premiado são exatamente os mesmos que agoram provocam vaias – o cinema ultraestilizado e deliberadamente artificial, a preferência por uma iluminação quase fosforescente, em tons elétricos de azul, roxo, carmin e vermelho, a redução do enredo ao mínimo em favor de imagens que provocam sensações, a violência fetichizada, o gosto pelo desvio, o humor perverso, a afinidade com as trilhas pulsantes (e sensacionais) de Cliff Martinez. De Drive para Apenas Deus Perdoa e agora para Demônio de Neon, ele apenas intensificou esses atributos e radicalizou seu projeto de um cinema sensorial. Como eu disse em uma resenha, nove entre dez espectadores detestam. Eu sou a décima espectadora: adoro, e me divirto horrores com o fraco de Refn pelo escândalo.

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Em Demônio de Neon, Elle Fanning faz Jesse, uma garota de 16 anos que vai para Los Angeles tentar emplacar como modelo. Jesse ficou órfã há pouco. É interiorana, inexperiente, ingênua. Em qualquer outro filme, ela seria despedaçada pelos predadores que encontra pelo caminho: a maquiadora Ruby (Jena Malone), que olha para ela como quem quer literalmente comê-la; o fotógrafo temperamental (Desmond Harrington) que, quando vê Jesse, manda todo mundo sair do estúdio, faz ela tirar a roupa e então espalha tinta dourada no corpo dela com as mãos; o designer (Alessandro Nivola) que olha para todas as outras meninas com ar de enfado, mas exala como se estivesse tendo um orgasmo quando põe os olhos em Jesse; o gerente sórdido do motel em que ela está hospedada (Keanu Reeves), que a certa altura vai estuprar a garota do quarto ao lado; e as modelos Gigi e Sarah (Bella Heathcote e Abbey Lee), que riem da caipirice de Jesse – e então se dão conta de que ela é a criatura que vai condená-las à extinção, e passam a temê-la, invejá-la, odiá-la e também querer se apossar dela.

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Jesse, a essa altura, já deixou de ser ingênua: depois de um encontro com o demônio de neon do título (pois é, não é metáfora, como eu pensava), ela aprende a se comprazer no efeito devastador que a sua beleza pura e sem artifício tem sobre essas pessoas que vivem de tentar fabricar a beleza, e vira uma entidade meio diabólica. Coisas impublicáveis vão acontecer entre ela e alguns dos personagens – por exemplo, uma cena de sexo oral com faca em que a faca não é coadjuvante, e sim o objeto central do sexo oral. Rola vampirismo, e depois canibalismo. Rola até uma cena de necrofilia lésbica, que embrulha o estômago mas também faz rir: é óbvio que Refn está fazendo um esforço danado para ser um enfant terrible e provocar justamente essas reações de repulsa.

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Em certo sentido, esse empenho em escandalizar é um tiro no pé porque, como provado, uma parte da plateia se sente tão repugnada, e tão insultada com essa manipulação, que não passa aos estágios seguintes da apreciação. Eu pessoalmente embarco: a veia devassa de Refn (e o gosto dele pela forma) às vezes me lembra da frieza e perversidade de Stanley Kubrick – e ainda estou meio em dúvida, mas não descartei a hipótese de que ele seja bem menos vazio e inconsequente do que se costuma achar, e cause essa desaprovação porque está de fato pegando em algum lugar que incomoda.


Trailer

DEMÔNIO DE NEON
(The Neon Demon)
Dinamarca/Estados Unidos/França, 2016
Direção: Nicolas Winding Refn
Com Elle Fanning, Jena Malone, Abbey Lee, Bella Heathcote, Keanu Reeves, Alessandro Nivola, Desmond Harrington, Christina Hendricks, Karl Glusman
Distribuição: Califórnia

 

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