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“Culpa”: um sujeito ao telefone, uma hora e meia de tensão

Concentrado no rosto de um ator e fazendo uso de uma exímia edição de som, filme dinamarquês deixa espectador grudado na tela

O cinema escandinavo é, de certa forma, o equivalente do cinema argentino nas altas latitudes: não só tem um punhado de títulos excepcionais a cada ano, como é, na média, de uma consistência e uma coesão excepcionais – típicas de gente que tem tradição tanto em produzir como em consumir teatro e literatura e que leva as coisas a sério. Tão a sério que, bom, quase só dá drama no cinema nórdico. Mas é raro ele decepcionar, como no caso de Culpa, que está nos cinemas e é uma dessas estreias na direção que parecem trabalho de cineasta muito experimentado.

Leia a seguir a resenha completa:


O Espectador no Espelho

Com um único protagonista em um só ambiente, o dinamarquês Culpa não apenas prende a atenção da plateia como a leva a examinar a forma como faz seus julgamentos

Relegado ao centro de atendimento de emergência em razão de um incidente de trabalho pelo qual será julgado no dia seguinte, o policial Asger Holm responde com enfado aos telefonemas – um sujeito consumiu drogas demais e agora está apavorado com suas palpitações; outro que diz ter sido assaltado por uma mulher que pulou para dentro de seu carro mas, conforme mostra a tela de Holm, fala da zona de prostituição de Copenhague. Uma nova ligação a princípio lhe parece trote, porém logo se revela urgente e possivelmente terrível: balbuciando na linha, como se estivesse falando com a filha pequena, uma mulher dá a entender que foi raptada. Mais: conhece seu raptor, está sendo levada para um lugar remoto e teme pela menina e pelo bebê que deixou a sós em casa.

Culpa

 (Califórnia/Divulgação)

Estreia na direção de Gustav Möller, Culpa não se afasta em nenhum momento do rosto severo e expressivo do ator Jakob Cedergren, e passa-se todo numa área de uns poucos metros quadrados, indo tão somente da mesa do policial para uma sala mais reservada na qual ele se isola para conduzir o caso. Quando algum dos seus colegas entra em quadro, é em segundo plano ou sem foco. Toda a ação consiste de Holm falando ao telefone com outros centros de emergência, com os policiais de uma viatura, com seu chefe, com seu parceiro, com a raptada e, a certa altura, também com o raptor – e, nos momentos em que o diretor demonstra a extensão da sua habilidade, com Mathilde, de 6 anos, a menina que está sozinha em casa e pinta para Holm uma cena perturbadora: uma briga horrível entre os pais, uma faca, a mãe sendo puxada pelos cabelos para a van na qual agora é mantida prisioneira.

Acelerado pela preocupação, pelo tempo que corre e por arrependimentos que aos poucos se tornam mais nítidos, Holm – assim como o espectador – vai preenchendo as lacunas com a sua imaginação e tomando a dianteira dos eventos com consequências que não pode prever porque, é claro, não está de posse da totalidade dos fatos. Culpa é um estudo sobre decisões precipitadas e informadas por desvios pessoais – um tema por si só especialmente oportuno. E é também um exemplar instigante de um subgênero que reduz ao mínimo absoluto os elementos de cena – um ator, um ambiente.

Culpa

 (Califórnia/Divulgação)

Tanto para o diretor como para o ator, trata-se de um teste implacável. Talvez por isso mesmo costume render resultados tão excepcionais (confira abaixo): tal é a exigência desse tipo de minimalismo que, em geral, só se arrisca nele quem pode confiar na qualidade do material, no seu preparo para controlar o ritmo e – essencial – no carisma do intérprete e na sua capacidade de modular o desempenho. Às vezes, esse gênero de roteiro resulta uma produção comercial como Náufrago (2000), de Robert Zemeckis, em que Tom Hanks passa sozinho em cena quase oitenta dos 143 minutos de projeção, ou Perdido em Marte (2015), de Ridley Scott, cujo mote é a sobrevivência solitária de Matt Damon no planeta vermelho. O habitual, entretanto, é que o orçamento seja tão enxuto quanto a encenação. Só a ambição não é pequena: pode consistir, por exemplo, em investigar os limites da resistência humana, como em tantos desses filmes, ou em imaginar a luta contra a morte – como a de um marinheiro solitário contra a embarcação que já não é mais capaz de transportá-lo, como em Até o Fim. Ou, como em Culpa, pode ser a de obrigar o espectador a se ir colocando no lugar do personagem até que ele se torne um espelho de cada um dos julgamentos, crenças e sentimentos que condicionam a maneira instintiva como nos movemos dentro de nossos próprios dramas.

Um Ator, Muito Drama

Filmes que exibem um único personagem em cena – e extraem dele o máximo de tensão

Encurralado (1971)

Na espetacular estreia de Steven Spielberg, Dennis Weaver é o motorista implacavelmente perseguido por um caminhoneiro de quem nunca se vê o rosto

Enterrado Vivo (2010)

Munido apenas de um celular e um isqueiro, Ryan Reynolds acorda dentro de um caixão enterrado em algum lugar do Iraque

Lunar (2010)

Na reta final de uma missão solitária de três anos em uma estação lunar, o astronauta de Sam Rockwell percebe que está começando a alucinar

Locke (2013)

Dirigindo noite adentro, Tom Hardy vê sua vida desmoronar em sucessivas conversas pelo viva-voz do carro

Até o Fim (2013)

Perdido no mar em um veleiro avariado, Robert Redford luta contra os elementos e contra a perspectiva da própria morte

Águas Rasas (2016)

Blake Lively é a surfista que, sozinha em uma praia deserta e muito ferida, é impedida de retornar à areia por um tubarão com sede de sangue

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista Veja em 02/01/2019
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2019

Trailer

CULPA
(Den Skyldige)
Dinamarca, 2018
Direção: Gustav Möller
Com Jakob Cedergren, Jessica Dinnage, Katinka Evers-Jahnsen, Johan Olsen
Distribuição: Califórnia

 

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