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Chadwick Boseman: que lástima – e que assombro

Com a integridade e a serenidade que emanavam dele, esse ator soberbo foi a pedra-de-toque da mais importante quebra de paradigma de Hollywood

Por Isabela Boscov - 29 ago 2020, 16h35

Vi Chadwick Boseman pela primeira vez em 42 – A História de uma Lenda, de 2013, e pensei, “rapaz de grande futuro”. Chadwick estava soberbo no papel de Jackie Robinson, que foi escolhido a dedo pelos Brooklyn Dodgers para se tornar o primeiro negro a integrar a liga principal do beisebol, em 1947 – não só porque era um jogador fenomenal, mas porque tinha altivez e autocontrole suficientes para aguentar a enxurrada de humilhações e agressões que viria pelo caminho e sair inteiro, e triunfante, dou outro lado da onda. O próprio Chadwick emanava qualidades parecidas: autoridade natural, serenidade e também algo mais difícil de definir, algo caloroso ou generoso, mas contido. Demorei a entender, na noite de ontem, o que a manchete da Variety dizia; como assim, Chadwick Boseman morreu, aos 43 anos? Chadwick, o Pantera Negra? Que lástima que aquele futuro que tanta gente pressentiu nele tenha sido tão curto. Mas que bom que, além de trabalhos excelentes como Get On Up: A História de James Brown, Marshall: Igualdade e Justiça e Destacamento Blood, ele incluiu Pantera Negra.

Chadwick Boseman
Como Jackie Robinson em “42 – A História de uma Lenda” - Warner/Divulgação

Acredito que não são muitos os atores que teriam inspirado tal confiança a ponto de um estúdio organizar em torno deles um filme de super-herói de 200 milhões de dólares em uma aposta que então se considerava arriscada – uma superprodução com diretor, roteiristas, equipe e elenco negros, algo que, na cabeça dos chefes de estúdios, seria muito diferentes de superproduções com astros negros, como Will Smith e o Eddie Murphy dos velhos tempos. Pantera Negra fez história; foi indicado a sete Oscar (ganhou três) e arrecadou 1,35 bilhão de dólares, metade dessa quantia fora dos Estados Unidos. Quebrou o paradigma – um paradigma estúpido, ultrapassado – ao demonstrar na ponta do lápis, o único critério em que a indústria de entretenimento realmente acredita, que o público não tem absolutamente nada contra elencos negros e histórias negras e, ao contrário, pode ter muito a favor delas. Ponto para a Marvel por ter calçado o discurso, que é grátis e qualquer um pode fazer, com dinheiro. Mas creio que, sem aquela solidez e aquele comprometimento que irradiavam de Chadwick, talvez isso tivesse demorado mais a acontecer.

Chadwick Boseman
Como James Brown em “Get On Up: A História de James Brown” - Universal/Divulgação

Quando fui ler a notícia sobre a morte de Chadwick, à minha incredulidade pela perda somou-se o assombro pela coragem dele. Diagnosticado com câncer de cólon em estágio 3 em 2016, Chadwick fez tudo o que fez nestes últimos anos ao mesmo tempo em que lutava contra a doença, entre cirurgias, sessões de quimioterapia e o que deve ter sido, imagino, uma convivência duríssima com a constatação de que o câncer não estava regredindo, mas avançando. Não faço a menor ideia de como ele conseguiu se mobilizar não só fisicamente para trabalhos tão puxados, mas sobretudo psicologicamente, para manter intacto aquele cerne que ele deixava entrever na tela e o que tornava tão especial. É muito mais que super-heróico: é sobre-humano. Que bom que houve um ator como esse em um momento como este. E que lástima que não será possível descobrir do que mais ele seria capaz.

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