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“A Trama”: ao sol do Mediterrâneo, a nova guerra europeia

Alunos e uma professora debatem o enredo de um romance policial – e o filme de Laurent Cantet pega fogo

Verão na costa azul do Mediterrâneo, sol batendo nas  pedras e na água, e um grupo de jovens do final do ensino médio passa a se reunir, todos os dias, para uma workshop de redação com uma escritora de algum prestígio vinda de Paris. O objetivo é escrever, em conjunto, um romance policial, a ser publicado como parte de um projeto bem-intencionado (ajudar alunos que tiveram experiências escolares ruins a confiar na arte e na criatividade etc.). Parece ameno ou, vá lá, tedioso? Pois em uns dez minutos eu já tinha começado a roer as unhas de nervoso, e no final estava sem respiração – e também sem chão. O diretor francês Laurent Cantet andava voando meio abaixo do radar desde que ganhou a Palma de Ouro em Cannes pelo formidável Entre os Muros da Escola, mas aqui ele repete o feito pelo qual levou o prêmio: partindo de um arranjo muito simples, explorar ao mesmo tempo na vertical e nas laterais a quase insuportável tensão social europeia de hoje. A coisa começa como se esperaria: no pequeno grupo há franceses brancos e de origem árabe, africana etc., e as discussões de tom racial e político (algumas bem-humoradas, outras bastante agressivas) se iniciam já nas primeiras decisões sobre o enredo a ser escrito: quem matou quem? Por quê? O passado da cidade em que eles moram – La Ciotat, perto de Marselha, que abrigou um imenso estaleiro e foi palco de choques intensos entre os trabalhadores e a empresa que geria o complexo – deve ser aproveitado na trama? As arestas afiadas do multiculturalismo europeu eram o tema central de Entre os Muros da Escola, e eu estava imaginando, portanto, que Cantet seguiria com uma variação – igualmente exuberante e envolvente – do filme de 2009.

A Trama

(Esfera/Divulgação)

Cantet, porém, é de uma inteligência e de uma lucidez notáveis, e logo vira o jogo: o que as brigas do grupo tão variado (filmadas com dinâmica às vezes vertiginosa pelo diretor de fotografia Pierre Milon) fazem é trazer à tona o espírito combativo de Antoine (o excelente Matthieu Lucci), um rapaz que incomoda os outros com as cenas de violência explícita dos seus textos, com suas inclinações à direita da direita e com o rosto que se fecha, acenando com perigo, sempre que as discussões ganham temperatura e ele, em vez de recuar, arremete mais e mais à frente. Antoine é um lobo solitário. Parece não ter amigos e, em casa, mal conversa com os pais. Assiste a vídeos de gurus do ultranacionalismo francês, joga games, nada no mar, faz musculação, anda a pé pela região, sempre silenciosamente seguido, a uma distância neutra, pela câmera. Gosta de passar na casa do primo, que tem um filho pequeno. Uma noite, sai com o primo e os amigos dele para atirar com uma .45, e eles postam vídeos da brincadeira (será brincadeira?), com o rosto pintado de preto e a pistola apontada para a câmera.

A Trama

(Esfera/Divulgação)

Olivia (Marina Foïs), a escritora, entra em um puxa-empurra com ele; Antoine é o mais inteligente e decididamente o mais talentoso da turma, mas o pensamento dele a intriga e repugna. Ela tem ainda um certo medo da volatilidade que ele expressa, e também uma certa atração por ele. A toda hora, quando ele se manifesta na aula, ela diz: “Diga, estou ouvindo”. Mas o que se ouve, na verdade, é: “Fale para que eu possa rebater e tentar levar você a pensar o que é certo”. E o que se vê é outra coisa ainda – uma pessoa que sente que seu equipamento intelectual, apesar de tão cultivado, se está provando e falho e não basta para dar conta desses enfrentamentos. Antoine pode ser menos sofisticado do que Olivia, mas prova ser tão ou mais lúcido que ela na maneira como desmonta um parágrafo de um romance que ela escreveu e expõe, em público, o artificialismo da escrita dela. Está aí a potência do filme – na maneira como Cantet faz os outros personagens irem caindo para segundo plano até focalizar toda a tensão nas interações entre Olivia e Antoine. É uma tradução limpíssima de um fenômeno recente: como todas as questões que dividem europeus (e americanos, e brasileiros, e o mundo em geral) em lados opostos e cada vez mais distantes do espectro político – imigração, emprego, direitos de minorias, tolerância sexual etc. – deixaram de ser questões concretas para se tornarem sinais de positivo e negativo numa nova luta de classes que é um fim em si mesma, e um desejo de erradicar o outro.

A Trama

(Esfera/Divulgação)

É a primeira vez que vejo alguém pôr o dedo exatamente na ferida, e cutucá-la tão sem piedade. Cantet não concorda com Antoine (nem com ninguém mais, aliás; o trabalho dele não é se alinhar com nenhuma trincheira), mas mostra como são ofensivas a condescendência e as pré-concepções com que Olivia se propõe a entender os caminhos perturbadores que o rapaz vem tomando, e como é presunçosa a sua intenção de corrigi-lo dada a sua cegueira para as razões que o fazem ver a vida da forma como ele a vê. Neste momento, diagnostica Cantet, nada tem sido tão decisivo para empurrar a Europa (e o mundo) para os braços da ultradireita furiosa quanto a satisfação dos que concordam, entre si, estarem cobertos de razão. Se há alguma coisa em que Cantet se permite acreditar como valor indiscutível, porém, essa coisa é a discussão, por mais conflagrada e hostil que ela seja. No desfecho em tom de thriller, Antoine consegue furar uma barreira. Pela primeira vez, Olivia é trazida a ver o que ele vê – e, nesse movimento, pela primeira vez também ela consegue fazer com que ele dê meia-volta e se olhe pelos olhos dela. Hoje, mais do que nunca, me parece arrebatadora a ideia de que, mesmo que por meios tão equivocados ou mesmo perigosos, duas pessoas refratárias uma à outra concordem em baixar a guarda e, por um instante, comuniquem-se de maneira tão indefesa e genuína.


Trailer

A TRAMA
(L’Atelier)
Direção: Laurent Cantet
Com Matthieu Lucci, Marina Foïs, Mamadou Doumbia, Warda Rammach, Florian Beuajean, Mélissa Guibert, Julien Souve, Issam Talbi
Distribuição: Esfera

 

Comentários
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  1. Ernesto Ribeiro

    Pela descrição da trama nesse artigo, eu vou roer as unhas dos carneirinhos que estiver contando enquanto durmo logo desde o começo do filme.

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