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“A Sombra do Pai”: a pressão de fazer o segundo filme

Depois de estrear lá em cima com “O Animal Cordial”, a diretora Gabriela Amaral Almeida tenta sustentar o impulso com uma história fantasmagórica

Uma tentativa de assalto num restaurante quase vazio, tarde da noite – com esse ponto de partida, a jovem diretora Gabriela Amaral Almeida se provou uma narradora original, forte e cheia de propulsão, e fez de O Animal Cordial, lançado em agosto do ano passado, uma das estreias mais auspiciosas do cinema nacional. E agora, então, vem a pressão do segundo filme – tanto maior quanto melhor tiver sido a recepção do primeiro. Esse é o momento em que o realizador mede forças consigo mesmo: deixa de ser um ponto isolado para, com dois pontos, traçar uma linha. Li um depoimento de Gabriela em que ela dizia que A Sombra do Pai é um roteiro no qual ela trabalhava havia anos; era para ter sido seu primeiro longa-metragem, na verdade. Faz sentido: as qualidades que mais admirei em O Animal Cordial – a concisão, a contundência, os parafusos muito bem apertados – apenas se desenham em A Sombra do Pai. Este filme mais sugere do que confirma a cineasta que se viu de forma mais plena em O Animal Cordial.

 (Pandora Filmes/Divulgação)

A premissa, porém, é novamente muito instigante. Dalva (a ótima Nina Medeiros), de 9 anos, perdeu a mãe alguns anos antes e, para sua angústia, já começa a esquecer as feições dela. Está prestes a sofrer uma nova perda: Cristina (Luciana Paes, tão excelente quanto em O Animal Cordial), a tia que cuida dela, vai se casar e deixar o convívio diário. Seu pai, o pedreiro Joaquim (Julio Machado), é mais uma ausência do que uma presença: fechado em si mesmo, taciturno e incomunicativo, ele nunca conseguiu metabolizar a perda da mulher nem os sentimentos ambivalentes que alimenta em relação à filha (por que perder uma pessoa em vez de outra é o tipo de indagação que o luto força sobre o enlutado, a despeito do horror que possa causar a ele). No emprego, longe do olhar da filha, Joaquim mostra as trincas na sua fachada; o prédio em construção em que ele trabalha está virando, para ele, um cenário aflitivo de acontecimentos inexplicáveis e pressentimentos estranhos. Ao ser, digamos assim, agredido pelo prédio, Joaquim adoece e os papéis domésticos se invertem de vez: agora é Dalva que, sozinha, terá de tomar conta dele. Sob uma carga muito maior do que pode suportar, ela escorrega para o terreno movediço da fantasia ou do oculto – quer conjurar a mãe morta, porque precisa de ajuda.

A Sombra do Pai

 (Pandora Filmes/Divulgação)

Cheio de referências ao Cemitério Maldito de Stephen King (Dalva é fã de filmes de terror) e positivamente brilhante em certos momentos – uma festa junina ao som de Frevo Mulher, de Amelinha, vira um ritual de presságios perturbadores –, A Sombra do Pai é, entretanto, algo tateante no conjunto: suas transições são mais vagas do que propriamente inesperadas, e falta-lhe aquela capacidade de concentrar potência que tornou O Animal Cordial tão marcante. A linha entre os dois pontos na carreira de longa-metragista de Gabriela está traçada, e indica uma habilidade muito singular e encorajadora para dar corpo às erupções do inconsciente – ou, digamos, dos pensamentos crepusculares que cada pessoa esconde de si mesma – no dia a dia. Quando ela terminar seu próximo filme, porém (uma história de exorcismo), aí sim teremos três pontos, e o plano há de ficar mais nítido.


Trailer

A SOMBRA DO PAI
(Brasil, 2018)
Direção: Gabriela Amaral Almeida
Com Nina Medeiros, Julio Machado, Luciana Paes
Distribuição: Pandora

 

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