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Nuvem de gafanhotos: qual é a relação entre o clima e os insetos?

Possibilidade de a praga que destruiu lavouras na Argentina chegar ao Brasil diminuiu, mas governo declarou emergência fitossanitária em dois estados do Sul

Por Jennifer Ann Thomas - Atualizado em 25 Jun 2020, 16h30 - Publicado em 25 Jun 2020, 16h18

A nuvem de gafanhotos que destruiu plantações de milho e mandioca na Argentina continua a se movimentar. Nesta quinta-feira, 23, a direção do vento mudou e as chances de os insetos chegarem ao Brasil são menores. No momento, eles seguem em direção ao Uruguai. Enquanto isso, a ideia de uma grande peste capaz de dizimar produções agrícolas segue preocupando fazendeiros e levou o governo a declarar um estado de emergência fitossanitária no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.

Segundo o secretário de Defesa Agropecuária, José Guilherme Leal, o governo federal participa do grupo de monitoramento e combate aos gafanhotos. “A publicação de emergência é uma medida preventiva, para que possamos nos anteceder aos fatos. A perspectiva é que (a nuvem) não chegue no território brasileiro”, declarou.

Apesar de ser um evento pouco comum, as nuvens de gafanhotos são fenômenos naturais. De acordo com o pesquisador e entomologista da Embrapa Clima Temperado em Pelotas (RS), Dori Edson Nava, a questão na região da Argentina vem sendo acompanhada desde 2015, quando o governo do país percebeu o risco de um grande aumento na população dos insetos. 

Mas o que fez, afinal, com que a “nuvem” surgisse? Normalmente, os gafanhotos vivem isolados. De acordo com o climatologista e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, Carlos Nobre, mudanças no clima servem como uma espécie de gatilho biológico para que eles se tornem gregários. “As ondas de gafanhotos se formam após uma forte chuva, seguida por um período de calor, depois de uma estação muito seca. Com essa combinação de fatores, os gafanhotos começam a se reproduzir e migram de acordo com a direção do vento”, afirmou.

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As mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global têm potencial para fazer com que esses eventos aconteçam com frequência maior. “Os extremos do clima já ocorrem, como os períodos intensos de seca e de chuva. Essa é uma consequência das mudanças climáticas, que tornam as transições abruptas mais comuns”, explicou Nobre. 

De acordo com Nava, quando as condições se tornam ideais para a reprodução dos gafanhotos, o aumento da população faz com que os insetos precisem buscar alimento – além de o grupo de tornar maior, os jovens passam pela fase de crescimento. “O instinto natural é migrar. A forma como escolhem a direção é pelo vento e a temperatura. Se estiver abaixo de 20 graus, eles vão permanecer parados”, explicou.

Por causa da previsão meteorológica para as próximas semanas, a chance de os insetos entrarem no Brasil é pequena, mas ela existe. “O dano também será baixo. Os grãos na região sul foram colhidos. Contudo, há pastagem para gado e ovelhas. Se a nuvem pousar sobre essas áreas, certamente os gafanhotos vão acabar com ela”, explicou Nava. Caso isso aconteça, o estado de emergência fitossanitária permitirá a adoção de medidas de controle e o uso de produtos químicos com equipamentos de pulverização aérea.

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Supondo que a nuvem entre no Brasil em uma temperatura adequada, o potencial de deslocamento é grande. Com a capacidade de se percorrerem longas distâncias, eles poderiam atravessar o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e chegar até o Paraná. Durante esse percurso, as fêmeas colocariam mais ovos, que se tornariam fonte de infestação para as futuras gerações de gafanhotos no Brasil.

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Com a queda na temperatura, a tendência é que os insetos fiquem no local onde ocorrer o último registro. A partir disso, começa o processo de dispersão e eles se tornam alvo de predadores, como lagartixas, sapos e aves. Apesar de serem chamados de pragas, os gafanhotos têm uma função biológica importante. Em equilíbrio, são agentes reguladores de plantas e de outros organismos, ao competirem por espaço e por alimentos dentro da teia alimentar.

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