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Bebês Yanomami: a dor das mães sem notícias dos filhos mortos na pandemia

Tradição da etnia é a de cremar os corpos e o ritual pode levar mais de um ano para ser concluído; ONG vê desrespeito à cultura indígena

Por Jennifer Ann Thomas - Atualizado em 3 jul 2020, 17h41 - Publicado em 3 jul 2020, 17h36

Ao longo da última semana, desde a publicação de um artigo da jornalista e escritora Eliane Brum no El País, o desaparecimento de quatro bebês indígenas da etnia Yanomami que passaram por hospitais revelou mais um revés da pandemia de coronavírus. Em Boa Vista, capital de Roraima, três dos corpos foram encontrados em um cemitério da cidade e os três faleceram com suspeita de contaminação por Covid-19. O quarto bebê não foi enterrado e testou negativo para coronavírus, o que permitiu garantir o translado de volta à terra indígena Yanomami.

No mundo dos “brancos”, os colonizadores e seus descendentes, a notícia sobre a separação entre as mães e os corpos de seus filhos é aterrorizante por si só. A construção social sobre a maternidade traz dificuldade em imaginar que uma mãe conseguiria voltar a ter paz enquanto o corpo de um filho estivesse desaparecido. Para os Yanomamis, a dor é ainda maior.

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Sem falar português, uma das mães, do subgrupo Sanöma, enviou uma mensagem na língua materna a Eliane Brum. Ela disse: “Sofri para ter essa criança. E estou sofrendo. Meu povo está sofrendo. Preciso levar o corpo do meu filho para a aldeia. Não posso voltar sem o corpo do meu filho”. De acordo com o antropólogo do Instituto Socioambiental (ISA), Moreno Saraiva, o ritual funerário tem um papel essencial na cultura Yanomami. “O corpo é sempre cremado e o ritual pode demorar anos até ser concluído. Somente assim aquela pessoa poderá passar para o outro plano sem ser lembrado aqui”, explicou.

O caso que envolveu as crianças impediu que o ritual fosse realizado. Diante da ameaça do coronavírus, há o perigo real em transportar o corpo contaminado de volta para a aldeia e aumentar o risco aos indígenas. “Talvez exista uma solução, como a cremação fora da aldeia e depois entregar as cinzas. Faltou o básico, o diálogo, para conversar com essa população e encontrar saídas”, afirmou Saraiva.

A comunicação é uma questão chave para evitar que outras situações tão dramáticas ocorram. Por não falarem português, as mães provavelmente não entenderam o que aconteceria com os corpos de seus filhos. Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que elas foram “devidamente comunicadas sobre os procedimentos funerários”. Contudo, isso não quer dizer que elas compreenderam as informações e o que aconteceria dali em diante. “É positivo que os corpos foram localizados, mas é necessário ter um protocolo claro sobre o que acontecerá no caso de outra morte”, explicou. 

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De acordo com Saraiva, um levantamento do ISA mostrou que a maior parte da sociedade é a favor da diversidade cultural, mas dentro de um olhar para os povos indígenas como pessoas distantes, que vivem na Amazônia, longe dos centros urbanos. O contato da proximidade, do dia a dia, é o que revela o preconceito. “Esse caso dos bebês reflete a consequência prática da falta de respeito pelos indígenas”, disse.

Além disso, indígenas começaram a ficar com medo de buscar tratamento e não terem os seus corpos devolvidos à comunidade, caso não se recuperem da doença. “Estamos no limite da incompreensão por parte do estado brasileiro, atitude que pode matar as pessoas. Uma boa solução precisa ser negociada em conjunto com os povos indígenas”, afirmou Saraiva.

Após a repercussão negativa do caso Yanomami, o governo federal realizou uma ação interministerial da Funai, Secretaria de Saúde Indígena e Ministério da Defesa nos territórios de Roraima. Contudo, o Ministério Público Federal (MPF) vai investigar a atuação após receber denúncias sobre “distribuição de cloroquina às comunidades indígenas” e “o ingresso nos territórios sem prévia consulta de seus povos”. De acordo com o MPF, as operações atuais “não respeitaram as orientações pretendidas no plano emergencial, como a fixação de equipes interinstitucionais em pontos estratégicos da terra indígena, formadas por forças de controle, bem como medidas para que o risco de contaminação não seja agravado, como quarentena prévia das equipes e não aproximação das populações indígenas”.

 

 

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