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Felipe Moura Brasil Por Blog Análises irreverentes dos fatos essenciais de política e cultura no Brasil e no resto do mundo, com base na regra de Lima Barreto: "Troça e simplesmente troça, para que tudo caia pelo ridículo".

Só Beltrame não tem culpa por insegurança? É ruim, hein! Rio de Janeiro tem cinco PMs e um cabo mortos em uma semana; um assalto de rua a cada seis minutos! Das dez áreas com maiores aumentos do número de assaltos, seis são de favelas com UPP! Que “pacificação” é essa? Boletim põe oficiais músicos de sobreaviso para funerais em fins de semana! A realidade é uma piada macabra!

Por Felipe Moura Brasil Atualizado em 31 jul 2020, 02h33 - Publicado em 30 nov 2014, 23h49
Caixão PM

Policiais militares compareceram ao sepultamento de Anderson Sena usando camisas brancas com a palavra ‘basta’. Foto: Severino Silva / Ag. O Dia

O secretário de Segurança mais bajulado da história do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, disse em 2010: “prender bandido é importante, apreender droga é importante, mas o mais importante é recuperar o território”; “não tenho a pretensão de acabar com o tráfico”.

Em março de 2014, quando traficantes incendiaram bases da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), este senhor que nunca teve como prioridade prender bandido disse que o sistema penal e prisional deve ser repensado e que algumas questões, como o aumento no uso de crack, a falta de controle das fronteiras, a maioridade penal e – acredite – o uso de armas de fogo militares por parte de civis (não de bandidos), contribuem com o crescimento da violência:

“Se não discutirmos isso tudo de forma ampla, vamos passar a vida inteira resolvendo crises e não resolvendo o problema de segurança pública.”

Nem parecia, comentei na ocasião, aquele Beltrame que, em 2010, dizia que “o mais importante é recuperar o território”. Quando a coisa literalmente explode, parece haver questões mais importantes do que esta, não é mesmo? Senão vamos “passar a vida inteira resolvendo crises”…

Agora que cinco PMs e um cabo do Exército foram mortos, e mais dez PMs feridos à bala, em uma única semana no estado, Beltrame mais uma vez jogou a culpa em todo mundo, menos nele:

“Precisamos de ações institucionais articuladas. Precisamos do Legislativo, do Judiciário, do sistema prisional, de um trabalho forte em fronteira, de segurança primária e de ações fortes em relações a menores.”

Politicamente, é uma posição cômoda a de Beltrame, porque obviamente há problemas nisto tudo, como este blog sempre apontou. Mas ele está há oito anos à frente da secretaria, com o maior investimento já feito na história da Segurança Pública. Recebeu tudinho que pediu – e, neste ponto, o governo Sérgio Cabral não pode levar a culpa: gastou uma fortuna com tecnologia, centro de comando e controle, renovação de frotas de viaturas. Houve denúncia contra Beltrame, aliás, por improbidade administrativa neste contrato milionário. Mas em suma: recebeu muito dinheiro para trabalhar e contou com a contratação de 10 mil homens nos últimos anos. Para Cabral, que lhe dava tudo, tê-lo à frente da pasta era uma preocupação a menos. Seu sucessor no governo, Luiz Fernando Pezão, o manteve por isso.

Acontece que os índices negativos vêm explodindo dentro e fora das favelas, e a imprensa não confronta Beltrame com esses dados, não separa a sua responsabilidade das alheias, não o cobra por sua parcela de culpa, no mínimo, em questões estratégicas. Não é porque ninguém fez nada pela segurança antes dele que ele está sendo eficaz em tudo que faz. Longe disso!

Darei um panorama da situação, não sem antes homenagear os seis mortos da semana:

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– Ryan Procópio, lotado na Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Vila Kennedy, favela da Zona Oeste do Rio. Foi sequestrado por traficantes, torturado e executado com disparos de fuzil e pistola na segunda-feira (24). O PM chegou a ligar para um amigo e pedir ajuda ao perceber que seria capturado. O corpo foi encontrado no porta-malas do carro da vítima, abandonado pelos criminosos nos arredores da avenida Brasil, na altura de Bangu, também na Zona Oeste.

Anderson PM morto

– Anderson de Senna Freire, soldado cujo carro de patrulha do 41º BPM (Irajá) foi atacado na Avenida Brasil, na altura de Guadalupe, no começo da madrugada de quarta-feira (26). Pelo menos três tiros perfuraram o vidro dianteiro do veículo policial e a lataria. Pai de dois filhos, caçula de três irmãos, Anderson – que morava com a mãe e um dos filhos – foi baleado na cabeça e morreu no Hospital estadual Albert Schweitzer, em Realengo, onde o soldado Bruno de Moraes, seu colega baleado no ombro, segue internado.

mikami

– Michel Augusto Mikami, de 21 anos, cabo da Força de Pacificação do Exército. Morreu na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Complexo da Maré após ser baleado na cabeça durante uma ação de patrulhamento na localidade conhecida como Vila dos Pinheiros, no conjunto de favelas na Zona Norte do Rio, nesta sexta-feira (29), conforme noticiado em primeira mão neste blog. Esta é a primeira morte de um militar das Forças Armadas desde o início do processo de pacificação, há seis anos. E esta morte foi comemorada por um grupo de jovens da Maré, como se pode ver em vídeo também divulgado aqui.

3 PMs mortos em 1 dia

Os três mortos de sábado (29): em sentido horário, Jorge Henrique, Jorge Serrão e Diego Santos. Montagem: Faca na Caveira

– Jorge Henrique Xavier, subtenente lotado no 16º BPM (Olaria). Chegava em sua casa em Magé quando bandidos efetuaram disparos. De acordo com policiais, ele foi alvejado com 17 tiros de fuzil, inclusive na cabeça.

– Jorge Serrão, subtentente do 21º BPM (São João de Meriti). Estava na companhia do filho, próximo à sua residência na Rua Lageado, na área do 9º BPM, em Rocha Miranda, quando foi abordado por dois criminosos. O policial teria tentado reagir e acabou alvejado. Chegou a ser levado para a Clínica Médica Rocha Miranda, mas não resistiu aos ferimentos. Os bandidos fugiram. O filho não ficou ferido.

– Diego Santos de Oliveira, soldado do 21º BPM lotado na UPP do Morro do Turano. Estava com o irmão Diogo na favela do Dique, em Vilar dos Telles, na Baixada Fluminense, quando criminosos tentaram levar sua moto e atiraram contra ele e o irmão, que também morreu no local.

Total de policiais baleados e mortos
Com isso, chegamos ao número de 263 policiais baleados (e 105 PMs assassinados), do início de janeiro até a noite deste sábado, 29 de novembro. O estado do Rio de Janeiro, portanto, está com uma média de 6 policiais baleados por semana em 2014. É como se fosse um policial baleado por dia de segunda a sábado, com um descanso dos bandidos aos domingos para um churrasquinho na laje, porque ninguém é de ferro.

Morte de civis
E não pense o leitor, repito, que os policiais estão morrendo, mas os civis, não. De acordo com o Mapa da Violência de 2014, foram 30 por 100 mil os crimes violentos intencionais no Rio em 2013, 157% a mais do que São Paulo, com crescimento de 15% em relação a 2012. Em números absolutos, o Rio passou de 4.241 vítimas para 4.928.

E o que dizer dos roubos?
Em março, a Veja.com já mostrava que nunca foi tão fácil ser assaltado no Rio de Janeiro. O estado registrara em janeiro o maior número de casos dos últimos dez anos, com 13.876 roubos – volume 26% superior ao de janeiro de 2007, início do governo Sérgio Cabral.

Agora, a cada 400 segundos (cerca de seis minutos e meio), um pedestre é vítima de roubo no Rio. Foram 67.928 ocorrências deste tipo entre janeiro e outubro de 2014, num aumento de 37% em relação aos mesmos dez meses do ano passado.

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O levantamento feito pelo EXTRA com bases nos dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostra que a região mais crítica do estado, em números brutos, é a de São Gonçalo, com 7.333 roubos, seguida de perto por duas Áreas Integradas de Segurança Pública (Aisp) situadas na Baixada Fluminense: a de Mesquita, que também abrange Nova Iguaçu e Nilópolis, e a de Duque de Caxias. Há anos venho denunciando o aumento do crime em São Gonçalo e Nova Iguaçu, por conta da exportação de parte dos bandidos das favelas cariocas para essas regiões vizinhas após a chegada gentilmente anunciada das UPPs.

“Vítimas da sociedade” não são presas no Rio, só espantadas – se tanto – para aterrorizar nas redondezas (incluindo aí Baixada, Zona Oeste, Zona Norte, Niterói e interior do estado). Digo “se tanto”, sim, porque não pense o leitor, tampouco, que o roubo de rua aumentou só nas áreas distantes das UPPs e naquelas menos abastadas. O EXTRA não analisou os dados que divulgou, mas este blog fez seu dever de casa. Veja a tabela.

Volto em seguida.

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Roubo em área de UPP
Atenção: das dez áreas que apresentam os maiores aumentos do número de assaltos, seis (6!!!) são de favelas com UPP!

– Tijuca (AISP 6) tem UPP em TODOS os morros;

– Jacarepaguá (AISP 18) tem a Cidade de Deus, ocupada há seis anos! Foi a segunda, aliás, logo após o Dona Marta, em Botafogo;

– São Cristóvão (AISP 4) tem UPP em TODAS as favelas: Mangueira, Caju, Barreira do Vasco e Tuiuti;

– Complexo da Maré (AISP 22) tem UPP em todo o complexo de Manguinhos, no vizinho Jacarezinho, e tem toda a própria maré ocupada por 2.000 homens do exército desde abril!

– Bangu (AISP 14) tem UPP na Vila Kennedy, a última a ser inaugurada – aquela mesma onde era lotado o PM assassinado Ryan Procópio.

– Leblon (AISP 23) tem UPP no Morro do Vidigal e na Favela da Rocinha.

Nas seis áreas acima, o roubo de rua aumentou entre 62,2% (Leblon) e 69,8% (Tijuca). Isto mostra que não houve apenas migração de bandidos para áreas afastadas, mas um verdadeiro espalhamento dessa criminalidade por todas as áreas. E é sempre bom lembrar: os índices reais são bem maiores do que esses, já que muita gente não vai à polícia após ser roubada.

Roubo em áreas nobres
O Leblon (AISP 23) teve 855 assaltos a pedestres de janeiro a outubro, uma média de 2,8 – sim: quase três – por dia! O número e o aumento assustam porque esta é a área mais policiada da cidade do Rio. Em julho, após a morte de uma das donas do restaurante Guimas, Maria Cristina Mascarenhas, vítima de uma “saidinha de banco” que terminou em disparo na Gávea, Veja.com já mostrava que os índices de criminalidade do 23º BPM (Leblon) – responsável pelo policiamento da região mais nobre da cidade, englobando Jardim Botânico, Lagoa, São Conrado, Ipanema, Leblon e Gávea – vinha ultrapassando com folga todas as “metas” estabelecidas pelo governo. Sim, a Secretaria de Segurança têm metas estipuladas para o que considera tolerável (e sinto dizer, elas não são “Criminalidade Zero”). A “meta” para a área no primeiro semestre de 2014 era de 399 assaltos nas ruas dos seis bairros, mas o número total chegou a 824 roubos, ou seja, 106% acima do previsto!

Mais polícia no morro, menos no asfalto
Os dados mostravam um nítido aumento dos crimes no asfalto depois que Vidigal e Rocinha foram ocupadas pelas forças de segurança e receberam UPPs. O efetivo do projeto nessas duas localidades era de 869 policiais, para uma população total de 82.153 moradores, fazendo com que a relação policial por habitante chegasse a um para cada 94,5 moradores, enquanto a proporção para o restante da região (onde vivem 156.449 pessoas e há 643 policiais lotados) chegava a um PM para cada 346 pessoas. Nos seis primeiros meses de 2011 (pré-UPP), o número de assaltos nas ruas havia sido de 482, 70% a menos do que os 824 do primeiro semestre de 2014. A “meta”’ de carros roubados para esse período era de 21, mas foram 57, sendo que três anos antes haviam sido 25, ou seja: houve um acréscimo de 128%.

Que “pacificação” é essa?
Muito bem. Em evento no Maracanãzinho, Beltrame desmentiu as notícias de que os últimos ataques a policiais, ocorridos na noite de sábado, haviam sido ordenados de presídios, dizendo que, a princípio, foram “tentativas de assalto”. Não sei que tentativa de assalto resulta em 17 tiros na vítima, mas, ainda que seja assim, isto não melhora a situação, porque, como vimos, assaltos são um tremendo problema do Rio de Beltrame e ainda têm essa eventual consequência de fazer defuntos. A área de Rocha Miranda, onde morreu o subtenente Jorge Serrão, está em quarto lugar em número bruto de assaltos. A de Magé, onde morreu o subtenente Jorge Henrique Xavier, é a sexta em aumento percentual. E a Baixada, onde morreu o soldado Diego Santos de Oliveira, dispensa apresentação.

“Nós vamos atrás do autores [dos crimes]”, disse o secretário. “Teremos uma reunião das polícias Militar e Civil, onde pretendemos articular algumas ações.”

Esta é a manchete na imprensa: “Beltrame convoca reunião…”. Sabe quando Dilma cria comissões para resolver os próprios escândalos de seu governo? Pois é.

Dentro e fora das favelas, os cenários estão degringolando, mas a lua-de-mel da imprensa com Beltrame, assim como a criminalidade no estado, parece não ter fim.

É melhor mesmo os oficiais músicos ficarem de sobreaviso em dezembro para serviços de funerais nos finais de semana, como pede o boletim da PM.

Este Rio de sangue só pode acabar em piada macabra.

Funerais

Veja também aqui no blog:
A farsa da pacificação no Rio de Janeiro;
O Brizola do mundo.

Felipe Moura Brasil ⎯ http://www.veja.com/felipemourabrasil

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