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Felipe Moura Brasil Por Blog Análises irreverentes dos fatos essenciais de política e cultura no Brasil e no resto do mundo, com base na regra de Lima Barreto: "Troça e simplesmente troça, para que tudo caia pelo ridículo".

Oscar 2015: ‘Sniper americano’ 6 x 0 Clint Eastwood. Veja como funciona Hollywood

Por Felipe Moura Brasil Atualizado em 31 jul 2020, 02h19 - Publicado em 16 jan 2015, 04h24

Clint Sniper

Com estreia adiada no Brasil para 19 de fevereiro, “Sniper americano” recebeu 6 indicações ao Oscar nesta quinta-feira (15) – Melhor Filme, Ator (Bradley Cooper), Roteiro Adaptado, Montagem, Edição de Som, e Mixagem de Som -, mas Clint Eastwood ficou de fora da lista para Melhor Diretor, embora dois dias antes tenha entrado na do Directors Guild.

[Lista completa do Oscar – aqui.]

O filme, como antecipei no Natal, é baseado no livro de memórias de 2012 de Chris Kyle, que narra sua história desde os tempos de cowboy até se tornar o atirador mais letal da história militar dos Estados Unidos, matando 160 insurgentes no Iraque entre 1999 e 2009. 

Em fevereiro de 2013, Kyle e seu amigo, Chad Littlefield, foram tragicamente mortos em um campo de tiro por outro veterano de guerra, o perturbado Eddie Ray Routh, que sofre de estresse pós-traumático e cujo julgamento está previsto para começar no próximo mês.

Eu havia questionado aqui: “Será que o maior prêmio da esquerda mundial – o Oscar – vai se render à obra de um crítico de Obama como Eastwood sobre um militar atuante na famigerada guerra do Iraque?”

clint_sniper_illoEm novembro, a Hollywood Reporter também fez uma matéria sobre isso com o título: “O desafio de Clint Eastwood no Oscar: fazer com que os eleitores esquerdistas [da Academia] amem ‘Sniper americano’”.

Eis um trecho, para dar um choque de realidade naqueles brasileiros de fralda mental que acham que Hollywood é “conservadora”, “de direita”:

“…o ponto de vista de Sniper se encaixa menos confortavelmente com a tendência esquerdista da Academia do que as duas obras anteriores de Eastwood vencedoras do prêmio de Melhor Filme – uma delas, um hino contra a violência (‘Os imperdoáveis’); a outra, uma elegia sobre boxe (‘Menina de ouro’). Este filme celebra a vida real de um herói da Guerra do Iraque, Chris Kyle (Cooper), que matou mais do que qualquer outro soldado.

‘Eles teriam que mudar a lógica de toda a votação, porque esses filmes de viés republicano têm de apelar para Los Angeles e Nova York – o que vai ser difícil’, diz um rival de campanha por prêmios. ‘Esta multidão esquerdista não vai se reunir em torno de um SEAL da marinha mais conhecido por matar pessoas.

Mesmo assim, Sniper pode ganhar? Sim” – e a Hollywood Reporter apontava então o caminho de marketing para a Warner Bros conseguir as indicações (porque lamento desapontar as crianças, mas sim: há campanhas políticas para o Oscar).

Alguns dos conselhos eram:

– salientar o status de ícone de Eastwood;

– lembrar os eleitores que sua idade (84 anos) significa que ele não terá muito mais ‘tiros’ em um Oscar;

– notar que ele evitou partir para o tipo de violência generalizada que pode ter prejudicado as chances de outro filme de guerra recente, “Lone Survivor”.

– fazer de Sniper parte do debate atual sobre o envio de forças de volta ao Iraque para enfrentar o Estado Islâmico. “O filme mostra o preço que um herói de guerra pagou; queremos outros heróis mortos também?”

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– obter endossos, não dos óbvios, Colin Powells ou veteranos militares que vão alienar a Academia, mas de ativistas de guerra que veem a vida de Kyle como uma lição para os outros.

Tudo isso vai ajudar, dizia a revista, mas só uma coisa poderia ser decisiva: o próprio Clint.

Na verdade, ele participou da convenção republicana de 2012, mas há poucas figuras de Hollywood mais admiradas do que ele é pela direita e pela esquerda.

Nenhum filme na corrida deste ano tem proporcionado aos eleitores uma razão convincente para ser nomeado melhor filme. Clint lhes dá esse motivo. Mas a Warner tem de convencer a famosa estrela reticente a chegar lá. Ponham Clint para conversar, e ele poderia ganhar esta guerra.”

Clint provavelmente não atuou muito nos bastidores eleitorais, mas os esforços da Warner se intensificaram na reta final e a estratégia de lançamento às vésperas da votação dos indicados parece ter funcionado pelo menos para o filme – o que obviamente honra o diretor. Semanas após uma exibição limitada no Natal, ele chega com 6 indicações aos cinemas americanos neste fim de semana, com boas chances de assumir a liderança das bilheterias.

Claro que um monte de esquerdistas na imprensa e nas redes sociais tentou detoná-lo com os chavões de costume. O verdadeiro Sniper americano era um assassino cheio de ódio. Por que há patriotas simplistas tratando-o como um herói?”, escreveu Lindy West no jornal The Guardian. “‘Sniper americano’ simboliza perfeitamente um certo tipo de bosta americana”, escreveu Michael Atkinson no In These Times. O ator Bradley Cooper rebateu as críticas ideológicas:

“Para mim e para Clinteste filme sempre foi um estudo de personagem sobre como é a situação para um soldado. Não é uma discussão política sobre a guerra, mesmo. É uma discussão sobre a realidade. E a realidade é que as pessoas estão voltando para casa, e temos que cuidar delas.

A viúva de Kyle, Taya (interpretada por Siena Miller), defendeu o marido:

Eu não tenho notado muito [esse tipo de ‘crítica’], mas acho que mesmo Madre Teresa pode ser criticada por alguém, em algum lugar, e fazendo isto apenas querem espalhar o seu próprio ódio. Mas as pessoas que conheceram Chris, e, certamente, a vida que ele viveu, provaram que é completamente o oposto. Ele não era uma pessoa cheia de ódio. Ele era apenas um homem fazendo o trabalho dele. Havia pessoas que estavam indo matar seus companheiros ou civis iraquianos, e ele tinha uma escolha a fazer. Ou ele permitia que isso acontecesse, ou ele assumia o preço de eliminar alguém.”

Em matéria de Oscar, quando o ingrediente conservador de um filme causa tamanha polêmica, a Academia dificilmente lhe confere o prêmio principal.

Em 2013, “Zero Dark Thirty”, de Kathryn Bigelow, cometeu o “pecado” de sugerir que as informações obtidas pela CIA por meio das sessões de waterboarding aplicadas a terroristas do 11 de setembro foram fundamentais para localizar Osama Bin Laden. Resultado: foi indicado, mas perdeu para o politicamente correto “Argo”, de Ben Affleck, como comentei aqui.

Esta é a lista dos indicados a Melhor Filme deste ano:

– Boyhood: Da Infância à Juventude
– Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
– Sniper Americano
– O Grande Hotel Budapeste
– O Jogo da Imitação
– A Teoria de Tudo
– Selma
– Whiplash: Em Busca da Perfeição

Será difícil para ‘Sniper’ vencer no dia 22 de fevereiro, mas neste blog, pelo menos, só o trailer já lhe valeria o troféu.

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Felipe Moura Brasil ⎯ http://www.veja.com/felipemourabrasil

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