Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

O pequeno escritor

[Tiro do baú este meu conto, que ainda há de virar curta-metragem, porque este blog na VEJA não seria a minha cara sem ele.]
 
– Mas, pai, como é que eles sabem tudo do mundo?
 
Televisão ligada no telejornal.
 
– Eles estão lendo, meu filho.
– Como, se eles estão olhando pra gente?
– Eles estão lendo na câmera.
– Mas de que tamanho é a câmera?
 
O pai abre os braços.
 
– E cabe tudo que eles estão falando nesse tamanho?
– É um computador. As letrinhas vão descendo.
– É uma câmera ou é um computador?
– Os dois.
 
O filho analisa o telejornal.
 
– Mas, pai, se eles estão lendo, você também podia ler, né?
– Não, meu filho.
– Você não sabe ler, pai?
– Sei, mas não na televisão.
– Qual é a diferença?
– É mais difícil.
 
Comerciais.
 
– Pai, compra um computador-câmera pra mim?
– Você quer trabalhar na televisão, filho?
– Eu quero saber tudo do mundo. É muito caro?
– Mais ou menos. Mas não vem com tudo do mundo.
– Como assim?
– Alguém precisa escrever o que você vai ler.
– Você não sabe escrever?
– Sei, mas não pra televisão. Não tudo do mundo.
– E quem sabe tudo do mundo?
– Um monte de gente.
– Um monte de gente, e você não?
– Não, um monte de gente junta.
– Ninguém sabe tudo do mundo sozinho?
– Ninguém.
– Nem eles que estão lendo?
– Muito menos eles.
 
Volta o telejornal.
 
– Onde está quem escreveu o que eles estão lendo?
– A maioria não aparece.
– E pode isso? Ficar lendo as coisas dos outros?
– Pode.
– Eles não ficam bravos?
– É o trabalho deles.
– Qual é a graça de saber tudo do mundo e ficar escondido?
– Não sei.
 
O filho levanta, pega um livro da estante.
 
– Quem escreveu isso?
– Shakespeare.
– Você conhece?
– Só de foto.
– Mas nunca viu ele falando?
– Nunca.
– Nem na rua?
– Nem na rua.
– E ele sabe muita coisa?
– Muita.
– Por que ele fica escondido, então?
– Pra poder escrever.
– Não é chato?
– É o trabalho dele.
 
O filho olha o telejornal. Olha Shakespeare. Alterna entre os dois.
 
– Ele não escreve pro computador-câmera?
 
Ele é Shakespeare.
 
– Não.
– Ninguém lê isso na televisão?
 
Isso é Hamlet.
 
– Não.
– Onde se lê isso?
– No livro ou no teatro.
– Teatro?
– É como na televisão, só que quem lê está na nossa frente, de verdade.
– Sem computador-câmera?
– Sem.
– Eles levam o livro na mão?
– Eles guardam tudo na cabeça.
 
O filho folheia Hamlet.
 
– Tudo isso?
– Tudinho.
– Então teatro é mais difícil que televisão?
– Talvez… É diferente.
 
Comerciais.
 
– Mas, pai, quem sabe mais do mundo: quem escreve pro computador-câmera ou ele?
 
Ele é Shakespeare.
 
– Ele, meu filho.
– Tem certeza?
– Absoluta.
– Então por que estamos vendo televisão?
– Não sei. Quer que eu leia pra você?
– Quero.
 
O pai desliga a televisão. Começa a ler Shakespeare.
 
– Você erra muito, pai!
– Faz tempo que não leio Shakespeare.
– Não entendi nada.
– Aos poucos, você entende.
 
O pai continua lendo. O filho dorme parcialmente.
 
Sonha que está na televisão. O computador-câmera é o livro de Shakespeare. Ele apresenta o telejornal. O telejornal é Hamlet. Sua voz é a de seu pai.
 
O pai erra. Ele acorda.
 
– Quem escreve também erra, pai?
– Erra, filho, mas tem tempo pra corrigir. Mesmo assim, erra.
– Ele erra?
 
Ele é Shakespeare.
 
– Nunca notei, filho. Por quê?
– Eu quero saber tudo do mundo e ter tempo pra corrigir.
– Você quer ser escritor?
– Não sei. Tenho que ficar escondido?
– Não sei.
 
O pai volta a ler. O filho volta a sonhar. Agora é Shakespeare. Está escondido atrás do computador-câmera. O telejornal é Hamlet. Segundo ato. Os apresentadores têm a voz de seu pai.
 
O pai engata na leitura. Os apresentadores não erram. O filho vai ficando mais à vontade. Sente menos frio. Os apresentadores dizem boa noite. Acaba o telejornal. Os apresentadores lhe dão um beijo na testa. Vão embora.
 
Shakespeare acorda de manhã.
 
Por Felipe Moura Brasilhttps://veja.abril.com.br/blog/felipe-moura-brasil

Comentários
Deixe um comentário

Olá,

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

  1. Comentado por:

    Alexandre

    Felipe, parabéns!
    Admiro muito seu trabalho, e já sou leitor de seus textos há um bom tempo!
    Gostaria de lhe perguntar se posso indicar seus textos em meu blog, criado recentemente para indicar frases, textos, reflexões, cultura, etc. Gostaria de reproduzir seus textos completos, claro que com sua indicação como autor e link para sua página original.
    Se puder responder para meu e-mail, ficarei imensamente agradecido.
    Fique com Deus e que Ele continue nos abençoando!

    Curtir