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Felipe Moura Brasil Por Blog Análises irreverentes dos fatos essenciais de política e cultura no Brasil e no resto do mundo, com base na regra de Lima Barreto: "Troça e simplesmente troça, para que tudo caia pelo ridículo".

O hediondo Profissão Repórter sobre a maioridade penal

A Rede Globo é tão “direitista” que o Jornal Nacional faz campanha pelo desarmamento e o Profissão Repórter contra a redução da maioridade penal. O programa hediondo de Caco Barcellos cometeu as seguintes trapaças: 1) Mostrou a tristeza da mãe dos menores criminosos, não da mãe das vítimas de seus crimes. Poderia ter entrevistado Marisa […]

Por Felipe Moura Brasil Atualizado em 31 jul 2020, 01h37 - Publicado em 15 abr 2015, 04h59

A Rede Globo é tão “direitista” que o Jornal Nacional faz campanha pelo desarmamento e o Profissão Repórter contra a redução da maioridade penal.

O programa hediondo de Caco Barcellos cometeu as seguintes trapaças:

1) Mostrou a tristeza da mãe dos menores criminosos, não da mãe das vítimas de seus crimes.

Poderia ter entrevistado Marisa Deppman, mãe de Victor Hugo, assassinado por um menor.

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Deppman

Victor Hugo e o menor assassino no momento do crime: sim, ele atirou mesmo após o jovem entregar o celular

2) Usou a falsa estatística de que “apenas 1% dos crimes são cometidos por ‘adolescentes’”, citando como fonte o Ministério da Justiça, que também teria acrescentado uma nova lenda: “se considerarmos apenas homicídios e tentativas de homicídio, o índice cai para 0,5%”.

Profissão RepórterLeandro Narloch, colunista aqui do site de VEJA, já havia desmascarado o dado fantasma original no dia 9. O Ministério da Justiça, na verdade, não registra dados de faixa etária de assassinos.

A estatística vem da distorção de um estudo de 2004 da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, cujo autor, Tulio Kahn, esclareceu que foi a reportagem da Folha que criou a lenda do 1% de crimes, cometendo o erro de calcular a porcentagem de crimes de menores em relação ao total de homicídios, e não ao total de homicídios esclarecidos. “Sem ligar para o fato de que em 90% dos assassinatos a identidade dos agressores não é revelada, pois a polícia não consegue esclarecer os crimes.” Segundo Kahn, em seus dados originais, os homicídios cometidos por adolescentes seriam 3,3% do total de homicídios esclarecidos.

[Detalhe: até Dilma Rousseff postou nas redes sociais na última semanas um número genérico maior: “Os atos infracionais cometidos pelos adolescentes não chegam a 10% do total de crimes praticados no país há décadas”. Será que nem ela confia no ministério de José Eduardo Cardozo?]

3) Não informou ao público que ainda estava usando a falsa estatística para comparar uma faixa etária muito estreita – jovens de 16 e 17 anos – com uma muito ampla – qualquer adulto com mais de 18 anos.

Como escreveu Narloch: “É claro que o segundo grupo vai ficar com o maior pedaço. Mas se confrontarmos faixas etárias equivalentes, a violência é similar. Brasileiros entre 35 e 37 anos também são responsáveis por uma pequena porcentagem de assassinatos. Deveríamos deixar de condená-los, já que a prisão deles não resolveria o problema de violência no Brasil? Não, claro que não.”

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4) Menosprezou de maneira acintosa as vidas ameaçadas e perdidas pela ação criminosa de menores.

Com o velho papo de “apenas” e “somente”, em nenhum momento o programa calculou quantas pessoas mortas correspondem às porcentagens citadas, ainda que falsas.

Considerando que o Brasil é um dos países mais violentos do mundo, 1% dos crimes já seria uma aberração, que dirá 10%, como afirma Dilma. O mesmo serve para 0,5% dos crimes hediondos. Se 0,5% se referisse somente aos mais de 60.000 assassinatos por ano, já seria quase 1 crime hediondo por dia. E é mais!

5) Jogou no ar a informação igualmente controversa de que, em 10 anos, o número de reincidentes saídos da Fundação Casa passou de 29% para 15%.

O Profissão Repórter Militante, em sua propaganda da Fundação, não informou que o dado é contestado pela promotoria do Ministério Público de São Paulo, segundo a qual a antiga Febém está falida e 54% dos internos retornam ao mundo do crime.

Caco Barcellos tampouco explicou se a tal reincidência de 15% incluiria apenas os reincidentes que são pegos por seus novos crimes, ou se seria uma estimativa mais honesta dos que realmente voltam a cometê-los.

6) O programa ainda fez dos gritos dos militantes contra a redução maioridade penal praticamente a sua trilha sonora.

Eles foram filmados durante longo tempo, por todos os ângulos, quase com direito a “câmera mais” e tudo, parece.

Deve haver mais um bocado de itens a enumerar, mas eu estou com sono.

Parabéns a Caco Barcellos: o Profissão Repórter Militante desta terça-feira conseguiu ser tão hediondo quanto a sua edição propagandística do Mais Médicos.

Felipe Moura Brasil ⎯ http://www.veja.com/felipemourabrasil

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