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Felipe Moura Brasil Por Blog Análises irreverentes dos fatos essenciais de política e cultura no Brasil e no resto do mundo, com base na regra de Lima Barreto: "Troça e simplesmente troça, para que tudo caia pelo ridículo".

Exportados para a Venezuela, médicos cubanos miseráveis imploram para entrar nos EUA

Por Felipe Moura Brasil Atualizado em 31 jul 2020, 03h05 - Publicado em 14 set 2014, 21h31

Segue a tradução de Gabriel Guimarães Marini, a meu pedido e sob minha revisão apressada, da matéria de Chris Kraul no Los Angeles Times. Entre os socialismos de Cuba e da Venezuela, o melhor mesmo a fazer ainda é fugir para o Tio Sam.

A piora nas condições da Venezuela causa um aumento na imigração de médicos cubanos para os Estados Unidos, através de um programa especial que acelera suas aplicações, segundo um oficial colombiano que ajuda no processo de muitos dos refugiados.

Na quarta-feira, o Serviço de Imigração e Cidadania Americana (U.S. Citizenship and  Immigration Services) disse que o número de clínicos, enfermeiras, oftalmologistas e técnicos médicos requisitando vistos americanos sob o Programa de Liberdade para Profissionais Médicos Cubanos (Cuban Medical Professional Parole Program) está avançando em uma velocidade acima de 50% em comparação com o ritmo do ano passado, que foi quase o dobro do ano anterior.

No ritmo atual, mais de 1.500 trabalhadores cubanos da área de saúde serão admitidos nos Estados Unidos neste ano.

Por questões geográficas, a vizinha Colômbia é um trampolim favorecido para cubanos que fogem da Venezuela, cujo governo esquerdista está lutando para manter as rédeas com inflação descontrolada, escassez de bens e serviços e a alta da inquietação social.

Cuba, que se orgulha de seu sistema de saúde abrangente e há muito tempo exporta médicos e enfermeiras para países amigos, mantém aproximadamente 10.000 provedores de saúde na Venezuela. O programa de expansão médica é tido como parte do pagamento por 100.000 barris de petróleo que o governo do presidente Nicolás Maduro envia à administração Castro diariamente.

Nelia, uma clínica geral de Santiago, Cuba, chegou a Bogotá no mês passado, após o que ela disse ter sido um ano de pesadelo trabalhando no programa Barrio Adentro, na cidade de Valência, na Venezuela. Ela preferiu não dizer seu sobrenome por medo de represálias em sua terra natal.

Nelia disse que sua desilusão começou quando chegou ao aeroporto Maiquetia, em Caracas, na metade de 2013. Ela e diversos colegas esperaram ali durante dois dias, às vezes dormindo em cadeiras, antes das autoridades designarem a ela uma clínica em Valência.

“Isso foi uma arapuca. Eles te dizem como as coisas serão ótimas, como você poderá comprar coisas e o quanto os venezuelanos ficarão agradecidos. Aí vem o choque da realidade”, disse Nelia. Sua clínica na Venezuela não tinha ar-condicionado e muito do equipamento de ultrassom, que ela utilizaria para examinar mulheres grávidas, estava quebrado.

Ela descreveu a carga de trabalho como “esmagadora”. Em vez dos 15 a 18 procedimentos diários que ela realizava em Cuba, ela chegava a fazer mais de 90 na Venezuela. O crime é descontrolado, o pagamento é o equivalente a abismais 20 dólares mensais, e os cubanos são pegos no meio do descontentamento social venezuelano, que opõe seguidores do falecido presidente Hugo Chávez – cujo sucessor, Maduro, foi escolhido a dedo – contra forças mais conservadoras, mais abertas ao mercado.

“Os chavistas querem-nos aqui e a oposição não. E há mais pessoas na oposição do que no grupo chavista”, disse Nelia, que foi entrevistada em um escritório da Imigração Colombiana, em Bogotá.

Um optometrista cubano de 32 anos que se identificou como Manuel, que também fugiu da Venezuela para tentar conseguir uma residência nos EUA, disse que em sua clínica em Merida ele estava prescrevendo mais de 120 pares de óculos por dia, o triplo de seu ritmo de trabalho em Cuba.

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“Como um profissional, você quer ser pago pelo que o seu trabalho vale. O que nós recebíamos, US$ 20 ao mês, não era o suficiente sequer para pagar nossa alimentação e nosso transporte, muito menos uma chamada telefônica para Cuba de vez em quando”, disse Manuel. “Esse é o principal motivo para que eu queira ir a Miami, para ganhar o que eu mereço.”

Cubanos têm há muito tempo um status favorecido como imigrantes nos EUA. Virtualmente qualquer cubano tem garantida residência automática e um caminho à cidadania simplesmente por pisar em território americano, legalmente ou não.  O Programa de Liberdade para Profissionais Médicos Cubanos dá aos clínicos uma ajuda, permitindo que iniciem o pedido de residência em Embaixadas Americanas.

Apesar de alguns cubanos iniciarem o processo na Embaixada Americana em Caracas, a capital venezuelana, outros temem ser vistos no local. Além disso, o transporte aéreo da Colômbia para os EUA é muito mais barato que o saindo da Venezuela.

O fluxo crescente de médicos cubanos é apenas uma parte do aumento da onda de cubanos tentando entrar nos EUA, muitos pela Colômbia. Na falta do status especial de médico, muitos cubanos ligados aos EUA aterrissam primeiro no Equador, onde o governo não requer nenhum visto. Então eles passam, tipicamente, pela Colômbia e em direção ao Panamá, com a ajuda de coiotes, ou traficantes de gente. Entretanto, muitos são detidos na Colômbia.

De 1.006 imigrantes ilegais detidos na Colômbia entre janeiro e julho deste ano por falta do devido visto, 42% eram de origem cubana, de acordo com o diretor da Agência de Imigração da Colômbia, Sergio Bueno Aguirre. O fluxo de cubanos mais que duplicou em comparação com o ano anterior.

Um oficial do Ministério de Relações Exteriores da Colômbia, que falou anonimamente, dada a sensibilidade política do assunto, disse que a política dos EUA de permitirem a cubanos o status de imigrantes apenas por chegarem aos EUA alimentou o crime organizado na Colômbia e em outros países no caminho.

“Coiotes ajudando cubanos a transitarem pela Colômbia comumente usam os migrantes para carregar drogas ou os submetem à prostituição”, disse o oficial. “Ou os coiotes apenas os abandonam na fronteira, criando uma grande dor de cabeça para o governo colombiano, que tem de tomar conta deles ou enviá-los de volta para casa.”

* Kraul é um correspondente especial. 

Veja também aqui no blog:

– Entre a fome do povo e as fortunas dos amigos do poder
– A nova elite dos amigos do poder

Felipe Moura Brasil ⎯ http://www.veja.com/felipemourabrasil

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