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Felipe Moura Brasil Por Blog Análises irreverentes dos fatos essenciais de política e cultura no Brasil e no resto do mundo, com base na regra de Lima Barreto: "Troça e simplesmente troça, para que tudo caia pelo ridículo".

Cuidado! O nome da Ponte Rio-Niterói pode matar você!

Por Felipe Moura Brasil Atualizado em 31 jul 2020, 04h28 - Publicado em 11 fev 2014, 20h28

Ponte Artigo Andreazza

O nome da escritora e imortal da ABL Nélida Piñon é um anagrama de Daniel, o avô que, segundo ela conta em sua autobiografia “Coração solitário”, “recolhia a neta a pretexto de arrastá-la pelos arredores do Rio ou pelo centro da cidade” e “fazia-me conhecer a rua do Lavradio, Teófilo Otôni”, “ruas com nomes de próceres da pátria e de eventos históricos, que ele destacava com o intuito de não me faltarem informações para ativar a fantasia.”
 
Eram outros tempos aqueles, em que os nomes de ruas, estradas, pontes etc. serviam para manter viva a história do país, podendo ser usados educativamente por avós e professores escolares para ativar a fantasia das crianças e atrelar o conhecimento do passado à geografia da cidade presente. Agora, não. Há nomes, pelo visto, que são um tremendo perigo para o cidadão comum, quiçá a causa mesma de todos os males que o afligem. Se você os vir por aí, armados de consoantes e montados em vogais, cuidado: eles podem matar você!
 
Segue abaixo o artigo demolidor do meu editor Carlos Andreazza, publicado hoje no Globo, sobre o nome oficial da Ponte Rio-Niterói: Presidente Costa e Silva – aquele que aparentemente encabeça a lista negra do nosso Ministério Público. Neto de Mario Andreazza, ministro dos Transportes nos governos Costa e Silva e Médici, Carlos sabe como ninguém – como seu título já sugere – que, aqui no país da fantasia, há “próceres da pátria” mais “próceres” do que outros.
 
Ponte Democrata Carlos Marighella?
Carlos Andreazza
 
Neste país, decerto como consequência do bem-sucedido projeto brasileiro de deseducação, só se pensa e age em manada, em bando, em patrulha, de modo que não há jeito — a menor chance — de se reconhecer e valorizar, por exemplo, um mérito pontual do regime militar de 1964 sem ser logo chamado de ditador, quando não de torturador.
 
Trinta anos passados, três décadas de proscrição, de degredo, de petrificação dos malditos, tempo em que o simples referir-se aos militares — que não nos piores termos — significou adesão imediata e incondicional ao que ocorria nos porões. Reconhecer a importância da infraestrutura — a única que temos ainda hoje, diga-se — erigida naquele período? Ora, experimente… Comente, com base nos fatos, que o Brasil depende hoje de obras públicas — de portos, de estradas etc. — construídas pelo regime militar e torne-se de súbito partidário e defensor, signatário do AI-5; um golpista!
 
Se é que a teve um dia, este país terá de todo perdido a mão para o que seja reflexão, equilíbrio e ponderação; mas não sem estender a outra, ato contínuo, ao ridículo.
 
Ah, o ridículo!
 
Outro dia mesmo, enquanto atravessava a Rio-Niterói, peguei-me a perguntar: quanto faltará até que um desses lavadeiros da verdade proponha mudar o nome oficial, Presidente Costa e Silva, da ponte? Era questão de tempo — sempre soube. Intuía, contudo, que a hora se acelerava, pois a tinturaria da história tivera gestão mais eficiente nos últimos anos; ademais, acercávamo-nos dos 50 anos do golpe. Era questão de pouco tempo. E, batata!, tinha poucas dúvidas de que a iniciativa partiria de um dos copidesques do Ministério Público, desocupado progressivamente desde o fim da ditadura e finalmente inútil — tornado sem propósito — com a assunção redentora do povo oprimido ao poder, instante em que, no Brasil, como sabido, nada mais houve a ser investigado, denunciado, enfrentado.
 
Afinal, bicheiros, traficantes, mensaleiros, milicianos e assassinos de mais de 50 mil brasileiros por ano — tudo isso é passado, vencido, superado, miragens que só possuem materialidade na percepção histérica da classe média manipulada, claro, pela mídia golpista. O perigo — apontam os diligentes revisores do Ministério Público — está nos monumentos, nas placas das ruas, avenidas e estradas, nas fachadas de escolas do interior, em qualquer poste que leve o nome de um militar de 1964, de um ditador daquele período proibido.
 
Mas, atenção!, só daquele — apenas daquele intervalo desgraçado entre 1964 e 1985. No Brasil, também se é seletivo com tiranos. Porque há, tão fofos, os nossos ditadores de estimação. (E não falo nem do amor pátrio por assassinos estrangeiros — e em atividade — como Fidel Castro). Ou não teremos aí o nosso querido Getúlio Vargas, brasileiríssimo, o “pai dos pobres”, homem cruel, vil, perseguidor, golpista, torturador, no entanto a nomear de goleiro a fundação, passando por uma das mais importantes vias urbanas do país?
 
Eis que, então, aos 50 anos redondos do golpe militar somam-se os 40 de uma das obras públicas mais importantes não só daquele período como, sem dúvida, da história do país. Palco perfeito — cenário iluminado, holofotes todos direcionados — para os justiceiros que não perdem oportunidade de aparecer. E como são bons, generosos na construção do passado que melhor lhes convém.
 
Ponte Presidente Costa e Silva? Não! Nem pensar! Não se pode deixar uma placa velha, escondida, enferrujada e ignorada sob uma fundação carcomida qualquer — que efeito, que impacto negativo terá sobre as crianças, sobre as novas gerações? (Decerto muito pior que o do crack, cujo consumo por menores, como sabido, já foi perfeitamente controlado). Não pode. Não mesmo. Um absurdo! Uma afronta! Tem de mudar. Alude ao golpe, afinal, ao arbítrio, à tortura; perpetua um passado que se quer apagar, que se fez interdito, e de que não se pode tratar senão com o implacável esfregão seletivo.
 
A esses revisores da história — tapados pela mistificação, obstruídos pela doutrina do justiçamento da memória, cegos aos fatos — não ocorre examinar, portanto, que sem este homem, sem Artur da Costa e Silva, não haveria a ponte, tão simples quanto isso, não como a conhecemos hoje, e que ali, pois, não se homenageia a ditadura, o arbítrio, a tortura, mas um indivíduo que, apesar de muitos e tantos erros, acertou, não fossem várias as vezes, ao menos uma.
 
Acertou em bancar, em viabilizar, em sustentar a construção de uma obra que, embora sonhada e ansiada por mais de século, imperador, ditador ou democrata nenhum antes lograra encarar — obra que se tornaria elemento decisivo à integração física não só do Rio, mas do Brasil, marco incontornável da engenharia nacional; obra que ele próprio não veria pronta, morto bem antes; obra, a Ponte Rio-Niterói, que sequer é conhecida pelo nome oficial, mas que o homenageia porque simplesmente não poderia ser de outra maneira.
 
Celebremos e fortaleçamos a democracia, mas sem jamais nos esquecermos de que o autoritarismo não é exclusividade das ditaduras. E que, portanto, ao apoiar este processo de apagamento seletivo da história, de aniquilamento dos bons feitos alheios, os fernandohenriques da vida não se pensem livres do mesmo destino. Também é questão de tempo.
 
*****
 
PS: Que seja ao menos justa a homenagem ao ex-presidente petista.

Marginal Lula

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Comentário importante do leitor Policarpo:
 
Enfim, um artigo que desnuda a hipocrisia dos discípulos do Koba.
 
Desgraçadamente, são poucos aqueles que vem a público defender o que de bom nos foi legado pelo regime de 1964. E não foi apenas na infraestrutura, área onde o ex-ministro Andreazza destacou-se como um trabalhador incansável. Coisas como a expansão do ensino superior, a universalização do ensino básico, a redução drástica da pobreza (mesmo com o aumento da desigualdade), apoio para a ciência e tecnologia, saneamento, modernização da agricultura e a explosão da indústria cultural foram iniciadas ou incentivadas pelo regime de 1964. Até com o cocô da população das metrópoles os militares se preocuparam, são daquela época os primeiros emissários submarinos do Brasil.
 
Nascido no interior da Bahia, posso afirmar, de experiência própria, que foi durante os governos militares que água encanada, maternidade, posto de saúde e energia elétrica (24 horas por dia) chegaram para os moradores das cidades da minha região. Para se ter uma idéia, no ano de 1964, em Vitória da Conquista (na época a 3a. cidade da Bahia), água encanada era privilégio de poucos. É lastimável que toda essa memória seja apagada em nome da ideologia e do oportunismo político.
 
Afinal, para quem trabalham os historiadores?

 
Felipe Moura Brasil – http://veja.abril.com.br/blog/felipe-moura-brasil
 
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