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Felipe Moura Brasil Por Blog Análises irreverentes dos fatos essenciais de política e cultura no Brasil e no resto do mundo, com base na regra de Lima Barreto: "Troça e simplesmente troça, para que tudo caia pelo ridículo".

Boato, uma ova! Marina mentiu e distorceu fatos sobre CPMF, como típica petista de raiz. Favorável, ela só foi a programa que usava verbas contra as quais tinha votado! E ainda chamou de “insuficientes”! Pode isso, Arnaldo?

Por Felipe Moura Brasil Atualizado em 31 jul 2020, 02h59 - Publicado em 29 set 2014, 06h01

“Pobres (de grana e de espírito) que votam em Dilma e Marina não fazem ideia do que é a CPMF, Felipe”. A frase veio de uma leitora no Twitter durante o debate presidencial da TV Record, depois que eu apontei a mentira de Marina sobre o tema.

Respondi: “Mas fazem ideia do que é uma mentira. É preciso mostrar que Marina mente” – e que depois distorce os fatos para não se passar por mentirosa, fazendo-se ainda de vítima de ataques, quando a responsabilidade pelo imbróglio é toda dela.

Aliás, tem coisa mais petista do que isso? Para citar um caso entre milhares:

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Vejamos o caso de Marina em detalhes.

O jornal O Globo revelou em 9 de setembro que, ao contrário do que afirmava em declarações públicas, a candidata Marina Silva (PSB) não votou a favor da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Registros do site do Senado (no fim deste post) mostram que Marina, então no PT, ficou contra o tributo em 1995 (em duas votações) e em 1999 (em mais duas). Em 2002 não registrou seu voto.

Dizia o jornal: “No caso de propostas de emenda constitucional, não votar tem o mesmo peso de ser contrário, uma vez que é preciso ter 49 votos sim para a aprovação. Oito dias depois dessa votação, a matéria foi votada em segundo turno e mais uma vez Marina não registrou voto.”

Ou seja: Marina votou quatro vezes contra a CPMF e depois se absteve em mais duas, consentindo com o “Não”. Isto nada tem de boato, são fatos comprovados pelos documentos.

Quando a matéria veio à tona, eu apontei aqui que, no debate da Band, Marina não só tinha dito que havia votado favorável, como havia usado isso para posar de independente do PT com seu discurso de quem não faz “oposição por oposição” e, também, para atacar tanto os petistas quanto o candidato Aécio Neves, do PSDB. Eis o trecho de sua tréplica a Aécio naquele debate:

MARINA: Eu vejo que a sua fala reforça exatamente o meu argumento. Eu acredito na política que pratiquei durante 16 anos no Congresso. Por exemplo, na CPMF, eu votei favorável. Quando foi o protocolo de Kyoto, eu que ajudei a aprovar, senão seria uma vergonha. Não foi a mesma postura que vocês, juntamente com o PT, que colocam o Brasil desunido e aparta o Brasil.

Em sabatina ao Portal G1, a candidata havia se gabado do suposto voto favorável de maneira ainda mais acintosa.

MARINA: Quando o presidente Fernando Henrique Cardoso mandou a CPMF para ser votada, o meu partido era contra, mas eu e o Suplicy votamos favorável.

Se Marina afirmou nessas e noutras vezes que havia votado favorável a CPMF, e os registros mostram que, na prática, ela votara seis vezes contra o tributo, é óbvio que ela tinha de ser questionada a respeito.

E Dilma, cuja equipe lê tanto o meu blog quanto a de Aécio, tratou de começar o debate da Record fazendo isso, com direito à citação ao debate da Band. Não sei se Aécio estava pronto para fazê-lo em seguida, mas Dilma tomou a dianteira, já que teve a chance primeiro.

Transcrevo abaixo o trecho que vai de 3min30seg até 7 min do vídeo do primeiro bloco. Comento em seguida.

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DILMA: Olha, eu queria fazer uma pergunta à candidata Marina. Candidata, a senhora mudou de partido 4 vezes nesses 3 anos. Mudou de posições de um dia para outro em problemas de extrema importância como a CLT, a homofobia e o pré-sal. Num debate da Bandeirantes, a senhora disse que tinha votado a favor da criação da CPMF porque achava que era o melhor que se podia ter para a Saúde. Como foi mesmo o seu voto na questão da CPMF?

MARINA: A CPMF foi um processo que começou em 1993, com várias etapas. Nessas várias etapas, no momento em que foi a votação de Fundo de Combate à Pobreza, que aliás foi uma iniciativa do senador Antonio Carlos Magalhães, a composição do Fundo seriam recursos da CPMF e dos impostos sobre cigarro. Naquela oportunidade, tanto na Comissão quanto no Plenário, votei favorável sim. Eu e o senador Eduardo Suplicy, mesmo com a oposição séria de várias lideranças do PT, que à época diziam que eu estava favorecendo um senador de direita. Eu tenho total coerência com as posições que defendo e foi por isso exatamente que eu disse que eu não faço oposição por oposição, que eu sei o que é melhor para o Brasil. Não só no caso da CPMF para o Fundo de Combate à Pobreza quanto em relação à convenção 169 para defender o direito dos índios, o protocolo de Kyoto que o PT na época até me orientou que talvez não fosse o mais oportuno, mas eu consegui convencer de que era o melhor para a proteção do meio ambiente e da Amazônia e também tivemos ali uma questão importante que foi a questão da reserva legal.

DILMA: Candidata Marina, eu não entendo como a senhora pode esquecer que votou 4 vezes contra a criação da CPMF. Nessas quatro vezes, a senhora votou “Não”. Isto consta nos anais do Senado. Atitudes como essas, candidata, produzem insegurança. Governar o Brasil requer firmeza, coragem, posições claras e atitude firme. Não dá pra improvisar. Então, candidata, me estarrece que a senhora não lembre como votou quatro vezes contra a criação da CPMF.

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MARINA: Eu me lembro exatamente quando votei a favor. Não tenho a lógica da oposição pela oposição, nem da situação raivosa que não é capaz de dialogar em nome dos interesses do Brasil. E nem da situação cega, que só vê qualidades mesmo quando os defeitos são evidentes. Eu tive uma prática coerente a vida toda. Defendi sim a CPMF para o Fundo de Combate à Pobreza. E é mais uma das conversas que o PT tem colocado para deturpar o processo eleitoral.

Repararam na mudança cínica do discurso? Marina só se lembra da vez que votou a favor, sendo que, no caso, não era um voto a favor da CPMF, mas a favor do Fundo de Combate à Pobreza, do qual parte dos recursos vinha da CPMF. Sem admitir a confusão, a candidata quer fazer com que ambas as coisas tenham o mesmo sentido. Não têm!

A verdade é que Marina foi a favor de um programa que usava verbas contra as quais ela tinha votado 4 vezes! Uma vez que as verbas estavam disponíveis APESAR DELA, ela votou a favor do programa que as usava. E pior: como mostra uma matéria da Folha de junho de 2001, ela ainda reclamou que as verbas eram “insuficientes”! Pode isso, Arnaldo?

Se dependesse dela, as verbas para o tal combate à pobreza teriam sido menores ainda!

No mundo real, não basta querer ajudar os pobres, é preciso criar os meios de fazer isso, mas, como uma autêntica petista de raiz, Marina queria os fins mesmo tendo lutado contra os meios. Mas ela não ia perder a chance de posar de defensora dos pobres, reclamando do então governo do PSDB (que havia se esforçado para aprovar o tributo), não é mesmo? E no ano seguinte ao Fundo foi que ela ainda se absteve mais duas vezes na votação da CPMF.

Marina-comercial-Dilma-PT-mentira-28set2014Marina se faz de vítima de mais uma tentativa do PT de “deturpar o processo eleitoral”. O PT faz isto com frequência, é verdade, mas justiça seja feita: não neste caso – até porque leu meu blog. (Como Marina também já me “plagiou” para atacar Dilma, ficou tudo certo.) Dilma levou uma merecida surra no debate da Record, mas não posso negar que o golzinho de honra veio no começo. E que o comercial do PT sobre o episódio (vide imagem) veiculado no intervalo do debate foi uma jogada de marketing bastante oportuna.

Os marinistas vão dizer que Marina no máximo se expressara mal. Lamento, mas a omissão dos votos contrários, a não admissão de que errou ao se expressar daquele modo, a postura de vítima mesmo sendo a responsável, e o ataque aos adversários com base nisso tudo são fatores que apenas legitimam que se diga com as todas as letras: Marina mentiu e distorceu tudo para fingir que não o fez (ou que não o faz).

[Ademais, usar dois ou três votos isolados para posar de independente é ridículo, uma vez que, como dizia matéria do Globo: “o registro das principais votações durante o governo do PSDB mostram uma atuação típica de oposição. Em 1997, votou contra a criação da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), a quebra do monopólio estatal e o modelo de concessão para exploração de petróleo e a reforma administrativa, que cortou benefícios de servidores públicos. De licença médica, não registrou voto na reforma da previdência de 1997. Em 2000 votou contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, que fixou normas e limites de gastos para a gestão pública.”]

O “MEME” CÍNICO DA CAMPANHA

Marina CPMFNo Facebook, a equipe de Marina ainda publicou na página da candidata este “meme” cínico que se vê ao lado. Repare mais uma vez: Marina dizia claramente que votou a favor da CPMF. Flagrada na mentira, distorce sutilmente o discurso e passa a dizer que “apoiou a CPMF na votação” do Fundo. E ainda acusa de espalhar um “boato” aqueles que revelaram a sua mentira.

É um malabarismo verbal e moral sem fim.

Veja como foram as votações relativas à CPMF em 1995, 1999 e 2002:

PEC 40 de 1995 – primeiro turno (votação em 18/10/1995)

PEC 40 de 1995 – segundo turno (votação em 08/11/1995)

PEC 34 de 1998 – primeiro turno (votação em 06/01/1999)

PEC 34 de 1998 – segundo turno (votação em 19/01/1999)

PEC 18 de 2002 – primeiro turno (votação em 04/06/2002)

PEC 18 de 2002 – segundo turno (votação em 12/06/2002)

Felipe Moura Brasil ⎯ http://www.veja.com/felipemourabrasil

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