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As novelas de esquerdistas da Globo: Silvio de Abreu conta de onde vieram, como já fizeram Boni, Dias Gomes e outros

O autor Silvio de Abreu contou em entrevista ao Ofício em Cena, da Globo News, aquele fato histórico que até hoje parece inconcebível a muitos jovens intoxicados de propaganda esquerdista anti-Rede Globo: que as telenovelas brasileiras foram desenvolvidas na emissora por autores de esquerda. Hoje, quando Walcyr Carrasco faz propaganda de livro que exalta Che Guevara em “Amor à […]

Captura de Tela 2015-07-13 às 16.11.41O autor Silvio de Abreu contou em entrevista ao Ofício em Cena, da Globo News, aquele fato histórico que até hoje parece inconcebível a muitos jovens intoxicados de propaganda esquerdista anti-Rede Globo: que as telenovelas brasileiras foram desenvolvidas na emissora por autores de esquerda.

Hoje, quando Walcyr Carrasco faz propaganda de livro que exalta Che Guevara em “Amor à vida”, Ricardo Linhares faz um comercial pró-aborto em “Saramandaia”, Manoel Carlos chama “mais da metade dos brasileiros” de “machistas” e “da idade das pedras” por conta de pesquisa errada do IPEA sobre estupro, ou Lícia Manzo e Daniel Adjafre discutem o incesto em “Sete vidas”, sem falar em polêmicas sobre “beijos gays”, convém lembrar a tradição ideológica da casa em matéria de dramaturgia.

Transcrevo abaixo o trecho do programa com Silvio de Abreu (aos 17min20seg deste vídeo) e relembro em seguida o vídeo em que José Bonifácio Sobrinho, o Boni, relatou o mesmo: que a maior parte dos criadores da Globo eram comunistas e as novelas serviram como “válvula de escape” à censura durante a ditadura militar.

Acrescento também trechos de uma entrevista da neta de Dias Gomes e Janete Clair, e de uma edição do Roda Viva com o próprio Dias Gomes, em que ele, tentando salvar o vírus como todo esquerdista, defende a tese de que o socialismo real foi um “projeto deformado em sua essência”, não a concretização exata do projeto mesmo, conforme exaustivamente demonstrado em O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota.

1)

Renata Ricci, atriz (da plateia): Eu cresci ouvindo dizer que a telenovela brasileira é considerada a melhor do mundo. Então a primeira pergunta é se você acredita nessa premissa.

Sílvio de Abreu: Acredito.

Renata Ricci: E a segunda é o que é que você acha que é a diferença principal da nossa maneira de se fazer telenovela, dramaturgicamente falando, na questão da atuação e da direção, para as outras, que são feitas… sei lá, a soap opera americana e as outras.

Silvio de Abreu: É, a soap opera americana é feita para um público de donas de casa, que passa na hora do almoço, e a produção dela é muito precária, as cenas são só cenas de interior e as histórias são sempre só histórias românticas. A novela mexicana, por exemplo, que é um sucesso no mundo todo, é uma novela que é sempre feita dentro da mesma fórmula, e elas não fogem dessa fórmula.

Captura de Tela 2015-07-13 às 16.12.38A novela brasileira… Quando a gente teve a ditadura aqui, os excelentes autores intelectuais de esquerda, eles não podiam trabalhar em teatro, não podiam trabalhar em cinema, porque eram censurados, e eles vieram para a televisão. Então o Dias Gomes, o Bráulio Pedroso, o Jorge Andrade, o Lauro Cézar Muniz, os melhores autores do país começaram a fazer novela. Então eles deram à novela uma categoria que nenhum outro país tem. O ator que faz soap opera americana não é o melhor ator dos Estados Unidos, muito pelo contrário. O ator que faz a novela mexicana também não é o melhor ator do México. E aqui nós temos os melhores atores do país fazendo novela.

2)

Esther: Ô Boni, você sempre falou, defendeu muito o jornalismo, né, você está agora reforçando isso…

Boni: Minha paixão na televisão é o jornalismo.

Esther: É o jornalismo. Interessante que a censura também visava mais o jornalismo.

Boni: Perfeito.

Esther: O doutor Roberto [Marinho] também estava interessado mais no jornalismo. Será que as novelas se beneficiaram de uma certa liberdade que a falta de expectativa em relação a elas…?

Boni [interrompendo]: Eles não percebiam exatamente o poder que a novela tinha. Tanto que “O Bem-amado” começa com uma música que era do Vinícius, que dizia: “Nós estamos sentados sobre um barril de pólvora.” E ninguém reclamava disso, o tempo todo (…). Mas eles reclamavam quando um sujeito chamava “Ei, coroné!”, aí eles diziam assim: corta esse “coroné” aí. (Risos)

Esther: Eu tenho a impressão que o jornal era tão controlado que essa integração nacional se deu de uma maneira muito diferente da que os militares imaginavam e tudo…

Boni: Sua observação é perfeita.

Esther: …porque havia mais vida nas novelas.

Boni: Existia até um termo que foi criado pelo Dias Gomes, que ele dizia assim… Quando a gente mandava uma sinopse para a censura, dizíamos: “Vamos pentear a sinopse”, que é para que eles não percebessem como é que era a figura do bicho. Então dava-se uma penteadinha, suavizava-se tudo e depois fazia-se o que se tinha que fazer mesmo. Então a novela foi um escape. Diria que ela não foi a coisa mais importante, mas ela foi uma válvula de escape naquele momento em que nós estávamos sob uma censura bastante dura.

Marília Gabriela: Você teve algum embate direto com a censura?

Boni: Ah, tive vários. Nós tivemos vários sobre questões do jornalismo e sobre questões de conteúdo. Primeiro que os censores de conteúdo eram censores contratados, quer dizer, eram censores profissionais de carreira, então diferentes de censores militares que não entendiam do que fazer, nem como falar sobre aquele assunto, mas nessas duas categorias existiam pessoas extremamente inteligentes e extremamente despreparadas, então às vezes você tinha embates em que você era ameaçado de ser recolhido, porque você estava sendo muito agressivo na defesa dos seus interesses.

Esther: Ô Boni, entre essas várias opiniões que você consultava e que faziam a televisão, tinham vários comunistas… declarados, né… O Dias era um exemplo de uma pessoa que até o fim se classificava assim, se associava… Como é que era isso? Como é que isso aconteceu? Isso é uma das…

Boni: Não, essa questão, nós nunca… Nossos funcionários, nossos criadores, a maior parte deles eram socialistas ou comunistas, mas o próprio doutor Roberto nunca se importou com isso. Sabe da história lá da redação, da invasão, quando eles queriam convencer o doutor Roberto que ele estava cercado de comunistas na redação e que eles queriam entrar para prender os comunistas. O doutor Roberto disse assim: “Aqui ninguém entra. Nos meus comunistas, mando eu.” (Risos)

3)

Renata Dias Gomes, neta de Dias Gomes e Janete Clair, em entrevista de 28/07/2011:

“Eu acho que as emissoras não estão interessadas em ideologia e política, no caso das novelas. Mas tanto é que meu avô fazia novelas politizadas dentro da Globo no auge da ditadura. Meu avô era comunista e trabalhava na Globo! A maior prova, pra mim, de que as emissoras são comerciais e não ideológicas é isso. O meu avô fez “O Bem-amado” no auge da ditadura, dentro da TV Globo. Meu avô nunca foi mandado embora do país. Você acha que se ele não fosse contratado da Globo não teria sido preso, torturado e exilado? É lógico que teria sido, como todo mundo foi! Ele ficou aqui por dois motivos: primeiro, a minha avó era a esposa dele e se ele fosse embora ela iria junto, e ela era a maior audiência da Globo. E segundo, que ele também fazia novelas de sucesso. Tem aquela frase famosa do Roberto Marinho que diz ‘Dos meus comunistas cuido eu’. Ele pegou o meu avô, Mário Lago, Lauro César Muniz, Bráulio Pedroso. Os comunistas todos trabalhavam dentro da TV Globo naquela época.

Então o importante é você contar uma boa história, a questão é a audiência, não a ideologia.”

4)

Roda Viva com Dias Gomes, em 12 de junho de 1995:

Dias Gomes: Eu nunca fui de participar de grupos. Você focalizou ainda há pouco a minha trajetória no teatro brasileiro. Quantos grupos teatrais que influíram decisivamente no teatro brasileiro eu vi se formarem ao meu lado e eu nunca participei de nenhum. Estava-se organizando os comediantes, que tanta influência tiveram na renovação do espetáculo com o [Zbigniew Marian] Ziembinski [(1908-1978), pintor, fotógrafo, ator e  diretor polonês bastante polêmico, que se dizia o “criador do teatro brasileiro”] e tal. Eu estava estreando no momento em que os comediantes estavam estreando também, e eu não participei dos comediantes. Nos anos 1960: Teatro de Arena, Oficina depois o grupo Opinião. Todos eles eram formados não só de amigos meus como de pessoas que pensavam parecidos comigo. Havia até uma influência esquerdista em todos eles, e eu nunca participei de nenhum também. Eu nunca fui… eu sempre tive um caminho meio solitário. Então a Academia é um grupo fechado de 40 pessoas, entre as quais eu tenho amigos, tenho pessoas que prezo, que admiro, mas eu não tenho muita vocação para esse convívio, eu sou um socialista insociável. [risos]

Matinas Suzuki: Você ainda é de esquerda?

Dias Gomes: Sou.

Matinas Suzuki: O que significa ser de esquerda hoje?

Dias Gomes: É uma bobagem esse negócio de pensar que não existe mais esquerda e direita. Então nós estaríamos em uma sociedade igualitária e justa, se não existe mais esquerda e direita. Porque enquanto houver pobres e ricos, opressores e oprimidos haverá esquerda e direita. Haverá aqueles que querem mudar tudo e aqueles que querem mudar só algumas coisas para que tudo continue como está, que é o conservador. Então sempre haverá esquerda e direita.

Rita Buzzar: Qual a sua utopia possível dentro de um horizonte?

Dias Gomes: Toda minha juventude, e maturidade até, eu alimentei, como toda a minha geração, a utopia de uma sociedade igualitária, uma sociedade socialista. Infelizmente a tentativa, o projeto dessa sociedade, na União Soviética, nos países do leste europeu, foi um projeto deformado em sua essência, que excluía uma coisa essencial ao socialismo que é a liberdade. E no momento em que você exclui a liberdade, você não está mais realmente em um projeto socialista.

(…)

Dias Gomes: Eu e Janete éramos pessoas muito diferentes, talvez por isso nos déssemos tão bem. O nosso casamento durou 33 anos, mas nós tínhamos visões de mundo muito diferentes. Janete era católica, eu sempre fui ateu, eu fui marxista, tive formação marxista e tudo. E ela tinha também um estilo de realismo romântico, e eu sempre fui um realista empedernido. (…)

Felipe Moura Brasil ⎯ https://veja.abril.com.br/blog/felipe-moura-brasil

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