Clique e Assine por apenas R$ 0,50/dia
Felipe Moura Brasil Por Blog Análises irreverentes dos fatos essenciais de política e cultura no Brasil e no resto do mundo, com base na regra de Lima Barreto: "Troça e simplesmente troça, para que tudo caia pelo ridículo".

“PTs e pitis” – Da arte de defender o Brasil

Por Felipe Moura Brasil Atualizado em 31 jul 2020, 02h35 - Publicado em 25 nov 2014, 19h03

brasil litoralFui ali repensar o Brasil e encontrei este meu artigo de 31 de janeiro de 2008, quase sete anos atrás, sobre afetações de patriotismo. Ricardo Teixeira saiu da CBF em 2012, após 23 anos no poder. Marta Suplicy virou ministra da Cultura em 2012 e, recentemente, deixou o cargo para voltar ao Senado. Mas o país segue igual: com o mesmo PT, com os mesmos pitis. A diferença é que agora, dado o elo entre PCC e Hezbollah, temos terrorismo também.

*****

Marta Suplicy não gosta que falem mal da criminalidade brasileira. Na Feira Internacional de Turismo, em Madri, a ministra do Turismo rebateu a uma pergunta sobre a insegurança nacional com um patriótico piti: “O Brasil pelo menos não tem terrorismo”. Você já viu esse filme. Em novembro de 2007, em Zurique, o eterno presidente da CBF, Ricardo Teixeira, fez o mesmo. Defendeu nossos assassinos para uma jornalista canadense. É uma mania oficial. O recurso mais chinfrim em qualquer discussão. Quando não se dispõe de argumentos para contestar, tenta-se carregar o outro para o mesmo buraco. Mesmo que o outro seja o Canadá.

Desde criancinha, eu sou capitalista. Não precisei conhecer a “mão invisível” de Adam Smith, nem a mão forte de Margaret Thatcher, muito menos – do outro lado – as mãos assassinas de Stalin e Fidel para concluir que a esquerda não me servia nem para a masturbação. A competição já fluía no meu sangue quando joguei minha primeira partida de bolinha de gude. Eu pulei o comunismo. Ele, o Posto 9, o Baixo Gávea e congêneres. A única estupidez ideológica que me contaminou um pouquinho mais foi esse “patriotismo”. Pois é. Eu já fui como Marta Suplicy e Ricardo Teixeira. Se um italiano chamasse o Brasil de cara de abacaxi, eu chamava a Itália de cara de mamão. Se um americano chamasse o Brasil de cara de melancia, eu chamava os Estados Unidos de cara de mamão. Eu não gostava de mamão.

O problema é que ficou cada vez mais difícil defender o Brasil. Mais do que difícil. Ficou ridículo. Se você já tentou explicar o poder dos traficantes nas favelas a um estrangeiro civilizado, sabe do que estou falando. Eles não estão lá? Vocês não sabem onde é? Por que não os prendem? Ora, são perguntas muito difíceis para um brasileiro patriota responder. Ainda mais para mim (ou seria ‘eu’?), que comecei a gostar de mamão. Então concordei. Moro num abacaxi. Moro numa melancia. Foi libertador. Montaigne teria me endossado: “o sábio deve, no íntimo, afastar sua alma da multidão e mantê-la com liberdade e poder para julgar livremente sobre as coisas”.

Continua após a publicidade

Nossa ministra, até hoje, não aprendeu a lição. Irritada em Madri, desandou a falar as maiores barbaridades: “O que acontece no Brasil, principalmente no Rio de Janeiro, vira imediatamente manchete e uma tragédia”, “O Brasil não é um país mais violento do que os outros”, “O Brasil vive no imaginário como essa coisa enorme de insegurança”… Deve ser mesmo muito criativo o imaginário internacional: “inventou” que o Brasil tem 50 mil assassinatos por ano (umas 50 vezes mais do que as realizações do ETA, o grupo separatista basco, em 4 décadas), numa taxa de 27 assassinatos (que, no Rio, é ainda maior) por 100 mil habitantes (sendo a do Canadá de 1,85 e a da Espanha de 1,2).

Se o patriotismo é o último refúgio dos canalhas, como definiu o inglês Samuel Johnson lá em 1775, o que dizer do recurso da ministra à natureza? Para Marta, o Brasil é o “turismo internacional do século 21”, porque “os europeus podem criar muitos monumentos, mas lugares de beleza natural como Foz do Iguaçu, ninguém pode inventar”. Eis nossa propaganda turística. Um atestado de incompetência administrativa.

Henry Miller, por volta de 1940, perguntava por que, na América, as grandes obras de arte eram todas obras da natureza: por que, afinal, só havia obras utilitárias, como diques, pontes e estradas, e não “monumentos duradouros criados pela fé, pelo amor, pela paixão”, como as catedrais da Europa, os templos da Ásia e do Egito? Não sei. Aqui mal chegaram as utilitárias – contra as quais, aliás, nada tenho. Eu trocaria, talvez, dez Foz do Iguaçu por uma Route 66. Ou dez Chapadas Diamantinas por uma Golden Gate. Mas o Brasil faz o que há de pior: na falta de segurança e infraestrutura, apela para as fontes murmurantes, onde a lua vem brincar. Até porque as florestas ninguém sabe se daqui a pouco acabam.

Ricardo Teixeira, Marta Suplicy, petistas e esquerdistas são todos uns caras de mamão.

Felipe Moura Brasil ⎯ http://www.veja.com/felipemourabrasil

Siga no Facebook, no Twitter e na Fan Page.

Continua após a publicidade
Publicidade