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Universidades federais na berlinda

O modelo único da indissolubilidade de ensino, pesquisa e extensão é inadequado para as universidades. É preciso criar formas institucionais alternativas.

Aos poucos a ficha vai caindo e os efeitos da crise econômica vão chegando mais perto de nós – até aqui parecia ser um problema “do governo”, essa entidade mítica que tudo pode e que nunca consegue contentar a todos.

Agora é a vez da educação. Primeiro foram as universidades e depois a educação básica. Ancorado pela lei do teto, o contingenciamento leva o MEC a reduzir seus repasses. Nunca existe uma boa forma de dar más notícias. O MEC optou pela pior delas. Neste post, o foco é o contingenciamento dos repasses às universidades federais.

Crise e universidade são quase sinônimo. Universidades são instituições que refletem – ou deveriam refletir – as fronteiras do pensamento e da crítica social, os pontos de ruptura. O problema não é a universidade ter ou não crise. Ela vive para isso. Na vida das organizações, como, aliás, na vida pessoal, acidentes e crises podem constituir oportunidades para abrir novos caminhos.

Desde a década de 70 Simon Schwartzman tem trabalhado e escrito incansavelmente sobre o tema. Por ter trilhado alguns pedaços de estrada junto com ele e beber das mesmas fontes, compartilho integralmente de suas análises e propostas. Nada do que segue, portanto, é original, salvo na linguagem.

O problema é conhecido: o modelo da “indissolubilidade ensino, pesquisa e extensão” é inadequado como modelo único para as universidades. É preciso criar formas institucionais alternativas. O modelo da formação profissional na graduação é obsoleto. É preciso andar na direção do Protocolo de Bolonha. O modelo da autonomia formal é ilusório. As universidades precisam de autonomia de fato – mas com cobrança mediante controle social e acadêmico adequado, para o que não faltam modelos. Essa autonomia deveria permitir, inclusive, a decisão sobre os cursos que deve abrir e fechar, e o que fazer com as pessoas que não tiverem mais trabalho ou que devam trabalhar em outras instituições e sob outros critérios, seja como professores seja como pesquisadores.

A regulação da qualidade do ensino se faz com mais eficácia por mecanismos de informação e mercado. Se o MEC não souber fazer, chama o Google que ele ensina. Já a qualidade da pesquisa possui mecanismos próprios, que hoje, nas universidades federais, são desvirtuados em algumas áreas pelos sistemas de qualificação de publicações da CAPES e pelos mecanismos formais de promoção, que dão valor ao que não deveria ter.

Ou seja, só há um caminho para avançar: é preciso mudar profundamente o modelo de universidades públicas e o seu modelo de gestão. Só que não é mudar para o desconhecido: há modelos pelo mundo afora sobre o que fazer. Fazer e como fazer é que caracteriza o estadista.  E isso exige uma proposta clara, capacidade de persuasão e disposição para o diálogo. Alguém se habilita?

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