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Educação em evidência Por João Batista Oliveira O que as evidências mostram sobre o que funciona de fato na área de Educação? O autor conta com a participação dos leitores para enriquecer esse debate.

Por que as crianças gostam dos contos de fadas?

A leitura compartilhada permite que as crianças e seus responsáveis conversem sobre as situações de violência e os sentimentos vivenciados nas histórias.

Por João Batista Oliveira 27 jun 2017, 16h43

É universal o gosto das crianças pelos contos de fadas. Na verdade, esses contos são versões mais ou menos mitigadas de contos populares existentes em todas as culturas e em todos os tempos. Quando os irmãos Grimm começaram a produzir versões escritas da tradição oral, elas logo se difundiram pelas diversas camadas da sociedade e caíram no gosto das crianças. Incidentalmente isso acabou levando esses autores a escreverem versões mais mitigadas desses contos, nem tanto nas cenas de violência, mas especialmente naquelas de conteúdo sexual explícito. Nada mais picante do que a versão original do Chapeuzinho Vermelho. O que explica esse interesse das crianças?

Analistas de diferentes tendências convergem no essencial: como qualquer boa literatura, os contos populares referem-se a dramas do cotidiano. Na boca do povo, os problemas são apresentados com crueza e simplicidade – da mesma forma como opera o raciocínio das crianças, especialmente entre os 3 e 6 anos de idade.

Contos populares e contos de fadas – também conhecidos como contos maravilhosos – são efetivamente maravilhosos no conteúdo, na forma, e, nas boas edições, também na apresentação. Eles são feitos para divertir, encantar, mas também permitem refletir sobre a realidade, o cotidiano.

Como nas fábulas, os personagens são simples – o lavrador, o pobre, o príncipe. Ninguém tem personalidade própria ou sentimentos particulares. Cada um tem papel definido e as expectativas são claras.

O enredo também é simples: há uma situação inicial, em que cada um ocupa o seu lugar.  Sobrevém um desequilíbrio – na forma de um acidente, desastre ou desafio. Um ator ou evento improvável – anões, duendes, gigantes, fadas ou bruxas intervêm – proporciona o desfecho. Este quase sempre faz justiça ou restaura as injustiças.

Tudo isso é parte integrante do dia a dia da criança. O acaso e a arbitrariedade são eventos comuns na mente de quem sempre ouve “não, não pode, não porque não”. Adultos são tão gigantescos, arbitrários, poderosos – e mesmo grotescos – quanto quaisquer dragões ou tiranos. O certo é certo e o errado é errado, típico do pensamento infantil. E sempre resta a possibilidade de restaurar o equilíbrio, ou de um final feliz.

A violência dos contos de fada não assusta as crianças – pelo menos não mais do que suas fantasias e sua realidade. Compartilhando a leitura, adultos e crianças podem conversar sobre os seus sentimentos e, no caso das boas versões, ainda curtir uma excelente história.

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