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Por que a origem social da família tem impacto tão grande nos resultados escolares?

Venho discutindo nesta coluna os fatores que interferem na educação das crianças, tanto os internos e relacionados à escola, quanto os externos, alheios ao ambiente de sala de aula. Apontei também evidências de que o ambiente familiar e as condições de renda estão entre os fatores que explicam mais de 50% do resultado de um aluno na escola.  Mas por que a origem social da família tem um impacto tão grande nos resultados escolares?

A tentativa de responder a essa questão tem estimulado uma intensa produção de pesquisas, com diversos aportes teóricos e metodológicos. À primeira vista, o nível socioeconômico da família poderia ser determinado exclusivamente pelo salário e/ou nível de educação dos pais. Este é um bom indicador, mas ele não revela o que há por detrás do conceito.

Está relacionado com o ambiente em que a criança nasce e se desenvolve. Certamente, a renda e o nível educacional dos pais são fatores importantes. Porém, como mostram estudos em diversas áreas do conhecimento, a organização da família, seu clima afetivo, a socialização linguística e a aquisição de atitudes e motivações desde cedo, são alguns dos mecanismos intrafamiliares relacionados com o sucesso escolar. E ainda há um fator fundamental: o nível de inteligência, que é transmitido geneticamente.  Este é fortemente associado ao sucesso escolar.

Apesar de os primeiros estudos sobre o tema terem demonstrado certo determinismo em suas conclusões, posteriormente eles passaram a buscar explicações para além dessa reprodução de desigualdades sociais na escola. A atenção se deslocou para os processos cotidianos e domésticos, no sentido de saber quais eram os comportamentos familiares relacionados com o sucesso escolar.

Os principais resultados mostram que as famílias possuem distintas abordagens sobre a criação dos filhos em aspectos como: expectativa em relação ao futuro, organização da vida cotidiana, uso da linguagem, laços sociais e forma de intervenção com as instituições, especialmente as escolas. Os pais de classes trabalhadoras, por exemplo, acreditam que os professores são responsáveis pela educação dos seus filhos. Em contraste, as classes média e alta acreditam que a responsabilidade pela educação é compartilhada entre a família e a escola.  De modo particular, a interação entre nível de inteligência –  também fortemente associado a classe social – e perseverança e esforço – frutos de uma certa forma de educação familiar –  são fortes preditores do sucesso escolar.

Isso significa que a condição social é inexorável?  A resposta é negativa, mas precisa ser qualificada.  É fato que as pessoas são diferentes, nascem com diferenças e que as chances de sucesso (escolar) são diferentes já no nascimento.  A loteria do nascimento dá condições diferentes às pessoas.  A plasticidade cerebral permite que, com esforço e condições adequadas, mesmo indivíduos que nascem em condições menos favoráveis, tenham sucesso, se receberem e responderem de forma adequada aos estímulos.  Mas para todos vale a regra geral: além de condições, é preciso esforço e persistência. A boa escola é a que estimula os alunos a desenvolverem esses hábitos.

Porém, se os pais das classes populares enfrentam mais limitações ao estimular a aprendizagem dos seus filhos, é necessário abordar diretamente essa problemática, a partir de intervenções desde cedo, de qualidade igual ou superior às oferecidas às famílias e bairros onde elas se mostram mais eficazes.

Diversos estudos detalhados no livro “Educação Baseada em Evidências – o que funciona em Educação” (Instituto Alfa e Beto), que escrevi em parceria com mais três estudiosos, demonstram medidas que podem reduzir as disparidades causadas pela origem familiar. Uma das principais é a Educação Infantil. Uma pesquisa de 2012, feita com dados longitudinais, mostrou que frequentar a pré-escola aos 4 anos de idade está associado a uma substantiva redução da influência da família nas habilidades de leitura e matemática aos 5 anos, fazendo com que filhos de pais analfabetos, por exemplo, tenham mais oportunidades de serem bem sucedidos na vida escolar.

Como a taxa de matrícula em pré-escola é mais baixa entre crianças de nível socioeconômico mais baixo, elas seriam as mais beneficiadas por um investimento para aumentar as matrículas nessa etapa da escolaridade – desde que, é claro, se respeite as etapas de desenvolvimento, sem forçar uma escolarização precoce.

Atividades extracurriculares também podem ter impacto na reversão das amarras causadas pela origem familiar, de acordo com as evidências. Contudo, é importante frisar que estratégias como oferecer aulas de artes e esportes no período contrário à escola estão relacionadas principalmente com aspectos não cognitivos, como engajamento, sentimento de pertencimento, autoestima e expectativas de sucesso. Isso tem efeitos na diminuição das taxas de abandono e repetência, mas potencialmente pode ter efeitos positivos sobre os resultados acadêmicos dos estudantes, especialmente entre os jovens mais vulneráveis.

Seja qual for a medida utilizada para reverter as disparidades causadas pela origem social, seu efeito positivo irá depender, sobretudo, de como as políticas públicas educacionais trabalham com as pessoas que mais precisam dessas medidas.

 

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O objetivo desta coluna é suscitar o debate e enriquecer a discussão sobre educação. Participe enviando comentários e questionamentos. Para acessar os textos anteriores, clique aqui.

Comentários
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  1. Comentado por:

    Roberto

    O artigo me pareceu preconceituoso na medida em que afirma que famílias de padrão sócio econômico mais baixo teriam inferioridade cognitiva.

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  2. Comentado por:

    Michel

    Ótimo texto!

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  3. Comentado por:

    Gildázio Garcia Vitor

    Acredito que a origeml social e religiosa dos professores têm influenciado, e muito, nos resultados escolares internos e externos dos ensinos fundamental e médio das escolas públicas.

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  4. Comentado por:

    Sergio

    Isto é interessante para aqueles que acham que tudo pode ser resolvido por quotas. É claro que existe uma coisa chamada herança familiar, que não dá para taxar. nem tirar. São valores, empenho, esforço e dedicação aplicados pelos pais ao aprendizado dos filhos. Isto tem a ver com renúncia e sacrifício. E não adianta o MEC piorar o currículo a cada ano. Nós vamos resistir e ensinar aquilo que é vedado ensinar às nossas crianças em casa. Isto, nem o MEC pode nos tirar.

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  5. Comentado por:

    Luis

    Darwin já elaborou estudo há mais de 100 anos provando a teoria da evolução das espécies.
    E toda a nossa sociedade foi moldada baseada em seus conhecimentos.
    Pais inteligentes tem a tendência a gerar filhos inteligentes, isto por genética, não a toa os maiores cientistas ,médicos e engenheiros são de raça europeia.
    Caso julguem este comentário racista e improcedente, melhor solicitar então aos meios acadêmicos a banir a teoria de evolução de Darwin e solicitar ainda alteração de todos sistema jurídico brasileiro , que é darwiniano.

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  6. Comentado por:

    Marcus Dourado

    Prezado João Batista, você tocou na grande ferida da educação em nosso país. Sou descendente de imigrantes europeus, portanto com uma bagagem cultural elevada que, de fato , me ajudou a ser o que sou. Cerca de 70% dos brasileiros não tem essa vantagem. Sua história cultural é demasiadamente pobre para suscitar a busca pelo êxito e a realização pessoal. Essa é a grande desvantagem cultural de nosso povo e estamos falando de cerca de 140 milhões de pessoas. Sim, as famílias humildes deste país acham que a escola vai SUBSTITUIR a educação familiar. Não temos alternativa: ou a escola brasileira se prepara para essa tarefa gigantesca, ou seremos degredados a ter, a cada geração, uma sociedade com menor herança cultural advinda da família. Sem uma abordagem, até revolucionária, nesses temos jamais chegaremos a lugar algum. Parabéns, estamos começando a falar sério sobre a educação deste país.

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  7. Comentado por:

    sidnei

    Os pais são fundamentais para o sucesso da criança. Pais que se envolvem na vida escolar dos filhos, cobrando, participando na rotina da escola, estimulam os filhos. Incentivar a meritocracia como a chave para o futuro sucesso profissional, também é importante.

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  8. Comentado por:

    Marcos F

    Tenho 68 e nasci no emergente Morro da Aclimação, uma mistura de boas casas e esparsas favelas. Os pobres e negros que brilharam no seu futuro foram os filhos das empregadas e os que jogavam futebol de rua com os ricos. Hoje, me parece que tudo isso é proibido.

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  9. Comentado por:

    JOÃO RIBEIRO DE ARAÚJO

    Sou favorável que a Educação seja privatizada, esta provado, tudo que o Governo gerência, gerência pessimamente…….que tal as verbas da educação seja repassada para as famílias em sistema de Vouchers, para que elas escolha a sua própria escola? Viu que seu filho não está tendo o resultado esperado mude de escola e procura aquela que te atende melhor. Vouchers escolares: “o caminho mais “eficiente” para a socialização da educação.

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  10. Comentado por:

    João Batista Oliveira

    Preconceito significa um conceito ou juízo de valor que não leva em conta os dados objetivos. Em qualquer pais do mundo em que se aplicar um teste cognitivo, os resultados estarão fortemente correlacionados com o nível socioeconômico das pessoas. Normalmente se utilizam parâmetros como escolaridade dos pais, renda familiar ou indicadores como número de livros em casa. Este é um fato empírico que pode ser comprovado – há centenas de estudos publicados sobre o tema. Nos Estados Unidos, por exemplo todos os testes desse tipo mostram que a média dos alunos de origem oriental é igual ou superior à média dos demais, inclusive dos brancos. A média dos latinos e negros é inferior à média dos brancos.
    Por outro lado é necessário compreender que um nível cognitivo mais elevado não é privilégio de classe social – o QI se distribui de forma muito ampla e você encontra pessoas de nível cognitivo elevado em todas as classes sociais – só que a distribuição não é exatamente proporcional. A vida é assim, as pessoas são desiguais e nascem desiguais. Cabe às políticas públicas formular estratégias para reduzir as desigualdades e seus efeitos – negar a sua existência é como a avestruz que coloca a cabeça na areia.

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