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Educação em evidência Por João Batista Oliveira O que as evidências mostram sobre o que funciona de fato na área de Educação? O autor conta com a participação dos leitores para enriquecer esse debate.

A duração da jornada escolar faz diferença no desempenho?

No Brasil, escola em tempo integral é sempre vista como um dos principais fatores de melhoria do desempenho escolar. O que as evidências mostram sobre isso?

Por João Batista Oliveira Atualizado em 21 nov 2019, 15h59 - Publicado em 13 nov 2019, 17h05

Em mais um post da série sobre o Estudo “Para desatar os nós da educação – uma nova agenda”, vamos tentar responder a pergunta: ensino em tempo integral faz diferença no desempenho escolar?

As evidências sugerem que o tempo gasto pelo professor em tarefas de ensino tem forte correlação com o desempenho dos alunos. Portanto, a suspeita de que um maior número de horas de funcionamento da escola levaria a melhor desempenho tem fundamento, desde que esse tempo seja gasto em tarefas relevantes para o ensino. Mas, como veremos, as coisas não se passam bem assim.

O Brasil é um país que viceja na ambiguidade. A ambiguidade permite que conflitos reais se tornem aparentes com o uso hábil da linguagem. Mas também permite que problemas reais não sejam identificados ou discutidos – qualquer coisa pode significar qualquer coisa e, dessa forma, evitam-se conflitos e fica “tudo bem”. O tempo integral é um desses conceitos.

No Brasil, a palavra é usada em pelo menos quatro sentidos – e raramente os interlocutores se esforçam para esclarecer em qual sentido estão usando o termo. O sentido usual de tempo integral, quando relativo a escolas, refere-se à duração do tempo escolar: uma escola de tempo integral é aquela em que os alunos ficam um determinado número de horas por dia – tipicamente varia de 6,5 a 8 horas por dia, na maioria dos países do mundo. O conceito é usado para uma escola – a escola toda opera dessa forma, o que lhe confere determinadas características quanto ao número de aulas e às características de sua proposta pedagógica, que tipicamente oferece opções e outras atividades para os alunos.

Mas o termo é usado no Brasil em três outros sentidos. Educação integral, que é uma noção puramente conceitual, definida ao gosto do freguês. Tempo estendido para algumas turmas dentro da escola ou para alguns alunos, com maior carga horária e/ou atividades de recuperação. E tempo estendido com atividades realizadas em outros locais, com ou sem cunho acadêmico.

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Neste blog, analisamos escolas que se enquadram nesse conceito “brasileiro”, ou seja, escolas onde há alunos ou turmas com tempo estendido. As figuras 23 A, 23 B e 23 C apresentam o resultado de escolas em função da duração do tempo de aulas oferecido. Os dados referem-se aos resultados da Prova Brasil em 2013, 2015 e 2017, para o ensino fundamental. Para o ensino médio, incluem o resultado de todas as escolas que participaram do ENEM entre 2012 e 2017.

A duração da jornada escolar varia de 120 a 720 minutos. O tempo é baseado na resposta das escolas ao questionário do Censo Escolar. Esse conjunto de dados inclui todas as escolas que participaram da Prova Brasil ou ENEM – não são necessariamente escolas inteiras de tempo integral.

No eixo x, encontra-se a duração média da jornada escolar por escola. O eixo y apresenta a nota líquida da Prova Brasil ou ENEM, ou seja, a nota depois de controlados os fatores para eliminar o efeito de U.F. e nível socioeconômico, por isso a nota líquida tem média zero. O desvio-padrão é o mesmo da Prova Brasil (50 pontos) e do ENEM (100 pontos).

A linha vermelha ilustra a relação estimada entre a nota e a duração da jornada escolar. Como se pode observar visualmente, maior duração da jornada não impacta nas notas, e isso vale para os três níveis de ensino.

O resultado parece contra-intuitivo. Mas, como os demais posts desta série vêm demonstrando, o problema parece estar do lado das intuições. Muitas crenças existentes sobre o que funciona em educação não encontram respaldo na realidade. No próximo post, vamos afinar mais a questão e concentrar a análise em escolas que efetivamente correspondem ao conceito usual de tempo integral: será que elas fazem diferença?

 

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