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Educação em evidência Por João Batista Oliveira O que as evidências mostram sobre o que funciona de fato na área de Educação? O autor conta com a participação dos leitores para enriquecer esse debate.

As cloroquinas da educação

Há conhecimentos robustos sobre como promover avanços educacionais. Mas insistimos em fazer perguntas erradas e optar por caminhos que não levam a nada.

Por João Batista Oliveira 5 ago 2020, 11h20

A metáfora da cloroquina pode nos ajudar a entender melhor porque erramos tanto e porque acertamos tão pouco quando se trata de promover a qualidade da educação. Não que seja fácil fazer o certo, mas parece que temos vocação incontrolável para repetir e ampliar o que não dá certo.

Em 1849, o jornalista francês Alphonse Karr lançou um artigo cujo título se tornou famoso: “Et plus ça change, et plus c’est la même chose” (Quanto mais muda mais fica igual). Ele acertou não apenas no título, mas também na predição – a 2ª República que desembocou no Segundo Império – o de Napoleão III (sobrinho do Bonaparte).

São inúmeras as cloroquinas da educação. Nossas autoridades educacionais vivem à procura de “novidades” desde pelo menos a década de 60. E a sociedade aplaude, sempre há público para “o novo” – ainda que seja tão eficaz quanto a cloroquina.

Alguns estados têm opção preferencial por soluções caras e ineficazes – como os incentivos para professores, reorganização escolar, tempo integral. As evidências existentes antes dessas iniciativas ou as evidências, com base nelas, explicam sua ineficácia. A bola da vez é o “professor auxiliar”. Em vez de consertar o que há, propõe-se um remendo. A ideia foi tentada inúmeras vezes em outros países, sem sucesso comprovado. Pode funcionar, por razões óbvias, na educação infantil e na educação especial, mas também aí a eficácia dependerá da qualidade. No caso do professor auxiliar nas classes normais, as evidências disponíveis alertam que, em caso de professores sem grandes recursos, os resultados podem ser ainda piores para os alunos. Tal como no caso da cloroquina.

O problema não está nas ideias – elas até podem ser boas. O problema é que já se demonstraram ineficazes. E são caras. Mais caras e mais ineficazes do que a cloroquina.

No mundo do “big data” é relembrada, todos os dias, a história passada na Segunda Guerra Mundial, em que os engenheiros analisavam os aviões danificados pela artilharia alemã e identificaram como mais vulneráveis as partes mais atingidas. Dados corretos, inferência errada: essas partes eram as robustas, a resposta estava nas partes não afetadas dos aviões derrubados. Não existem respostas certas para perguntas erradas.

Mais do que no caso da Covid-19, e muito mais do que no caso da cloroquina, existem conhecimentos robustos sobre como promover avanços educacionais a partir de situações como as do Brasil. Mas insistimos em fazer as perguntas erradas – e optar pelos caminhos que não levam a lugar nenhum.

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