Alfabetização na BNCC: mais um retrocesso na educação | VEJA
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Educação em evidência Por João Batista Oliveira O que as evidências mostram sobre o que funciona de fato na área de Educação? O autor conta com a participação dos leitores para enriquecer esse debate.

Alfabetização na BNCC: mais um retrocesso na educação

Em países com sistemas educacionais razoáveis, a elaboração de programas de ensino segue um ritual. Aqui, criamos um ritual próprio, fadado ao fracasso.

Por João Batista Oliveira 14 dez 2017, 18h09

Um grupo de pesquisadores das áreas de psicologia, psicolinguística, linguística e neurociências encaminhou ao Conselho Nacional de Educação uma nota na qual se analisa a proposta do MEC para o currículo de alfabetização. A nota, escrita em linguagem profissional, simples e objetiva, é devastadora – não fica pedra sobre pedra. Altamente qualificado, o grupo é formado por pessoas com publicações em revistas científicas internacionais de alto prestígio, sendo que algumas delas também têm enorme experiência prática na área. O que vai acontecer? Nada. O CNE não vai considerar a nota. O MEC não vai corrigir o que fez errado – sequer vai reconhecer o erro. E em breve, a BNCC – Base Nacional Comum Curricular será aprovada e festejada com pompa e circunstância. Depois ainda há quem pergunte por que a educação no Brasil é tão ruim.

O que impede o Brasil de avançar na educação? O processo de encaminhamento da BNCC esclarece as razões disso: o Brasil quer ser diferente. Em qualquer país democrático e com sistemas educacionais razoáveis, a elaboração de programas de ensino segue um ritual. No país das jabuticabas, criamos um ritual próprio, fadado ao fracasso. Com a queda do PT, que começou o processo de discussão da BNCC, o grupo do DEM-PSDB, considerado liberal, continuou as mesmas práticas, com algumas ligeiras mudanças no processo, mas sem mexer no essencial. Audiências públicas e consultas via internet não substituem o debate e o confronto de ideias – essencial em um processo desta natureza. Deu no que deu. Sequer conseguimos fazer um programa de ensino decente para dizer o que precisa ser ensinado nas escolas.

De todos os erros na condução do processo, o que mais chama a atenção é a falta de apetite do MEC e do Conselho Nacional de Educação para o diálogo e o debate. Mas, além disso, há uma questão específica sobre a alfabetização: por que o MEC e o CNE não se deram ao trabalho de consultar quem entende do assunto? Por que eles se recusam a considerar as evidências científicas e as melhores práticas sobre o tema? O que eles têm contra ouvir os pesquisadores que dedicam suas vidas acadêmicas a estudar um tema tão crítico para o futuro educacional das nossas crianças?

Em matéria de educação – e especialmente de alfabetização, o Brasil é vítima de um consenso perverso.

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