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É tudo história Por Coluna O que é fato e ficção em filmes e séries baseados em casos reais

‘Ted Bundy’: quando a crueldade é tão real que pouco sobra à ficção

Longa se desvia pouco da história verdadeira para recriar a vida de um dos mais notórios serial killers americanos

Por Ana Carolina Avólio - 1 ago 2019, 08h00

A história de Ted Bundy, charmoso serial killer que matou ao menos trinta mulheres na década de 70, chegou aos cinemas brasileiros com a estreia de Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal. Interpretado por Zac Efron, o assassino ganhou notoriedade na época por ter conquistado uma legião de admiradoras, que compareciam em peso aos julgamentos em que ele era réu. Além disso, Bundy tinha carisma e o dom da retórica a seu favor, tornando os tribunais um verdadeiro espetáculo para a audiência que tanto almejava.

Com toda a euforia provocada pelo criminoso, uma personagem importante passou despercebida por todos esses anos: Elizabeth Kloepfer, ou simplesmente Liz, interpretada por Lily Collins no filme. Namorada de Bundy à época em que ele se descobriu um matador profissional, a mulher demorou a acreditar que o homem amado era o mesmo assassino perverso dos jornais, que buscava sempre o mesmo tipo de vítima: mulheres com o cabelo longo e repartido ao meio.

Foi justamente Liz a escolhida pelo diretor Joe Berlinger para narrar a história de um dos criminosos mais conhecidos dos Estados Unidos. A opção pelo ponto de vista da namorada de Bundy, com base no livro de memórias The Phantom Prince: My Life with Ted Bundy, escrito por ela sob o pseudônimo Elizabeth Kendall, faz com que o longa dispense cenas gráficas de violência extrema em detrimento do drama psicológico enfrentado pela mulher. A escolha provocou críticas da imprensa internacional, que acusou a produção de ter amenizado os crimes cometidos pelo assassino.

Mesmo sem mostrar as cenas em que Bundy comete os crimes, o longa choca ao mostrar fatos que desenham o psicológico do assassino: um pedido de casamento durante o julgamento no qual era condenado pelo assassinato de duas universitárias, a marca de mordida deixada nos glúteos de uma de suas vítimas e o assassinato de uma menina de apenas 12 anos são exemplos da crueldade tão real retratada em Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal – com tantos horrores, pouco sobrou para a ficção. Confira abaixo o que é real e o que foi inventado no longa:

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Fugas

 //Divulgação

O filme mostra Bundy escapando duas vezes da custódia da polícia do Colorado. Na primeira delas, ele pula da janela de uma biblioteca no segundo andar de uma prisão na cidade de Aspen. Na segunda, ele usa uma lâmina roubada para cortar um buraco no teto de sua cela em Glenwood Springs. De fato, as duas fugas ocorreram, mas a segunda ocasião foi diferente por um detalhe e mais complexa na vida real. A lâmina utilizada não foi roubada, e sim dada a ele por outros detentos. Além disso, ele chegou a emagrecer 12 quilos para poder fugir pelo duto de ar condicionado. 

Retrato falado

 //Divulgação

Uma das maiores reviravoltas do enredo acontece quando Liz confessa a Bundy que entregou seu nome à polícia como um possível suspeito pelos assassinatos depois de ver um retrato falado no jornal. Na vida real, ela realmente denunciou o então namorado às autoridades, mas não na primeira vez em que fez a ligação – Liz só citou o nome do criminoso na segunda vez em que entrou em contato com a delegacia. 

Perseguições

 //Divulgação

No início do filme, Ted Bundy conta a Liz que está sendo seguido há dias e tenta, em vão, confrontar seu perseguidor. Apesar de não ter conseguido atingir seu objetivo, nenhuma outra perseguição é mostrada ao longo da produção. Na vida real, o caso foi mais grave: o casal foi perseguido por meses pela polícia de Seattle e chegou a se envolver em um acidente depois de tentar despistar um policial disfarçado. Em seu livro, Liz afirmou que todas as vezes em que eles saíam de casa “tantos carros não identificados da polícia davam partida que parecia o começo da Fórmula Indy”.

Cooperação

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Quando confrontada por um detetive, Liz se recusa a ajudar com a investigação e rapidamente fecha a porta de sua casa. O mesmo não aconteceu na vida real – na verdade, a então namorada de Ted Bundy colaborou com a investigação policial em inúmeras ocasiões, mantendo, inclusive, reuniões regulares com a detetive Kathy McChesney, de Seattle, e pelo menos outros dois investigadores de outras cidades. Em uma de suas conversas com o namorado, Liz chegou a confessar seu envolvimento com a polícia. “‘Eu tive algumas dúvidas sobre você por muito tempo. Fiquei tão preocupada que fui à delegacia há um ano’”, escreveu a mulher sobre a confissão em seu livro. Apesar da má notícia, Bundy não deixou o desespero transparecer. “A verdade é boa o suficiente. Ela me provará inocente”, respondeu o assassino na ocasião.

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Pedido de casamento no tribunal

 //Divulgação

Uma das cenas do longa que mais causa indignação no público, tanto pela espetacularização quanto pela perspicácia de Bundy, é o pedido de casamento a Carole Ann no tribunal. Bundy realmente pediu a amiga de longa data (e apoiadora) em casamento durante um de seus julgamentos, após Liz se tornar cada vez mais ausente. No entanto, o pedido não aconteceu no julgamento dos assassinatos de Margaret Bowman e Lisa Levy, em 1979, mas sim no do caso Kimberly Leach, no ano seguinte. Também é verdade que o casal teve uma filha, embora ela tenha sido concebida um ano depois do que retratado no longa, enquanto o criminoso esperava sua execução no corredor da morte. Carole e Bundy se divorciaram em 1986, três anos antes do assassino ser morto na cadeira elétrica. Desde então, a mulher e sua filha, Rose, foram viver suas vidas longe dos olhos do público.

A mordida

 //Divulgação

Durante o filme, é possível observar que Zac Efron está usando uma prótese dentária sobre seus dentes verdadeiros. A razão para isso é bem clara: tal como no longa, a arcada dentária de Ted Bundy teve um papel fundamental em sua condenação, ao ser considerada a prova mais incriminadora contra o assassino. Uma de suas vítimas, Lisa Levy – assassinada em 1979 – foi encontrada com uma marca de mordida em seus glúteos. Bundy possuía uma mordida peculiar, já que seus dentes inferiores eram tortos e seu incisivo superior, lascado. O dentista forense Richard Souviron, então, comparou uma fotografia dos dentes do criminoso com uma imagem da marca deixada no corpo, mostrando que eram exatamente iguais.

Jerry

 Reprodução/Netflix

Ao longo do filme, Liz começa a se afeiçoar a Jerry (Haley Joel Osment), seu colega de trabalho. No entanto, o personagem nunca existiu na vida real. Em suas memórias, a mulher menciona apenas dois outros interesses amorosos, além de Bundy: Ben, um namorado de sua época escolar, e Hank, um homem que conheceu durante reuniões do Alcoólicos Anônimos (AA). Entre todos, Hank parece ter sido o que mais inspirou a criação de Jerry – Liz conta que, tal como o personagem fictício, ele pedia a ela que desligasse o telefone toda vez que o assassino ligava para sua casa.

Assassinato de uma criança

 //Divulgação

Entre as vítimas de Ted Bundy, um caso chamou atenção: o assassinato de Kimberly Leach, uma menina de apenas 12 anos. Considerada sua última vítima, Kimberly desapareceu no meio do período escolar na Flórida, em 1978. Seu corpo foi achado dois meses depois em um parque estadual e apresentava sinais de espancamento e violência sexual. Apesar do caso ser rapidamente mencionado no filme, houve grande repercussão na vida real, o que levou o criminoso a enfrentar outro julgamento. Pelo crime, Bundy foi condenado à morte pela terceira vez em 1980 – como mostrado no longa, ele já havia sido sentenciado pelo assassinato de Margaret Bowman e Lisa Levy.

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Confissão

 //Divulgação

Momento dramático no filme, Ted Bundy nunca chegou a confessar diretamente seus crimes à ex-namorada. Na verdade, a conversa na qual a cena foi baseada aconteceu em 1978, onze anos antes do mostrado no longa, e não foi a última entre o casal. No longa, Bundy confessa os assassinatos ao contar que decapitou uma de suas vítimas utilizando um arco de serra. Na vida real, porém, a conversa foi bem mais ambígua, como descreveu Liz em suas memórias. “Você não foi culpada, eu fui. Eu simplesmente não conseguia conter isso. (…) Essa era a razão pela qual eu não ia bem na faculdade. Meu tempo estava sendo usado para fazer com que minha vida parecesse normal”, disse o criminoso. Quando questionado sobre o assassinato de Lisa Levy e Margaret Bowman, no entanto, Bundy fugiu do assunto. “Oh, Liz, eu não posso falar sobre Tallahassee (onde os crimes ocorreram), mas tentarei responder todas as suas outras perguntas.”

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