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É tudo história Por Coluna O que é fato e ficção em filmes e séries baseados em casos reais

Racismo e erro judicial: o real e a ficção da série ‘Olhos que Condenam’

Minissérie da Netflix reconstrói um famoso julgamento em Nova York em que jovens negros foram condenados por um crime que não cometeram

Por Amanda Capuano - Atualizado em 12 jun 2020, 12h44 - Publicado em 11 jun 2020, 16h35

Em abril de 1989, cinco jovens, quatro negros e um latino, foram presos acusados de estuprar e agredir brutalmente uma corredora no Central Park, em Nova York. Na ocasião, Korey Wise, Kevin Richardson, Yusef Salaam, Antron McCray e Raymond Santana foram coagidos a confessar o crime depois de horas de interrogatório sem a presença de maiores responsáveis ou advogados. Além da confissão, não havia provas materiais contra nenhum deles — 13 anos depois, um homem chamado Matias Reyes assumiu a autoria do crime, e as acusações contra os rapazes foram retiradas. A história é retratada na minissérie Olhos que Condenam, com direção e roteiro de Ava Duvernay. Disponível na Netflix, a produção de quatro episódios dramatiza um dos erros judiciais mais famosos da história dos Estados Unidos e levanta discussões sobre o racismo do sistema judiciário americano. Confira o que é fato e o que é ficção na série:

 

O passeio que deu errado e a chegada à delegacia 

Cena de Olhos que Condenam momentos após os interrogatórios Reprodução/Netflix

Na noite do dia 19 de abril de 1989, quarta-feira, Korey Wise (Jharrel Jerome), Kevin Richardson (Asante Blackk), Yusef Salaam (Ethan Herisse), Antron McCray (Caleel Harris) e Raymond Santana (Marquis Rodriguez) entraram no Central Park com outros 25 jovens. Com exceção de Yusef e Korey, que eram amigos de infância, os jovens não se conheciam. Korey, assim como na série, estava em um restaurante quando Yusef viu o amigo e o convidou para ir ao parque. Segundo conta no documentário Os Cinco do Central Park (2012), Kevin estava jogando basquete quando avistou o grupo. O amigo que estava com ele seguiu para o jogo e ele foi para o parque. Já Raymond Santana, ao contrário do que é retratado por DuVernay na série da Netflix, não foi para o local aleatoriamente: o pai notou um tumulto na esquina da casa onde viviam e o mandou para o parque afim de evitar confusão. No documentário, os cinco narram que a noite foi agitada: alguns jovens do grupo perseguiram ciclistas, agrediram um morador de rua e arremessaram pedras em carros, cena reproduzida fielmente na série. Quando a polícia chegou, todos correram. Kevin e Raymond foram detidos pela “arruaça”. Segundo relato de Kevin, ele chegou a pular o muro para tentar sair do parque e, assim como reproduzido na série, um policial o agrediu no rosto com o capacete. Os dois estavam prestes a serem liberados quando um investigador soube do caso da corredora e os manteve na delegacia. Antron, Yusef e Korey foram detidos no dia seguinte – os dois últimos, ao contrários do que mostra a série, foram presos a noite na porta da casa de Yusef, e não aleatoriamente na rua durante a tarde.

 

Confissão sob pressão – 95%

Caleel Harris como Antron Mccray em cena do interrogatório de Olhos que Condenam Divulgação/Netflix

Detidos pela polícia, os jovens foram mantidos juntos em uma sala da delegacia e, posteriormente, separados para o interrogatório. Quatro confissões foram gravadas — com a exceção de Yusef, que, como mostra a produção, teve o interrogatório interrompido pela mãe. Segundo relatos dos cinco e de familiares, mesmo sendo menores de idade, os responsáveis não estavam presentes na maior parte do interrogatório. Em um dado momento, o pai de Antron McCray foi pedido para se retirar e, como mostrado na série e em seu depoimento, pediu ao filho que falasse o que eles quisessem para que pudessem ir para casa. A ida do pai de Raymond Santana à delegacia também aconteceu como o retratado: por pensar que a situação logo se resolveria, deixou a avó do jovem, que não falava inglês, acompanhando o neto e partiu para o trabalho. Antes das gravações, os então adolescentes foram submetidos a cerca de 30 horas de questionamentos, reconstituídas na produção com diálogos imaginados a partir dos relatos dos cinco. Segundo eles, os policiais diziam que se contassem “a verdade” poderiam ir para casa, e os acusados implicaram um ao outro com detalhes e ações diferentes em cada depoimento. Como apresentado na série, o local exato do crime, a ordem das agressões, as vestimentas da vítima e outras informações importantes para a investigação não estavam alinhadas nos depoimentos. No julgamento, a defesa apontou coerção, mas o júri não foi convencido pelo argumento. Segundo Ronald Gold, que integrou o júri, ele chegou a brigar com outros jurados para que levassem em conta as contradições entre as confissões, mas eles estavam convencidos desde o princípio. “Isso não importava para o júri, se eles confessaram era isso e ponto final”, conta no documentário Os Cinco do Central Park. 

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A amostra de DNA desconhecida

Cena de análise de DNA na série Olhos que Condenam Reprodução/Netflix

Durante as investigações do caso, uma das meias da vítima foi encontrada com vestígios de sêmen na cena do crime. Assim como retratado na série, o DNA de nenhum dos cinco acusados foi encontrado na amostra. Apesar disso, a promotoria seguiu com as acusações e assumiu a narrativa de que o DNA desconhecido pertencia a um sexto agressor, que teria participado do estupro junto com os garotos e não foi identificado pela polícia — mesmo que a trilha deixada pelo agressor ao arrastar a vítima desacordada indicasse uma única pessoa. Em 2001, Matias Reyes, um agressor sexual em série, preso meses depois do caso, assumiu a autoria do crime, e uma análise confirmou que era seu o material genético encontrado na meia da vítima.

Donald Trump e a cruzada pela pena de morte

Cena do segundo episódio de Olhos que Condenam, vídeo real de Donald Trump pedindo a volta da pena de morte em Nova York é exibido Reprodução/Netflix

Em uma cena do segundo episódio da série, Donald Trump, até então “apenas” um magnata do ramo imobiliário, aparece na tela declarando ódio aos agressores de Trisha Meili, a “corredora do Central Park”, seguido de um anúncio feito por ele no jornal pedindo a volta da pena de morte em Nova York. Na produção, a mãe de Korey Wise, condenado pelo crime, assiste a imagem assustada. Os anúncios são reais: na época, Trump gastou cerca de 85.000 dólares em quatro páginas dos maiores veículos da cidade reivindicando o retorno da pena de morte ao estado. Mas ao contrário do que dá a entender na série, os escritos não faziam menção direta aos cinco, nem pediam a aplicação da pena de morte a eles em específico — na verdade, falava em execução a condenados por assassinato. Apesar disso, Trump deixou claro que a cruzada foi motivada pelo caso do Central Park, e se recusou a pedir desculpas aos inocentados. Questionado sobre o caso em 2019, afirmou: “Você tem pessoas em ambos os lados disso. Eles admitiram a culpa.”

O encontro de Korey Wise e Matias Reyes, o verdadeiro culpado

Korey WiseJharrel Jerome) encontra Matias Reyes (Reece Noi) na penitenciária Reprodução/Netflix

Durante o seu confinamento na penitenciária de Attica, Korey se envolve em uma briga com Matias Reyes (Reece Noi) em uma sala de TV. A cena é retratada no último episódio da série, que expõe o abuso físico e psicológico sofrido por ele na prisão. A confusão de fato ocorreu, mas em Rikers Island e, ao contrário do que mostra DuVernay, eles não trocaram socos — embora tenham chegado muito perto disso conforme conta o advogado Michael Warren no documentário Os Cinco do Central Park. Anos depois, os dois voltaram a se encontrar na prisão. Assim como retratado na produção, Reyes se desculpou pela briga de anos antes e, pouco depois, em um interrogatório feito na prisão, confessou o crime do Central Park detalhando e a sua ação, confirmada posteriormente pela comparação do seu DNA ao da amostra desconhecida encontrada na vítima. 

Promotora best-seller e sem escrúpulos

Felicity Huffman como Linda Fairstein em cena de Olhos que Condenam Reprodução/Netflix

Em uma cena do episódio final da série, Nancy Ryan (Famke Janssen) — responsável por retirar as queixas em 2002 — confronta a promotora Linda Fairstein (Felicity Huffman) com os erros da investigação e alguns livros. ”Enquanto você escrevia romances policiais, Kevin, Antron, Yusef, Raymond e Korey cumpriam pena por um crime que não cometeram.” De fato, a promotora virou best-seller: dos 24 livros que escreveu, 16 entraram na lista do The New York Times. Com a estreia de Olhos que Condenam, que pinta a jurista como uma mulher sem escrúpulos para condenar adolescentes mesmo sem provas, Linda veio a público e chamou a série de “uma fabricação”. Em um artigo publicado no The Wall Street Jornal, pouco depois do lançamento, disparou críticas contra Ava DuVernay. “Ela escreveu uma narrativa falsa e ultrajante envolvendo uma articuladora maligna (eu) e falsos acusados (os cinco)”, ao que Ava respondeu com um tuíte: “típico e esperado. Seguimos”. Em março, a ex-promotora entrou oficialmente com um processo contra a Netflix, DuVernay e a co-escritora Attica Locke por difamar sua imagem.

É difícil afirmar até que ponto a representação de Linda é verdadeira — os diálogos são imaginados e a personagem parece, de fato, estereotipada. Linda também não estava presente no primeiro dia de investigações, como mostra a série, chegou aos interrogatórios apenas no dia seguinte. Mas assim como retratado ao final da produção, ela segue defendendo que os cinco participaram do crime, apesar da absolvição. No artigo para o WSJ, aponta outros crimes praticados por um grupo de jovens naquela noite, como agressão e “motim” e afirma que a imagem de que eram 100% inocentes é falsa. No documentário Os Cinco do Central Park, os acusados confirmam que estiveram no parque com o grupo, e descrevem como alguns jovens perseguiram ciclistas, agrediram um morador de rua e jogaram pedras em carros — mas ao contrário do que afirma Linda, negam ter participado das agressões, e todas as queixas em relação ao estupro foram retiradas, por falta de evidências, depois que Matias Reyes assumiu a autoria do crime. 

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