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É tudo história Por Coluna O que é fato e ficção em filmes e séries baseados em casos reais

Madam C.J. Walker: a surpreendente história real da série da Netflix

O que é verdade e o que é ficção na popular atração estrelada por Octavia Spencer

Por Raquel Carneiro - Atualizado em 3 abr 2020, 16h38 - Publicado em 3 abr 2020, 16h21

A jornalista A’Lelia Bundles, 67 anos, conta que foi uma longa jornada de quase cinco décadas para, enfim, divulgar a história de sua trisavó Sarah Breedlove, conhecida como Madam C.J. Walker, empresária pioneira no ramo dos cosméticos para negras. Desde a faculdade, A’Lelia tem dedicado boa parte de sua vida para reunir dados sobre sua família, pesquisa que resultou no livro On Her Own Ground, que inspirou a série da Netflix A Vida e a História de Madam C.J. Walker. Antes, canais de TV e produtoras de filmes descartaram a trama, agora estrelada por Octavia Spencer, e que figura entre as mais populares da Netflix desde seu lançamento.

VEJA checou o que é real e o que é ficção na minissérie de quatro episódios, confira:

 

A dura vida de Sarah Breedlove

 

Sarah (1867-1919), ou Madam C.J. Walker, teve uma vida difícil. A série da Netflix pincela os detalhes biográficos. Seus pais eram escravos, ela foi a primeira de seis filhos a nascer livre, quatro anos após a abolição da escravatura nos Estados Unidos. Ficou órfã aos 7 anos de idade – sua mãe morreu quando ela tinha 4, acredita-se que de cólera. Aos 14, Sarah se casou e engravidou. Aos 20, ficou viúva do primeiro marido, Moses McWilliams. Para sobreviver, trabalhou colhendo algodão — uma atividade comum aos escravos americanos, que continuou nas mãos dos negros livres. Depois, se tornou lavadeira e teve mais dois casamentos frustrados. A trajetória é recontada pela série.

Queda de cabelo e ajuda de Addie

 

Na minissérie, Sarah enfrenta uma calvície, o que mexe com sua autoestima. Até conhecer Addie Monroe (interpretada por Carmen Ejogo), que a ajuda a recuperar os fios perdidos. Na vida real, Sarah realmente teve um problema capilar, que era comum na época por fatores como estresse, baixa-imunidade, febre, alimentação ruim e falta de produtos adequados: muitas mulheres negras usavam no cabelo sabão de lavar roupas que continha alta dose de detergente. Porém, ela não foi ajudada neste momento por Addie, como mostra a série. Ao ficar viúva, Sarah se mudou para St. Louis, em Missouri, onde três irmãos que eram barbeiros viviam. Foi lá, com eles, que ela aprendeu mais sobre cabelo e cosméticos, algo que a série optou por deixar de fora.

Intrigas com Addie

 

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A personagem Addie é uma alusão, na vida real, a Annie Malone, vilanizada na trama em prol de uma narrativa mais instigante. Como mostra a série, as duas realmente foram amigas por um período. As diferenças estão nos detalhes. Elas se conheceram em uma feira em St. Louis, em 1904, e Annie, que já produzia produtos próprios para cabelos crespos, deu dicas a Sarah, que se tornou por um período sua vendedora. Alguns anos depois, Annie de fato acusou Sarah de ter roubado sua fórmula, como sugere a série. Porém, a mistura de vaselina e enxofre usada por Annie e por Sarah era uma velha combinação de produtos para cabelo, da qual nenhuma das duas poderia se gabar de ter descoberto. A futura Madam C.J. Walker melhorou a receita da concorrente, deixando-a mais agradável e com odor mais suave. Foi também ela quem popularizou o uso de pentes quentes e alisamentos. Como pincela o último episódio, Addie tinha a intenção de dar cursos profissionalizantes, o que Annie fez na vida real, ideia que a deixou milionária na década de 1930.

O senhor C.J. Walker

 

Como mostra a trama da Netflix, Charles Joseph (C.J.) Walker (interpretado por Blair Underwood) foi o terceiro marido de Sarah. Ele trabalhava como vendedor de anúncio em jornal quando a conheceu. Ela era lavadeira na época. O casamento durou seis anos, período em que ela adotou o nome do marido no rótulo de seus produtos e deu os primeiros passos em seu empreendimento – no qual ele colaborou como publicitário, fazendo a ponte com jornais que já o conheciam. Como também mostra a série, o casamento não vingou porque Walker abusava da bebida e traiu a esposa com uma de suas vendedoras.

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Advogado fiel

 

O advogado Freeman Briley Ransom de fato existiu e dedicou boa parte de sua vida trabalhando para a marca Madam C.J. Walker. Conhecido por ser educado e cordial, como mostra a atuação de Kevin Carroll, Ransom se tornou figura ilustre em Indianópolis. Foi ativista da causa negra, advogando por sua comunidade e lutando contra movimentos de ódio como o Ku Klux Klan – veia de indignação citada pela série quando seu primo é assassinado por brancos.

Filha lésbica

A’Lelia (interpretada por Tiffany Haddish), filha de Sarah, se encanta por uma fotógrafa na série, paixão que a leva a se mudar para Nova York, uma cidade mais liberal. Na vida real, sabe-se que A’Lelia se casou três vezes e que evidências sugerem que ela teve um relacionamento com uma mulher após o fim do terceiro casamento. Porém, ela não se assumiu como lésbica ou bissexual. Ela se mudou para Nova York, onde abriu um salão para a mãe, e se tornou um nome badalado na vida boêmia da cidade – apelidada ainda de “deusa da alegria do Harlem”. Foi também uma grande apoiadora da comunidade LGBT na década de 1930.

Casão ao lado do Rockefeller

Cena da série ‘A Vida e a História de Madam C.J. Walker’ //Reprodução

A mansão adquirida por Madam C.J. Walker em Irvington, Nova York, é um detalhe levado a sério pelo programa da Netflix. A empreendedora foi sim vizinha do magnata do petróleo John Davison Rockefeller. Tombada como patrimônio histórico, hoje a casa é administrada pela Fundação New Voices, voltada para a capacitação e empreendedorismo de negros. Construída em 1918, a mansão com 34 cômodos foi desenhada por Vertner Tandy, primeiro arquiteto negro de quem se tem registro em Nova York. Ela adquiriu a humilde residência, na época, por 250.000 dólares – valor que, atualizado pela inflação, seria o equivalente hoje a 4 milhões de dólares.

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