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É tudo história Por Coluna O que é fato e ficção em filmes e séries baseados em casos reais

‘Inacreditável’: A surpreendente história real da série indicada ao Emmy

Confira o que é real e o que é ficção na minissérie da Netflix que acompanha a caçada policial a um estuprador em série nos Estados Unidos

Por Tamara Nassif - Atualizado em 27 ago 2020, 13h59 - Publicado em 27 ago 2020, 13h54

Nas primeiras horas do dia 11 de agosto de 2008, Marie Adler, de 18 anos, acordou em seu apartamento com um homem mascarado que a amarrou com cadarços de tênis e a estuprou enquanto apontava uma faca para seu rosto. O trauma indescritível vivido por Marie foi somado a outro, desta vez provocado pela polícia de Lynnwood, cidade do estado de Washington, nos Estados Unidos. Ela conta o que aconteceu em detalhes quando é pedida pela primeira vez, e então conta de novo pela segunda vez, terceira, quarta. No hospital, durante o exame de corpo de delito, tem de contar de novo e, na delegacia, mais algumas vezes. Exausta e traumatizada, Marie começa a confundir um detalhe e outro, o que, somado com seu comportamento tido como “incomum” a vítimas de estupro e sua infância de abuso e maus-tratos, gera a dúvida: estaria Marie mentindo sobre o estupro? Apesar das evidências físicas de agressão, Marie é pressionada pela polícia a assinar uma confissão dizendo que inventou tudo, sendo então processada por falso testemunho. Em paralelo, outra história toma curso, cerca de três anos depois: as detetives do Colorado Karen Duvall, da cidade de Golden, e Grace Rasmussen, de Westminster, conduzem investigações sobre um possível estuprador em série – que, ao que tudo indica, é o mesmo que violentou Marie.

O enredo da minissérie Inacreditável, da Netflix, foi inspirado em um acontecimento real, relatado por uma reportagem do jornal investigativo ProPublica em conjunto com o The Marshall Project. Vencedor do prêmio Pulitzer, o artigo intitulado “Uma história inacreditável de estupro” conta o que aconteceu com Marie Adler e com tantas outras vítimas de Marc O’Leary. Embora altere os nomes dos personagens, à exceção de Marie, a produção é fidedigna aos acontecimentos reais, ainda que use um ou outro recurso da ficção para adaptar a história à televisão.

Confira o que é real e o que é invenção na minissérie de oito episódios, indicada em quatro categorias do Emmy 2020, entre elas de melhor série limitada e melhor atriz coadjuvante para Toni Collette:


O detalhado modus operandi do agressor

Em todos os ataques, o agressor manteve o mesmo modus operandi e carregava consigo um ‘kit’ inalterado //VEJA

Em 2008, Marie foi a primeira vítima de Marc O’Leary – em Inacreditável, nomeado de Chris McCarthy. Na ocasião, o agressor carregava consigo uma câmera fotográfica Cyber Shot rosa, com a qual tirou fotografias de Marie e ameaçou publicá-las caso ela o denunciasse. Ao final, levou os lençóis dela consigo para eliminar seus vestígios e ainda fez um comentário sarcástico: “Não foi tão bom quanto eu pensei que seria.” Embora tenha deixado para trás algumas evidências incriminadoras, o estuprador em série só acabou pego pela polícia três anos depois. No meio tempo, manteve seu modus operandi praticamente o mesmo: perseguia suas vítimas – sempre mulheres que moravam sozinhas –, extraia toda e qualquer informação possível (se namoravam, quais luzes acendiam primeiro, quais janelas deixavam abertas, para quem ligavam, o que assistiam na televisão) e as atacava no começo da manhã. Sempre meticuloso, limpo e organizado, aperfeiçoou o ataque a cada nova vítima: a arma virou um revólver, os estupros passaram a durar horas, os comentários sarcásticos viraram monólogos longos, incluindo até conselhos para fecharem portas e janelas durante a noite. Ao final, tirava fotografias, forçava as vítimas a tomarem longos banhos para eliminar quaisquer traços de DNA e levava consigo as roupas de cama. Usava sempre o mesmo par de tênis, as luvas com estampa de favos de mel, a mochila azul e a CyberShot rosa – detalhes que, mais tarde, seriam descobertos pelas detetives de Colorado, tanto na minissérie, quanto na vida real, e ajudariam a compor um retrato fidedigno do estuprador.

O passado do agressor na polícia

A minissérie faz um desvio ficcional intencional para passar dados importantes sobre a incidência de violências domésticas pelas mãos de membros da polícia //VEJA

No ataque que trouxe a detetive Karen Duvall (na vida real, Stacy Galbraith) à investigação, o agressor fora relapso – ou talvez confiante de que sairia mais uma vez impune – e permitiu que a vítima soubesse detalhes de sua vida. Disse que sabia falar quatro idiomas e que era viajado, e deixou à mostra uma marca de nascença na panturrilha esquerda. O histórico de viagens e poliglotismo fez com que Duvall suspeitasse de que o estuprador tivesse um passado militar e, dos conhecimentos em técnicas forenses de limpeza e metodologias e burocracias de investigações criminais, de que fosse um membro da polícia. Embora Marc O’Leary tenha de fato servido ao exército americano, como mostra a minissérie, a hipótese dele ser um policial é rapidamente descartada pelas detetives na vida real, ao passo que, em Inacreditável, ela toma uma parte considerável do enredo e só é posta de lado quando a investigação toma outro rumo. A minissérie revela, mais tarde, que os conhecimentos de McCarthy/O’Leary se devem a um livro inicialmente destinado a policiais sobre como investigar casos de estupro. Nas mãos erradas e lido na lógica inversa, se tornou uma espécie de “guia”.

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O desvio ficcional, no entanto, não foi mera firula: enquanto Duvall e a colega detetive Grace Rasmussen (na vida real, Edna Hendershot) se desdobram para perscrutar policiais suspeitos, os diálogos passam ao público informações e dados pertinentes sobre casos de violência doméstica entre membros da polícia: são mais de 40% das famílias de policiais que vivenciam abusos, de acordo com um estudo divulgado em 2014 pelo The National Center for Women & Policing. Para passar a mensagem de forma mais clara, a minissérie chega até a inventar o personagem James Massey, um policial com extenso histórico de crimes sexuais e uma ordem de restrição, transferido, inúmeras vezes, de cidade em cidade por causa de episódios violentos.

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O julgamento de Marie e o acordo judicial

Embora não seja comum processos por falso testemunho, os policiais que cuidaram do caso de Marie decidiram fazer dela um exemplo. //VEJA

Depois de confrontada pela polícia por pequenas inconsistências em seus depoimentos, Marie, esgotada, apavorada e traumatizada, cedeu às pressões e disse que já não tinha mais certeza de que o estupro acontecera. Apesar das evidências físicas de agressão, negou sua queixa e assinou uma confissão dizendo que inventou tudo – e, então, foi processada por falso testemunho. Raras são as ocasiões em que pequenos delitos como o dela culminam em julgamentos, mas os policiais, crentes de que Marie era mentirosa e furiosos por terem sido supostamente enganados, decidiram fazer dela um exemplo. Amparada por um defensor público – também surpreso com a intimação –, ela aceitou um acordo judicial ofertado pela promotoria: se atendesse a certos requisitos de bom comportamento durante o ano seguinte, as acusações contra ela seriam derrubadas. Então, além de precisar pagar uma multa de 500 dólares para cobrir os gastos da corte, passou a viver sob liberdade provisória e a receber amparo psicológico por ter mentido. A denúncia de estupro também lhe custou o emprego, a moradia assistida e todos os seus amigos e conhecidos, que não economizaram em xingamentos e ofensas em sua caixa de mensagens. Além de tudo, tinha pouco apoio familiar, já que os pais adotivos não queriam uma mancha no currículo e, assim como a polícia, acreditavam que Marie inventara a história toda para chamar atenção.

Foram dois anos e meio até O’Leary ser preso em Colorado. Na vida real, o chefe da divisão de investigações criminais bateu à porta de Marie, que, na ocasião, havia se mudado para Seattle, para dizer que a foto dela havia sido encontrada entre os pertences do estuprador. Deram a ela um envelope com informações de ajuda a vítimas de estupro e reembolsaram seus 500 dólares. Assistida por outro advogado, Marie processou o Estado, conseguiu 150.000 dólares com os quais refez sua vida e exigiu um pedido de desculpas formal dos detetives responsáveis pelo seu caso.

A caminhonete Mazda branca

Uma mesma caminhonete branca, da marca Mazda e com o retrovisor quebrado, apareceu cerca de dez vezes em câmeras de vigilância. A hipótese, confirmada nos episódios finais da minissérie, era de que o agressor circulava pela região enquanto esperava a vítima dormir. //VEJA

No começo da investigação na minissérie, quando os esforços das equipes das detetives Karen Duvall e Stacy Galbraith se juntaram, uma pequena pista despontou. Pelas câmeras de vigilância no complexo de apartamentos de uma das vítimas, Duvall anotou todos os veículos e pessoas que por lá transitaram no dia da agressão – o que realmente aconteceu na vida real, à exceção de que não foi a detetive quem assistiu às 12 horas de filmagens embaçadas, mas um outro membro da polícia. Pouco antes do amanhecer, uma mesma caminhonete branca, da marca Mazda e com um espelho retrovisor quebrado, apareceu cerca de dez vezes. A hipótese era de que o agressor estava circulando a região enquanto esperava a vítima dormir, mas, por causa da qualidade das imagens, a placa do veículo estava ilegível. Dada como mais um beco sem saída, a caminhonete logo foi deixada de lado – até ser, nos episódios finais, a ponte até o estuprador, depois de uma descoberta da equipe de policiais.

Elias, o estagiário de análise de dados da delegacia de Westminster

Elias: o engraçadinho estagiário criado para ser uma ponte mais direta entre o público e a investigação //VEJA

Uma das poucas manobras ficcionais de Inacreditável é a presença de Elias, um estagiário de análise de dados na delegacia de Westminster. Engraçadinho e ingênuo, o personagem foi criado pelos roteiristas com a intenção de ser uma ponte mais direta entre o público e os acontecimentos da delegacia, dono de palpites e questionamentos que seriam facilmente feitos por quem não entende muito de investigações criminais – ou seja, a grande maioria dos espectadores. Depois de propor sugestões impraticáveis, como buscar por queixas de calcinhas desaparecidas, o jovem Elias fez uma descoberta crucial à investigação: usando um software de mapeamento geográfico, conseguiu marcar denúncias de veículos suspeitos próximos aos locais dos crimes. Três semanas antes de um ataque em Lakewood, uma cidade de Colorado, uma vizinha denunciou uma caminhonete desconhecida estacionada a meio quarteirão de distância da casa da vítima, em um lote vazio. A caminhonete era um Mazda branco e, seu dono, o estuprador. Na vida real, a descoberta foi de uma também jovem analista de dados da polícia de Lakewood – o único paralelo possível de se estabelecer entre Elias e a história reportada no artigo original.

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