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É tudo história Por Coluna O que é fato e ficção em filmes e séries baseados em casos reais

A história real que inspirou a série ‘Criada’, da Netflix

Drama acompanha o calvário de uma jovem mãe que precisa recomeçar com a filha pequena ao deixar o companheiro abusivo

Por Raquel Carneiro Atualizado em 14 out 2021, 14h39 - Publicado em 13 out 2021, 10h39

No meio da noite, Alex (Margaret Qualley) sai de fininho da cama do parceiro abusivo Sean (Nick Robinson), pega a filha de 2 anos e foge de carro com 20 dólares no bolso. A primeira cena da série Criada (Maid/ Estados Unidos/ 2021), na Netflix, é apenas um aperitivo do árduo calvário pelo qual Alex terá de passar para conquistar sua independência e algo próximo de uma vida digna para ela e para a filha.

A história de Alex está longe de ser ficção. Na vida real, são inúmeras as mulheres pelo mundo que passam por situação similar. Porém, a história específica da trama foi inspirada na jornada de Stephanie Land, autora do livro de memórias Maid: Hard Work, Low Pay, and a Mother’s Will to Survive (Criada: Trabalho Duro, Salário Baixo, e a Força de uma Mãe para Sobreviver, em tradução livre). Lançado em 2019, o título se tornou um sucesso instantâneo, alçando Stephanie a um respeitável posto de narradora da desigualdade social americana. “Eu escrevi esse livro na esperança de que ele mude os estigmas em torno de mães solteiras, especialmente as que são pobres, que são tratadas como merecedoras das dificuldades pelas quais passam por causa das terríveis decisões tomadas na vida”, disse a autora.

Ao vender os direitos do livro, Stephanie exigiu que não fosse feita uma adaptação literal, mas sim inspirada nas experiências vividas por ela. Assim, os nomes dos personagens foram todos trocados, e boa parte do drama foi criado para dar a Alex um caráter distinto de sua fonte original.

Relacionamento abusivo

Série 'Criada' -
Série ‘Criada’ – //Netflix

Assim como acontece na série, a história de provações de Stephanie Land também começa com um relacionamento abusivo. O pai de sua filha brigava constantemente com ela e começou a se tornar violento. Sem agredi-la fisicamente, ele lançava mão de uma manipulação emocional, com xingamentos, objetos jogados ao redor dela e murros em móveis, paredes e janelas. Ele também se enfureceu quando a moça ficou grávida e não quis abortar a criança, como acontece na série. Assim, quando a menina estava prestes a completar dez meses — bem mais nova que a filha representada pela série —, Stephanie fez as malas e foi embora com a criança.

Mãe e filha sem-teto

Série 'Criada' -
Série ‘Criada’ – //Netflix

Alex deixa a casa do namorado, tenta abrigo com uma amiga, e acaba dormindo no próprio carro. Eventualmente, após um acidente que destrói o veículo, ela passa uma noite com a criança no chão de uma estação de balsa. A história real é um pouco diferente. Stephanie também não tinha um lugar seguro para ir e perdeu o carro num acidente. Ao contrário da série,  porém, ela passou um tempo na casa do pai. Isso até o próprio ficar violento. Em seguida, ela alugou um pequeno apartamento, pelo qual pagava 550 dólares mensais com seu ínfimo salário de faxineira. Como mostra a série, ela passou por um abrigo e casas tenebrosas: em uma delas, Stephanie e a filha ficaram doentes por causa do mofo.

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Pai e mãe complicados

Série 'Criada' -
Série ‘Criada’ – //Netflix

A série mostra um complicado arranjo familiar. Alex não pode contar nem com o pai ausente – devotado a outra família –, ou com a mãe, uma mulher hippie instável e provavelmente bipolar (vivida pela ótima Andie MacDowell, mãe da protagonista na vida real). A família é a principal mudança do roteiro entre realidade e ficção. A mãe da autora é a ausente: ela morava na Europa com um marido mais jovem e tinha pouco contato com Stephanie. Já o pai chega a abrigá-la no começo da crise, na casa em que vivia com sua nova esposa. Não demorou, porém, para que ele mostrasse seu lado violento, afugentando a filha e a neta.

Assistência social

Série 'Criada' -
Série ‘Criada’ – //Netflix

Um dos pontos cruciais do roteiro é a vulnerabilidade social pela qual a protagonista passa, nas mãos de um sistema que não oferece apoio apropriado a mães solteiras, em situação de pobreza, ou vítimas de violência. Na vida real, a luta da autora foi ainda mais árdua que a da protagonista da série. Ela alugou sozinha, sem assistência, o primeiro apartamento em que morou com a filha. No total, se candidatou para sete diferentes tipos de programas assistenciais, todos muito burocráticos. Como mostra a série, para conseguir subsídio de moradia, ela precisava ter um emprego. Sem o emprego ela também não poderia colocar a filha em uma creche. Sem colocar a filha em uma creche, como ela iria procurar um emprego? Stephanie ainda se lembra dos olhares julgadores quando ela usava um cartão social, comparável ao Bolsa Família, para fazer compras no mercado.

Briga na Justiça

Série 'Criada' -
Série ‘Criada’ – //Netflix

Em um momento chocante da série, Alex perde a guarda da filha e ainda é humilhada no tribunal. A história de Stephanie seguiu um caminho diferente, mas também contou com o clima acusatório da corte. A autora conseguiu na Justiça uma medida protetiva contra o ex. Mais tarde, entrou num acordo para que ele pudesse conviver com a filha por algumas horas dois dias da semana. Em um julgamento, ela chegou a ser tratada como a culpada por deixar uma relação estável e uma casa para viver na rua e na miséria com um bebê. “As pessoas não entendiam que eu estava numa relação abusiva, pois os abusos eram emocionais”, conta a autora.

Vida de faxineira

Série 'Criada' -
Série ‘Criada’ – //Netflix

Na série, Alex presta serviço para uma agência de limpeza, que paga 12 dólares por hora a cada faxina que ela faz. Deste valor, deveria sair ainda o combustível da locomoção e os produtos de limpeza. Stephanie ganhava ainda menos que a sua versão fictícia: cada faxina lhe rendia 8,55 dólares por hora. Ela trabalhou por seis anos como faxineira, limpando até três casas em um só dia. Como mostra a série, a autora também tinha o hábito de se imaginar na vida dos ricaços que habitavam as residências onde ela trabalhava. A moça chegou a experimentar roupas uma vez. Ela ainda gostava de apelidar as casas, de acordo com a “energia” de cada uma, e também de criar histórias fictícias sobre seus moradores.

Abrigo para mulheres

Série 'Criada' -
Série ‘Criada’ – //Netflix

Assim como acontece na série, Alex reluta em dizer que é vítima de violência doméstica, já que nunca sofreu de fato uma violência física do parceiro. Com a ajuda de uma assistente social, ela percebe que é sim uma vítima de um relacionamento abusivo e decide, finalmente, buscar ajuda de um serviço social especializado no tema. Ela é conduzida a um abrigo agradável, com pequenos apartamentos, para onde se muda com a filha. Na vida real, assim que saiu da casa do pai, Stephanie encontrou uma vaga em um abrigo para sem-tetos em moldes parecidos com o da série. Tratava-se de uma estrutura com apartamentos de dois cômodos cada, onde famílias podiam ficar por 90 dias até encontrarem um local para morar.

O sonho da faculdade — e de escrever

Série 'Criada' -
Série ‘Criada’ – //Netflix

O calvário da protagonista acaba no fim da série, quando ela reconquista a guarda da filha e parte para realizar o sonho de estudar em uma faculdade. No livro, a personagem da vida real conta que, enquanto trabalhava como doméstica, frequentava aulas em uma faculdade comunitária – o que não acontece na série. Seu sonho era se graduar em escrita criativa na Universidade de Montana, o que aconteceu eventualmente, graças a uma bolsa destinada a alunos de baixa renda. Stephanie se formou em 2014, quando estava grávida de sua segunda filha. Hoje, é casada, tem quatro filhos, e trabalha com o que ama: a escrita.

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