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A história quase inacreditável de ‘Artista do Desastre’

O que é verdade e o que é ficção no filme cômico que acompanha os bastidores do absurdo 'The Room'

Greg Sestero mal pôde acreditar quando recebeu uma ligação dizendo que James Franco estava interessado numa adaptação para o cinema de seu recém-lançado livro The Disaster Artist: My Story Inside The Room, The Greatest Bad Movie Ever Made (“O Artista do Desastre: Minha História em The Room, o Melhor Pior Filme já Feito”, na tradução livre), escrito em parceria com Tom Bissell. Assim nasceu Artista do Desastre, dirigido e protagonizado por Franco, que conta a história da produção de um dos piores filmes da história do cinema: The Room, de Tommy Wiseau, estrelado pelo próprio ao lado de Sestero. “Franco tinha lido o livro, mas não tinha visto The Room“, disse Sestero em entrevista ao blog É Tudo História. “Ele achou que era uma das histórias mais incríveis e malucas de Hollywood e se sentiu pessoalmente conectado.”

Sestero era um jovem aspirante a ator na região de São Francisco quando conheceu o misterioso Tommy Wiseau, de cabelo preto comprido, que se vestia de maneira extravagante e se dizia de Nova Orleans apesar do forte sotaque do Leste Europeu. Sestero era reservado, enquanto Wiseau não tinha medo de passar ridículo nas aulas de interpretação que frequentavam. Ficaram amigos, mudaram-se para Los Angeles e depois de levarem muitos “nãos” em Hollywood, decidiram fazer seu próprio filme. The Room virou um clássico cult em Los Angeles, com sessões lotadas em que os espectadores recitam as frases do filme e jogam colheres em direção à tela. A relação complicada entre Wiseau e Sestero é um dos temas de Artista do Desastre – mas os dois acabam de rodar outro longa juntos, Best F(r)iends, em que Wiseau faz um coveiro, e Sestero, um sem-teto. “Nós nos conhecemos há 20 anos. É uma montanha-russa, mas acho que sempre teremos uma ligação.” Sestero comentou o que é fato e o que é ficção em Artista do Desastre:

Um aluno especial

 (//Divulgação)

No filme, Greg Sestero (interpretado por Dave Franco) tem dificuldade de se expor nas aulas de interpretação. Um dia, vê um aluno interpretando Um Bonde Chamado Desejo sem pudores, gritando “Stella!” mais alto e mais vezes que o necessário, chutando cadeiras. Era Tommy Wiseau (James Franco). Sestero aborda Wiseau sugerindo trabalharem juntos numa cena. “Fiquei intrigado com sua persona, era muito diferente de todo o mundo que conhecia. Quis saber mais sobre ele, então me aproximei”, contou Sestero. “Eu era mais reservado,  observador. Acho que por isso que combinávamos. Ele era bem mais aparecido, maluco.”

 

Gritaria no restaurante

 (//Divulgação)

Na primeira vez que Tommy Wiseau e Greg Sestero saem, vão a um restaurante familiar. Wiseau propõe que façam a cena ali mesmo. Quando Sestero começa, fala baixo, envergonhado das pessoas em volta. Wiseau aumenta o volume. “Foi bem embaraçoso. Ele é ousado, um showman. Gosta de aparecer. Eu sou o oposto”, disse Sestero. “Eu topei o exercício para evitar ficar mais envergonhado. Porque, se não fizesse, ele ia gritar ainda mais alto. Então terminei fazendo.” Para Sestero, foi tudo muito exagerado. A conexão entre os dois só se fortaleceu quando foram jogar futebol americano no parque (cena que aparece no filme). “Ali ele começou a falar coisas que faziam mais sentido. Pareceu mais humano, falando sobre seguir seus sonhos e não ser medíocre. Sobre ser o melhor. Coisas que acho que precisava ouvir naquela época. Foi quando comecei a achar que para além da aparência de vampiro havia algo mais humano.”

 

Conselho de mãe

 (//Divulgação)

Greg Sestero descobre que Tommy Wiseau tem um apartamento fechado em Los Angeles. Os dois decidem tentar a vida de ator em Hollywood. A mãe de Sestero (vivida por Megan Mullally) não fica nada feliz e tenta impedir. Na cena, pergunta a Tommy quantos anos ele tem, ao que ele responde: “Não se preocupe, tenho a idade do Greg”. A mãe retruca: “Você tem 19 anos?”. Ele dá de ombros, e a senhora Sestero retruca, sarcasticamente: “Tá bom, e eu acabei de fazer 14”. Sem notar o sarcasmo, Tommy responde: “Uau, feliz aniversário!”. Na verdade, a mãe de Greg disse: “Nada de sexo”, com medo de que Wiseau fosse um abusador ou estivesse interessado no seu filho. E a resposta de Wiseau foi ainda mais estranha: “Bem, todos fazemos…”. “Ia ficar muito esquisito explicar”, disse Sestero. “Mas minha mãe não queria que eu me mudasse para Los Angeles com Tommy. Então o primeiro encontro entre eles foi bem incômodo. Ela não achava boa ideia, Tommy era mais velho. Parecia uma decisão estranha. Eu entendo o que ela pensava.”

 

Vida dura em Los Angeles

 (//Divulgação)

A mudança para Hollywood não é fácil. Greg Sestero ainda consegue uma agente logo no início. “Foi encorajador. Achei que era questão de conseguir um trabalho para abrir as portas”, disse o ator. “Mas é muita luta. Depois de um tempo percebe que, mesmo se você tiver um agente, é muito difícil de conseguir se destacar. O filme mostra bem isso. No início é empolgação. Depois você vê que é mais um ator entre milhares, e fica difícil manter a esperança de que vai dar certo.” No filme, Sestero parece menos desesperançado do que estava na vida real na época.

 

Entra a namorada

 (//Divulgação)

Greg Sestero começa a sair com Amber (Alison Brie). Um dia, Tommy chega em casa e encontra os dois assistindo televisão. Tommy fica chateado e pergunta se eles conhecem Konstantin Stalisnavski, um dos maiores professores de interpretação da história, e diz que vai ter aulas com ele – mas Stalisnavski morreu em 1938. Tommy sempre parece aborrecido quando vê Greg com a namorada. “Estávamos em momentos diferentes da vida. Eu tinha começado a namorar, Tommy queria focar na carreira de ator”, disse Sestero. “Todo o resto ele achava uma distração. Então ficou meio irritado que eu estava fazendo uma coisa de criança, uma coisa que um cara de 21 anos faria.” Depois de um tempo, com o comportamento cada vez mais difícil de Tommy, Greg acaba indo morar com a namorada. Mais tarde, após todo o estresse causado por Tommy nas filmagens de The Room, ela termina com ele, como mostra o filme.

 

Fazer nosso filme

 (//Divulgação)

Decepcionados com a falta de oportunidades em Hollywood, os amigos conversam no telhado do prédio onde moram, dizendo-se cansados de levar tantos “nãos”. Para Wiseau, com seu comportamento estranho, aparência e sotaque forte, que ele finge ignorar, é praticamente impossível. Greg Sestero acaba falando que ele adoraria poder fazer seu próprio filme. E Wiseau leva a sério, entregando em poucos dias o roteiro do filme The Room, um drama sobre um triângulo amoroso entre dois amigos, Johnny (Wiseau) e Mark (Sestero), e Lisa (Juliette Danielle, interpretada por Ari Graynor em Artista do Desastre). Na verdade, o roteiro é baseado numa peça escrita por Wiseau, e Sestero só ia trabalhar atrás das câmeras. Os dois começam a produção e logo fica claro que Tommy não sabe o que está fazendo e tem recursos para gastar (no total, 6 milhões de dólares, cerca de 19 milhões de reais). Em vez de alugar equipamento, por exemplo, ele compra. E roda em película 35 mm e digital. “O filme captura bem tudo isso”, disse Sestero.

 

Set caótico

 (//Divulgação)

“O filme retrata exatamente como era a estrutura do set. Tivemos uma direção de arte que recriou tudo nos mínimos detalhes, a partir de fotos que eu tinha, e eu cheguei a emprestar roupas”, disse Sestero. Artista do Desastre deixa claro como Tommy Wiseau não tinha ideia do que estava fazendo, não conseguia decorar suas falas (a famosa cena em que ele diz que não bateu em Lisa e depois vira e diz “Oi, Mark” do nada levou dezenas de tentativas para funcionar) e frequentemente estava atrasado. Também mandou fazer um cenário de um beco quando havia um beco do outro lado da rua, onde podiam rodar. O que James Franco não mostra é que a equipe mudou muitas vezes, seja porque Wiseau demitia pessoas ou porque elas pediam demissão, às vezes em massa. Ele preferiu concentrar as dificuldades da equipe em poucos personagens, por exemplo o continuísta Sandy (Seth Rogen), que tentou de tudo para fazer o filme andar, chegando a dirigir algumas cenas (o verdadeiro Sandy Schklair afirma ter na realidade dirigido todo o filme).

 

O convite de Bryan Cranston

 (//Reprodução)

No filme, Greg Sestero encontra Bryan Cranston, que conhece sua namorada. Quando ela os apresenta, e o ator, hoje conhecido por Breaking Bad e na época por Malcolm in the Middle, vê que Greg está usando barba, oferece um papel na série que precisava de alguém com essas características. Greg pede um dia de folga a Tommy, que nega e ainda faz com que ele tire a barba. Na realidade, não foi bem assim. “Bem que eu gostaria de ter recebido o convite para um papel em Malcolm in the Middle, mas não aconteceu”, disse Sestero. “Eu tinha barba na época porque finalmente conseguia ter uma, e no fim deixei para servir de disfarce caso The Room fosse lançado. Tommy me mandou tirar para poder criar uma cena em que me chamava de ‘babyface’ (cara de bebê). Igualmente esquisito, mas infelizmente sem a presença de Bryan Cranston.”

 

Tommy com produtor no restaurante

 (//Divulgação)

Numa cena, Tommy está num restaurante quando avista o poderoso produtor Jason Hammer (interpretado pelo diretor e produtor Judd Apatow). Ele vai falar oi e tenta mostrar seu talento, recitando Shakespeare, causando uma cena e sendo expulso pela segurança. “Aconteceu muitas vezes. Tommy chegava nas pessoas para perguntar coisas ou para pedir papéis. Ele não se continha”, disse Sestero. Mas Jason Hammer não é na verdade o nome de um produtor.

 

Pré-estreia

 (//Divulgação)

Ao contrário de todas as previsões, The Room finalmente fica pronto. Nesse ponto, a amizade entre Sestero e Wiseau estava bem desgastada. Mas Sestero comparece à pré-estreia, que Wiseau paga do próprio bolso. Numa limousine, Tommy manda o motorista dar outra volta no quarteirão ao notar que ainda tinha pouca gente na porta. “Ele queria chegar com uma grande fila”, disse Sestero. A pré-estreia não transcorre como esperado: as pessoas riem em cenas dramáticas e dos diálogos estapafúrdios. “Foi estranho. Era para ser sério e as pessoas estavam rindo”, disse Sestero. “Achei que ia ser só aquela exibição.” Em Artista do Desastre, a sessão termina aplaudidíssima ao final, com Sestero encorajando Wiseau, dizendo que era um sucesso mesmo assim. Mas na verdade o culto a The Room só surgiu mais tarde, quando Wiseau continuou pagando pela exibição do filme por alguns dias em Los Angeles e por um outdoor fazendo propaganda. “Começou devagar, mas de repente todo o mundo estava falando. Fiquei surpreso. Era algo que as pessoas queriam compartilhar com seus amigos. O público começou a jogar colheres na tela, gritar as frases do roteiro.”

 

Quem é Tommy?

James Franco e Tommy Wiseau após vitória do ator no Globo de Ouro 2018 James Franco e Tommy Wiseau após vitória do ator no Globo de Ouro 2018

James Franco e Tommy Wiseau após vitória do ator no Globo de Ouro 2018 (Matt Winkelmeyer/Getty Images)

Artista do Desastre deixa no ar várias questões sobre Tommy Wiseau, por exemplo, seu país de origem. Durante anos ele disse que era de Nova Orleans, o que não explica o sotaque. Hoje em dia, admite que é da Europa, mas, quando indagado de que parte, responde: “Quem se importa?”. O documentário Room Full of Spoons, que está embargado, afirma que ele nasceu na Polônia. Outro mistério é sua idade. No filme, Tommy vive respondendo que tem a idade de Greg, quando sua aparência não condiz com um rapaz de 20 anos. O diretor do mesmo documentário, Rick Harper, afirma que ele nasceu em 1955 – teria entre 62 e 63 anos e mais de 45 quando fez The Room. Wiseau gastou 6 milhões de dólares em The Room, mais outro tanto na divulgação e tinha um apartamento fechado em Los Angeles. A fonte inesgotável de dinheiro, ele diz no longa de James Franco vir da moda. Há quem especule que ele investiu em imóveis e também ganhou uma indenização milionária no acidente de carro em que esteve envolvido.

 

 

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