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Como funciona a gorjeta em Cuba?

Nos restaurante privados, os garçons aceitam trabalhar sem salário. Eles vivem com o que recebem dos clientes

Por Duda Teixeira - Atualizado em 5 nov 2018, 11h33 - Publicado em 5 nov 2018, 10h30

Com a fim da União Soviética, em 1991, as remessas de dinheiro para Cuba foram suspensas. Para obter dividendos, o governo comunista passou a incentivar o turismo. Hotéis foram reformados para receber estrangeiros pagando em dólares. “É uma coisa que a revolução tem que fazer precisamente para vencer o bloqueio americano para sobreviver e superar os obstáculos que surgiram com a tragédia da queda do bloco socialista”, disse o ditador Fidel Castro (1926-2016). Neste vídeo, ele responde a uma jornalista sobre a necessidade de fazer hotéis capitalistas com essa frase esdrúxula.

Nessa época, uma gorjeta de três dólares deixada na mesa de um restaurante equivalia a um salário de um professor universitário no topo da carreira, cerca de 400 pesos cubanos.

Sem a mesada soviética, os cubanos passaram muita fome. Foi o chamado “período especial”. A população não tinha o que comer e a gorjeta (propina, em espanhol) tornou-se muito desejada por todos, até mesmo pelo governo.

O ditador Fidel Castro ordenou que as gorjetas não poderiam ser embolsadas pelos garçons. O dinheiro deveria ser dedicado para o tratamento das crianças com câncer por meio de um programa estatal. “Essa medida foi muito impopular. As pessoas entenderam que era uma exploração extra. O governo estava roubando um dinheiro que era delas”, diz historiador cubano Boris González Arenas, membro da Mesa de Unidade de Ação Democrática (MUAD). “Todos sabiam que o dinheiro era coletado, mas não havia como saber se o hospital recebia algo. Não há transparência alguma sobre o uso dos recursos pelo governo cubano.”

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Morre o ex-ditador cubano Fidel Castro aos 90 anos
O ex-ditador cubano Fidel Castro, em outubro de 2005 Claudia Daut/Reuters

Atualmente, o salário mensal de um garçom equivale a 15 dólares. Entre eles, hoje existe o combinado de que a gorjeta deve ser dividida igualmente entre todos no fim do expediente.

Quem é pego tentando embolsar algum dinheiro escondido é demitido e volta para a bolsa de empregos. Em teoria, deveria esperar que o governo lhe arrumasse outro posto de trabalho. Mas a bolsa de empregos não passa de um grande mercado em que os oficiais vendem as boas vagas para aqueles que conseguem pagar. Tudo é negociado, e os postos no setor hoteleiro são os mais cobiçados exatamente por causa das gorjetas.

 

No setor privado, muitos cubanos aceitam trabalhar sem salário. Com o que ganham de gorjeta, podem comprar o que precisam na ilha comunista.

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