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Tropeço em bom começo

Falta aos Bolsonaros traquejo no manejo dos códigos do poder

Jair Bolsonaro e companhias de trajetória eleitoral entenderam perfeitamente as demandas do cidadão médio, souberam atender aos anseios dessa maioria — o resultado lhes deu a vitória e, com ela, o mando de campo. Digamos que essa tenha sido a parte mais fácil da empreitada. Emergir do baixo clero é uma coisa. Vários já conseguiram.

Agora, transitar com sucesso na seara do cardinalato é outra bem mais difícil. Requer ao menos domínio dos códigos do poder político e da elite social, atributo a respeito do qual o presidente eleito e seus influentes filhos ainda têm muito a aprender, léguas a percorrer antes de deitar na cama a fim de fazer jus à fama. Isso não significa que tenham chegado crus até aqui. Fossem totalmente desprovidos desse tipo indispensável de compreensão, não teriam chegado.

Convém, portanto, não subestimar a turma. Verniz se adquire. Evidentemente, desde que se tenha discernimento para perceber, boa vontade para ouvir e humildade para incorporar as novidades. De modo geral, os primeiros movimentos nesta fase de transição têm sido corretos: escolha da equipe econômica mediante critérios altos de mérito, formação relativamente rápida do ministério sem grandes espaços para especulações e até os constantes recuos que demonstram boa escuta e capacidade de adaptação de convicções anteriores à realidade presente.

Este bom começo, no entanto, não transcorre imune a alguns tropeços. Uns menos graves, outros mais. A escolha do chanceler em princípio parece ruim, pois foge à ideia inicialmente anunciada de repor o Itamaraty nos trilhos do serviço de Estado. Por ora, Ernesto Araújo parece mesmo um Celso Amorim com sinal trocado. Aguardemos quem será o assessor diplomático com assento no Palácio do Planalto, função de acesso e aconselhamento direto do presidente.

Assistimos ao contratempo do programa Mais Médicos, com a recusa de Cuba em se submeter a regras do novo governo. Área sensível dada a conexão direta com o atendimento da população para a qual é possível que seja encontrada uma solução adequada. Um teste para o uso do bom-senso, da criatividade e do espírito público dos futuros locatários do Planalto.

O nó górdio ainda sem sinal de que possa ser bem desatado é a comunicação de governo. O esquema montado na campanha e ainda em vigor é um desastre completo, cujos efeitos serão sentidos mais adiante se não houver uma correção nesse rumo.

Sem estrutura de comunicação profissional com autonomia e acesso direto ao presidente, Bolsonaro vai se ver em maus lençóis. Seus filhos podem ser ótimos, mas não são do ramo. Nem aquele bamba nas questões de internet. Uma coisa é o candidato em interlocução direta com o eleitorado, outra é o presidente no diálogo permanente com a sociedade. A intermediação profissionalizada ajuda a detectar problemas, evitar maus passos e até a afastar más companhias que servem na campanha, mas são nefastas no governo. Em geral, é uma gente sedutora a cujo charme conviria aos estreantes Bolsonaros atentar com olho bem vivo e faro muito fino.

Publicado em VEJA de 28 de novembro de 2018, edição nº 2610

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