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Todo mundo e ninguém

No barco à deriva das eleições não há vaga no bote salva-vidas

Com Luiz Inácio da Silva fora do elenco, a esquerda tem um problema. Sem dúvida alguma ele seria muito maior se o restante da representação partidária também não estivesse em enrascada semelhante. Nesse barco à deriva no cenário eleitoral não há lugar garantido no bote salva-vidas para nenhum dos navegantes ora embarcados.

O horizonte é névoa pura, e as pesquisas tomadas como bússola não apontam indicadores confiáveis. Em boa medida porque pesquisadores comprometidos com hipóteses e analistas compelidos pela necessidade de dar significado aos números por vezes não levam em conta variantes indispensáveis à consistência das análises e/ou deixam de lado os fatos.

A mais eloquente dessas evidências é aquela que considera isso ou aquilo “se” Lula for candidato. Trata-se de uma condicionante inexistente, o que faz do nome dele nas pesquisas uma distorção fática. Desde já inelegível, o ex-presidente só faz parte do rol de concorrentes no faz de conta petista cujo roteiro aceita desde o registro da candidatura até a cantilena do “candidato, mesmo preso”. Isso ocorre não por algum dos vários distúrbios graves de percepção que acometem a turma, mas por falta de opção eleitoral competitiva e de história melhor para contar no acampamento.

No cotejo com a realidade e, portanto, com a razão, temos outro fato a ser descartado: Manuela D’Ávila e Guilherme Boulos como alternativas a ser encarnadas pelo PT compuseram a cena do derradeiro discurso e nada mais. Mais um: os petistas Fernando Haddad e Jaques Wagner. O primeiro, com a prefeitura nas mãos, perdeu a reeleição em primeiro turno em 2016. O segundo é investigado, não está a fim de maiores exposições e, além disso, é autor da seguinte frase, dita em 2008: “A popularidade de Lula não é capaz de eleger postes”.

Errou no tocante a Dilma Rousseff. Nesse aspecto, há algo a ponderar sobre a celebrada capacidade do ex-presidente de transferir votos. Lula elegeu a sucessora em 2010, mas em 2014 quase fracassou nesse intento. E vejam o senhor e a senhora: com o PT na Presidência, cheio do dinheiro, com marqueteiro de luxo e desprovido de escrúpulos, o chefe disponível para fazer e acontecer, quase que a candidata dele perde a eleição. Ganhou por um triz, com dianteira de pouco mais de 3 pontos porcentuais.

É de perguntar: qual a chance de um resultado positivo com o PT destroçado, sem dinheiro e seu único ativo na cadeia? Por mais que na pesquisa de agora 30% dos consultados digam que votariam “com certeza” em nome indicado por Lula e 16% registrem um “talvez”, intenções transitam num campo fictício.

A outra dimensão pertencem as convicções a ser formadas a partir do desempenho dos candidatos no desenrolar da campanha. Jair Bolsonaro precisará ultrapassar o nicho da truculência; Marina Silva, aterrissar do sonho; Ciro Gomes, serenar palavras, ações e pensamentos; e Joaquim Barbosa, convencer o eleitorado de que sabe mais de Brasil além da óbvia necessidade de o país enquadrar colarinhos-brancos aos bons costumes.

Publicado em VEJA de 25 de abril de 2018, edição nº 2579

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