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Chumbo trocado

Embate na base dos adjetivos agressivos só favorece Bolsonaro

A campanha eleitoral de 2018 ensinou que o embate ideológico, principalmente se feito na base do “fascista” para rebater o “comunista”, não é arma eficaz no exercício da oposição a Jair Bolsonaro. Nele, esse tipo de chumbo trocado não dói. Ao contrário, costuma fortalecê-lo junto ao público que o levou à Presidência e é ainda diária e intensamente cultivado em gestos, palavras e decisões.

Expressões de repugnância e/ou menosprezo pela figura presidencial servem bem ao desabafo, ao protesto emocional, às demonstrações indignadas que, embora sustentadas em fatos e respaldadas em princípios de civilidade e racionalidade, são apenas demonstrativos. Tendem, inclusive, a servir de armadilha, na medida em que banalizam o protesto e acabam dando sentido de normalidade ao que é realmente exorbitante.

Um exemplo: durante quase todo o ano passado, quando Bolsonaro surgiu como opção eleitoral competitiva, as cobranças a ele eram praticamente todas referentes à sua defesa da ditadura militar, que acabou há 34 anos, e dos preceitos autoritários vigentes no período, revogados na consolidação institucional do regime democrático. Só mais tarde, com Bolsonaro já firme como provável presidente, constataram-se a perda de tempo e o desperdício de argumentos.

Nesses primeiros seis meses de governo, a toada das críticas é a mesma, não obstante o presidente oferecer razões a mancheias para que elas sejam mais bem fundamentadas. A ausência de elaboração argumentativa e o uso de insultos são a praia de Bolsonaro. Nela, ele nada de braçada. É imbatível no quesito nível abaixo do aceitável.

Já no campo das alegações e justificativas bem colocadas, questionamentos substantivos, premissas e conclusões lógicas, teses, antíteses e sínteses irrefutáveis, o atual presidente da República não sabe nem tem interesse em navegar. Portanto, quando a ideia é contentar seus gestos, palavras e notadamente decisões, a saída eficaz é o recurso a um bom e consistente conteúdo.

“Com classe, diplomata explica real significado de missão nos EUA”

Dá trabalho, requer conhecimento, habilidade no trato das palavras e argúcia de raciocínio, mas qualifica e diferencia o antagonista. Foi justamente o que exibiu o diplomata Rubens Barbosa em artigo publicado na edição do dia 23 de julho no jornal O Estado de S. Paulo, ao discorrer sobre seu período (1999-2004) como embaixador do Brasil nos Estados Unidos.

Em meio ao ambiente de insultos vãos sobre a ideia de Bolsonaro de indicar o filho Eduardo para o posto mais importante da diplomacia mundial, sem citar a hipótese da nomeação, Barbosa chama o presidente à compostura, mostrando o que é a função e o que se exige do titular na missão de representar o país em Washington.

Segundo o embaixador, presença e interlocução constante com autoridades do Executivo, Legislativo e Judiciá­rio americanos, empresários, acadêmicos, investidores, representantes de entidades sociais, viagens pelo país em busca de informações e mediação de contatos multilaterais são indispensáveis à “ocupação de espaço de influência a favor do Brasil”.

Nenhuma dessas atribuições consta da lista de tarefas que Bolsonaro-­filho se diz apto a exercer em nome do Brasil.

Publicado em VEJA de 31 de julho de 2019, edição nº 2645

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  1. Paulo Bandarra

    Precisa lá de pessoas que não achem que um cabo e um soldado vá resolver.

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