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A segurança domina a cena

O debate sério enfraquece o discurso tosco de Bolsonaro

Nos últimos tempos várias coisas têm acontecido pela primeira vez no Brasil: presidente denunciado com sigilo bancário quebrado, ex-presidente quase preso, muita gente do primeiro escalão do colarinho-branco na cadeia, ações efetivas da Justiça e da polícia em volume notável, enfim, uma série de inovações entre as quais se inclui a intervenção na segurança pública do Rio de Janeiro.

Até a decisão federal de intervir no apodrecido setor, a corrupção tinha tudo para dominar a cena na campanha eleitoral. Com alguma dificuldade por parte dos políticos de encaminhar o debate, em função da quantidade e amplitude partidária de excelências direta ou indiretamente envolvidas nas investigações de falcatruas, mas todos obrigados a se posicionar.

Não era e continua não sendo possível evitar o tema abordado em eleições anteriores de modo oblíquo ou sob a égide do farisaísmo aplicado à casa do vizinho, se adversário. A depravação dos costumes no manejo de recursos públicos em conjugação com interesses privados terá cadeira cativa em cena, mas, ao que tudo indica, na condição de coa­dju­vante da questão do crime violento, que tanta insegurança impõe ao cotidiano dos cidadãos. Cariocas, paulistas, potiguares, capixabas, soteropolitanos, alagoanos, maranhenses, brasileiros.

A intervenção federal no Rio deu margem à interpretação de que a ideia do presidente Michel Temer era fazer da segurança uma plataforma de propaganda eleitoral. Pode até ter sido essa a intenção, embora não faça muito sentido um governante comprometer-se com assunto tão complicado e de resultados tão incertos, acreditando em benefícios certos.

Mais cômodo para ele teria sido fazer como os antecessores Fernando Henrique, Lula e Dilma. Dar uma enrolada com o anúncio de planos logo esquecidos quando passado o impacto de episódios socialmente comoventes e deixar a vida seguir sob a égide da justificativa de sempre: a função constitucional da segurança pública é dos estados. Sim, e daí? O Congresso faz emendas à Constituição mais a torto que a direito (foram mais de 100 desde 1988) e poderia muito bem fazer mais uma devolvendo a tarefa à União.

Mas isso dá um trabalho danado, que presidentes nos nossos moldes não querem ter. Portanto, não foi Temer quem escolheu a segurança, foi a insegurança nos píncaros que impôs sua agenda a Temer. E foi ótimo que assim ocorresse. Finalmente a tão relegada segurança pública conseguiu o indispensável protagonismo.

Os candidatos, a deputado, senador, governador e presidente, serão obrigados a entrar com seriedade no debate se não quiserem ser engolidos pela familiaridade do público com um assunto refratário a enganações por vasto e íntimo conhecimento de causa.

E o melhor de tudo fica agora para o fim: debates consistentes tendem a esvaziar o discurso tosco de Jair Bolsonaro, que defende o mata e arrebenta mas não põe a sociedade nem as autoridades de frente para as efetivas e reais necessidades indispensáveis ao combate ao crime, à defesa dos direitos e garantias do brasileiro comum.

Publicado em VEJA de 14 de março de 2018, edição nº 2573

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  1. Rosenildo Araujo de Souza

    Falar que o Bolsonaro não defende o direito do cidadão e muita mentira. Então os outros canditados defendem? A maioria deles só defende os direitos dos bandidos, os bandidos podem tudo e o cidadão nada?
    Por isso que vou voltar no Bolsonaro ele pensa diferente dos demais.

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  2. Rosenildo Araujo de Souza

    Falar que o Bolsonaro não defende o direito do cidadão e muita mentira. Então os outros canditados defendem? A maioria deles só defende os direitos dos bandidos.
    Os bandidos podem tudo e o cidadão nada?
    Por isso que vou votar no Bolsonaro ele pensa diferente dos demais.

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  3. José Borges

    “Qual é a pauta do ‘debate sério’? Soltar pombinhas brancas, mais postes, cantar Imagine…?” (Marisa Lobo)

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  4. Bolsonaro é apenas mais um imbecil, apenas mais um palhaço na política brasileira.

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  5. Antonio Faria

    Dora esqueceu que Bolsonaro não apresentou suas propostas, senão suas opiniões. Assim como sobre o tema da Educação, tem apresentado suas idéias superficiais deixando para um especialista que irá eleger para aprofundamentos. Recolha seus dentes afiados, Dora, quando apresentar seu Ministro, daí poderá escrever com alguma substância.

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  6. Antonio Faria

    Dora esqueceu que Bolsonaro não apresentou suas propostas, senão suas opiniões. Assim como sobre o tema da Educação, tem apresentado suas idéias superficiais deixando para um especialista que irá eleger para aprofundamentos. Recolha seus dentes afiados, Dora, quando apresentar seu Ministro, daí poderá escrever com alguma substância.

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  7. Luiz Chevelle

    Bolsonaro, a última esperança da Terra: The Omega Man.

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