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Por um prato de lentilhas

A superstição garante que comer lentilhas no Réveillon traz sorte. Portanto, caso não funcione desta vez, convém tentar no próximo ano

Se alguma superstição faz sentido no Réveillon é comer um prato de lentilhas na ceia da festa! Segundo a voz do povo, quem fizer isso terá boa sorte nos doze meses seguintes. Vem sendo assim desde que o general e ditador romano Júlio César (102-44 a.C.) fixou o Ano-Novo em 1º de janeiro, ao adotar o calendário solar dos egípcios.

Uma crença latina atribui aos grãos que aumentam de volume no cozimento a virtude de proporcionar dinheiro e felicidade quando saboreados no Réveillon. Mas nenhum amuleto gastronômico superaria a lentilha em eficiência. Particularmente, a crença na sua magia é forte em países como Itália e Brasil. Para começar, ela tem grãos pequenos e achatados que lembram moedinhas; depois, encontram respaldo bíblico.

No “Antigo Testamento”, Jacó compra do irmão gêmeo Esaú o direito de primogenitura, ou seja, de ser considerado o mais velho. Trocou-o por um prato de lentilhas (Gênesis 27:19-30). Os dois eram filhos de Isaac e Rebeca. Esaú, o preferido do pai, tinha vocação rural, era caçador. Como fora o primeiro a nascer, cabia-lhe o privilégio de suceder a Isaac como chefe da família e exercer autoridade patriarcal.

Jacó, o favorito da mãe, mostrava-se mais caseiro. Um dia, Esaú voltou faminto do campo e encontrou o irmão cozinhando lentilhas. “Dê-me dessa comida”, implorou ele. “Vende-me (então) o teu direito de primogênito e eu te darei um prato dela” respondeu Jacó. Esaú topou: “Estou morrendo de fome e não faço questão desse direito”. Jacó insistiu: “Jure”. Resposta de Esaú: “Juro”.

Jacó teve sorte na vida, tornou-se um homem rico e seus filhos deram origem aos troncos das 12 tribos de Israel. Tudo graças a um prato de lentilhas. Moral da história: um adversário esperto conhece os momentos de fraqueza do antagonista. Assim como fez Jacó a Esaú: oferecendo na ocasião certa aquilo que o outro precisa.

Esaú e Jacó - Gioacchino Assereto (1600-1649)

ESAÚ E JACÓ – O irmão comprando do outro o direito de primogenitura (Gioacchino Assereto. sec XVII/Galleria del Palazzo Bianco/Genova/Reprodução)

Machado de Assis (1839-1908), o grande autor brasileiro, inspirou-se no tema bíblico para escrever, em seu apogeu literário, o romance “Esaú e Jacó”. Narrado pelo Conselheiro Aires, conta a história de Pedro e Paulo, filhos gêmeos de Natividade e Agostinho Santos. Ao crescerem, os irmãos apresentam temperamentos opostos e se tornam rivais em tudo. Paulo se mostra impulsivo e arrebatado; Pedro, dissimulado e conservador.

Na idade adulta, separa-os a convicção política. Paulo é republicano; Pedro, monarquista. O romance transcorre na época da Proclamação da República. Entretanto, não estava em jogo o direito de progenitura, mas a paixão pela mesma mulher, Flora. Também não houve um prato de lentilhas no litígio familiar.

Diante do impasse, a moça fica indecisa sobre qual dos dois escolhe. Então, vai morar longe por algum tempo, a fim de pensar e decidir. Flora recebia as visitas de Pedro e Paulo, Ah, se algum deles tivesse um prato de lentilhas! Brincadeiras à parte com a trama de Machado de Assis, Flora acaba adoecendo e morrendo. A enfermidade fatal fez com que nenhum dos gêmeos conquistasse seu amor.

Segundo a Grande Enciclopedia Illustrata Della Gastronomia (Selezione dal Reader’s Digest, Milão, 2000), a lentilha é provavelmente o mais antigo grão cultivado pelo homem. Alimenta-nos desde o período Neolítico ou Período da Pedra Polida, quando começamos a nos sedentarizar e cultivar a terra, ou seja, entre 9.500 e 13.000 anos atrás. Foi plantada no Oriente Médio, na região correspondente à atual Síria setentrional.

Alastrou-se pelo Egito, onde enriqueceu a mesa dos faraós, alcançou a Índia, Pérsia, Grécia, Roma, a Europa do Sul e Central e o Norte da África. No Velho Continente, ganhou a reputação de comida de pobre. O poeta cômico helênico Aristófanes (450-385 a.C.) a colocou na boca de Crêmulo, personagem da sátira “Plutus”: “Quando ele era pobre, poderia devorar qualquer coisa; agora que é rico, não lhe apetecem as lentilhas”.

Seus grãos ascenderam socialmente no século XVIII, na França, quando a princesa polonesa Maria Leszczyńska, apreciadora de sopas, introduziu-a na cozinha do Palácio de Versalhes ao casar com o rei Luís XV. O alimento debutou em triunfo, servindo para diferentes receitas. Hoje, a pequenina e delicada lentilha verde de Puy desfruta da preferência dos grandes chefs franceses.

Como acontece com outras variedades prestigiadas – a lentilha do Egito, a de Villalba, a do Fucino, a de Castelluccio, a de Altamira e a de Mormanno, por exemplo –, batizadas em homenagem ao lugar de origem, o nome veio da comuna homônima, na região administrativa francesa da Aquitânia. Quanto à designação da família, seria romana. A palavra lentilha derivaria de Lentuli, importante clã latino; ou, então, de lente, a peça de vidro com duas faces, da qual pelo menos uma é curva, cuja forma igualmente a lembra.

Planta anual da família das leguminosas, da qual consumimos apenas as sementes, cujas cores variam do amarelo-esverdeado ao vermelho, do marrom ao preto, presta-se a uma infinidade de receitas. Além de servir para sopas e cremes, harmoniza-se magistralmente com a carne de porco, o toucinho e o cotechino, espécie de linguiça italiana. Vai bem em purês e saladas, antepastos, molhos e recheios de massas. Altamente nutritiva, fornece 336 calorias a cada 100 gramas, além de proteínas, fósforo, ferro e vitamina. Enfim, é riquíssima em fibras.

Quem comer lentilha no próximo Réveillon e não tiver sorte nos próximos doze meses, deve tentar fortuna novamente no ano que vem. Um dia dará certo. Como disse o espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616) na obra-prima “Dom Quixote de la Mancha”, um dos livros mais vendidos do mundo, “yo non creo en brujas, pero que las hay, las hay”.

Sopa de Lentilha com Alcachofrinha

Serve 4 porções

INGREDIENTES
.200g de lentilhas francesas du Puy
.1cenoura pequena
.1/2 folha de louro
.60 g de pancetta (toucinho italiano) picada
.100 ml de azeite extravirgem de oliva
.2 dentes de alho picados
.10 g de peperoncino picado (ou pimenta-cumari)
.30 g de salsinha picada
.100 g de alcachofrinhas limpas em rodelas
.500 ml de caldo de frango
.1 bouquet garni (amarrado de salsinha, tomilho, louro, alho poró, salsão)
.4 pontas de aspargo verde cortadas no sentido do comprimento
.1tomate sem pele cortado em brunoise (pequenos cubos)
.Sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto

PREPARO
1.Cozinhe a lentilha em água, com a cenoura e o louro.
2. Separadamente, refogue a pancetta no azeite, até dourar.
3. Acrescente o alho picado, o peperoncino e a salsinha.
4. Junte os grãos de lentilha, a cenoura cortada em cubos, as alcachofrinhas e refogue por 3 minutos.
5. Incorpore o caldo de frango, o bouquet garni e deixe no fogo baixo por mais alguns minutos, para os sabores se mesclarem.
6. Coloque as pontas de aspargos e o tomate. Ajuste o sal, a pimenta, cozinhe por mais 3 minutos, aproximadamente, e retire o bouquet garni.
7. Sirva quente, em pratos fundos.

Receita do chef Paulo Barros, da Modern Mamma Osteria, de São Paulo, SP.

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