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O tango número um

Os uruguaios comemoram o centenário do lançamento de “La Cumparsita” e aproveitam para reiterar que Carlos Gardel nasceu no seu país

Por J.A. Dias Lopes Atualizado em 30 jul 2020, 20h56 - Publicado em 24 abr 2017, 10h39

Os uruguaios festejam em 2017 o centenário da primeira apresentação de “La Cumparsita”, o tango mais famoso do mundo e uma das composições mais tocadas internacionalmente, junto com a brasileira “Garota de Ipanema”. É também a que teve maior número de versões em todos os tempos – há mais de quinhentas. As letras igualmente variam. A melodia foi composta pelo uruguaio Gerardo Hernán “Becho” Matos Rodríguez, na época um jovem universitário.

Seu lançamento ocorreu a 19 de abril de 1917, pelas mãos do grande pianista argentino Roberto Firpo, que se apresentava no Gran Café y Confiteria La Giralda, situada na esquina da Avenida 18 de Julio com Plaza Independencia, em Montevidéu.  Os aplausos da platéia o fizeram repetir três vezes a interpretação. A letra de “La Cumpasita” mais cantada atualmente foi acrescentada posteriormente, por outro argentino, o músico e letrista Pascual Contursi, autor do tango “Bandoneón Arrabalero”, igualmente clássico.

LA CUMPARSITA - CARLOS GARDEL
Carlos Gardel: o grande cantor de tango difundiu internacionalmente “La Cumparsita” Foto/Divulgação

“La Cumparsita” desperta o orgulho cívico do Uruguai. Em 1998, seu presidente Julio María Sanguinetti sancionou uma lei que a tornou Hino Cultural e Popular do país. Havia um recado embutido na homenagem. Corre mundo afora que os argentinos são os inventores do tango – gênero musical de compasso binário, andamento moderado e ritmo sincopado, capaz de virar ballet clássico quando dançado figurado e a dois.

Mas os uruguaios querem dividir com os vizinhos de região continental sua paternidade, até porque compuseram o número um. Na abertura da Olimpíada de Sydney, em 2000, a delegação argentina desfilou ao som de “La Cumparsita”. O governo uruguaio protestou imediatamente.

Sua posição tem sido inabalável. “O tango é  um gênero musical nascido em ambas as margens do Rio da Prata (nos portos de Montevidéu e Buenos Aires), na segunda metade do século 19”, sustentou recentemente um documento do governo uruguaio. “É música originária de imigrantes que chegaram às nossas terras, reflexo da idiossincrasia da cidadania que se ia forjando”.

Um dos melhores cantores de tango era uruguaio. Chamava-se Julio Sousa (1926-1964) e nasceu na cidade de Las Piedras, no departamento de Canelones. Notabilizou-se por interpretar, entre outros sucessos, “Cambalache”, “Mano a Mano” e, evidentemente, “La Cumparsita”. Pela voz grave e máscula, ganhou o apelido de El Varón del Tango. Outro gigante do tango foi o violinista e diretor de orquestra Francisco Canaro, o Pirincho (1888-1964), natural da cidade de San José de Mayo, capital do departamento de San José.

Os uruguaios completam o trio de ouro dos seus patrícios no tango com o genial cantor, compositor e ator de cinema Carlos Gardel, que garantem ser natural de Tacuarembó, embora os argentinos o afirmem francês. Com uma voz que combinava beleza, timbre exclusivo, sentimento e grande capacidade dramática, Carlitos, El Rey del Tango ou El Zorzal Criollo, como o apelidavam, difundiu internacionalmente “La Cumparsita”.

Eis uma dupla de temas que assanha e divide as duas grandes nações sul-americanas mais do que as águas do Rio da Prata. Onde surgiu o tango? Os uruguaios estão seguros do seu ponto de vista. Foi nos dois países, embora os argentinos sejam mais prolíferos em composições, cantores e instrumentistas de um gênero musical só apreciado no início pelos trabalhadores portuários e marinheiros que chegavam e partiam.

Considerado marginal, era tocado nos bordéis de Montevidéu e Buenos Aires. As únicas mulheres que o dançavam eram as prostitutas. Esse fato deu ao bailado um estilo abertamente sensual, caracterizado pelo ousado contato corporal.

Os uruguaios também podem ter razão quanto a Gardel. Afirmam que o cantor veio ao mundo no norte do seu país. Seria filho do relacionamento extraconjugal entre o líder político Carlos Escayola e Maria Lelia Oliva, uma adolescente de 13 anos. Logo após o nascimento de Gardel, em Tacuarembó, a mãe biológica o entregou a Berta Gardes, uma francesa que se prostituía na mina de ouro próxima.

Com o garoto ainda pequeno, a mulher voltou para o país natal, onde o registrou em Toulouse com o nome de Charles Romuald Gardes. Pouco tempo depois, os dois voltaram à América do Sul, instalando-se na zona boemia de Buenos Aires. Gardel era criança. Na capital portenha aprendeu a cantar tango e passou a juventude.

Os argentinos, que lhe concederam a nacionalidade em 1923, afirmam-no filho biológico de Berta Gardes e de pai ignorado. Mãe e filho teriam desembarcado em Buenos Aires no ano de 1893. Como prova, exibem a certidão de nascimento de Gardel, em Toulouse. Carlitos evitava falar no assunto e, quando indagado, respondia: “Nasci em Buenos Aires aos dois anos e meio de idade”.

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O fato é que Gardel viveu sentimentalmente ligado à capital portenha, a ponto de ter composto para ela o tango antológioco “Mi Buenos Aires Querido”. Ali se revelou boêmio, mulherengo e comilão, a ponto de andar sempre em litígio com a balança. Chegou a pesar 118 quilos. Voltou à forma através de dieta severa, ginástica sueca e corridas no Parque de Palermo, da capital argentina.

Era eclético à mesa. Nos restaurantes que frequentava em Buenos Aires pedia tanto puchero (o cozido argentino), como marisco ao vinagrete, lagosta grelhada, vol-au-vent de champignons, pato prensado ao molho de laranja e faisão ao calvados. Mas não escondia o apreço pela comida italiana. Bebia champagne, fumava muito – sua estátua de bronze, no cemitério La Chacarita, em Buenos Aires, apresenta-o com um cigarro na mão – e adorava corrida de cavalos.

Em Nova York, no ano de 1934, durante a filmagem de “El Día Que Me Quieras”, inspirado na composição homônima, comia spaghetti con salsa di pomodoro feito pela italiana Asunta Manetti, mãe de um coadjuvante, o promissor bandoneonista Astor Piazzolla. Após a refeição, o filho, que ainda não se dedicava integralmente ao tango, tocava músicas eruditas.

Uma vez, tentando acompanhar Gardel, ouviu do grande cantor uma crítica desestimulante: “Garoto, tocando bandoneon és um fenômeno, mas no tango és um galego”. Não seria a única diferença com Piazzolla. Enquando Gardel amava “La Cumparsita”, o autor de “Libertango” e “Adiós Nonino” parecia  detestá-lo. “É um dos piores e mais pobres tangos do mundo”, teria disparado Piazzola.

SALSA DI POMODORO

Ingredientes

  • 3kg de tomates bem maduros
  • 1 cebola
  • 1 cenoura
  • 4 talos de salsão
  • Sal
  • 2 colheres (sopa) de açúcar (se necessário)

Preparo

1. Corte os tomates em quatro, com a casca e sementes, e pique grosseiramente a cebola, a cenoura e o salsão.

2. Coloque tudo em uma panela grande e leve ao fogo alto até ferver. Diminua a chama e deixe cozinhar por uma hora.

3. Na metade do tempo, ajuste o sal e, se o molho estiver ácido, junte o açúcar.

4. Retire do fogo e bata tudo no liquidificador, até se formar um molho homogêneo.

5. Passe na peneira fina e volte ao fogo, cozinhando por mais 20 ou 30 minutos, até o molho adquirir cionsistência densa.

Receita do chef Sergio Arno, de São Paulo, SP

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