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Bacalhau à Madre Paula

A receita portuguesa que homenageia a amante de D. João V, avô de D. João VI e bisavô de D. Pedro I, imperador do Brasil

Há uma receita portuguesa de bacalhau cuja irreverência não está no nome, mas na inspiração. É a que homenageia a soror (tratamento dado na época às freiras) Paula Teresa da Silva (1701-1768), mais conhecida por Madre Paula, pois alcançou essa dignidade. Ainda adolescente, foi despachada pelo pai ao Mosteiro de Odivelas, a 15 quilômetros de Lisboa, controlado pela Ordem das Bernardas de Cister. Ali se converteu na mais famosa das amantes do mulherengo D. João V (1689-1750), o rei de Portugal cujas aventuras amorosas são bastante conhecidas dos historiadores. O soberano era avô de D. João VI e bisavô de D. Pedro I, imperador do Brasil.

Referimo-nos ao Bacalhau à Madre Paula. A receita, porém, não parece ter surgido na época em que a religiosa viveu, mas posteriormente. “Talvez seja uma homenagem à Madre Paula quando começou a moda das receitas conventuais sobre as quais muito se continua a inventar”, conclui o escritor gastronômico transmontano Virgílio Nogueiro Gomes. “Um motivo para essa suspeita é o fato de levar batata, ingrediente originário da América que ainda não era de uso corrente em Portugal”.

Madre Paula ingressou no Mosteiro de Odivelas junto com as duas irmãs, nenhuma com vocação religiosa. O motivo seria o mesmo que internou outras moças de então, em diferentes instituições católicas. Os pais se livravam das filhas namoradeiras, cujo assanhamento não conseguiam controlar; ou, então, que haviam dado “um mau passo na vida”, como se dizia. No caso de Madre Paula, pesou o fato de seu pai não dispor de recursos para dar-lhe uma boa educação, nem oferecer dote para o casamento.

Apesar da grande tradição, pois foi fundado em 1295 pelo rei D. Dinis, como pagamento de uma promessa, o Mosteiro de Odivelas deixara de ser modelo de virtudes. Povoado por moças de comportamento incorrigível, virara um local de desregramento moral. Ali e em outras comunidades religiosas de Portugal, as superioras tentavam controlar as moças, mas esbarravam na resistência dos frequentadores masculinos do lugar, nobres, aristocratas, poetas e músicos, que tiravam proveito da licenciosidade. Mesmo assim, na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, há uma relação de 20 freiras condenadas por “delitos amorosos” na primeira metade do século XVIII.

Os homens apareciam no Mosteiro de Odivelas a pretexto de assistir os festejos, sobretudo os animados outeiros, reuniões culturais em que versejadores glosavam para a plateia os motes dados pelas freiras. “Então, os vates desferiam rajadas poéticas, enxameando os mosteiros de paixões”, escreveu César Príncipe, no livro “Ementas do Paraíso” (Campo das Letras, Porto, 2005). “As rimas dos galãs eram pagas com vinhos & licores, doces & olhares concupiscentes. Amiúde as irmãs se deixavam enlear, perdendo a compostura, entregando-se a desvarios pelas muitas penumbras conventuais”.

João V esteve em Odivelas na festa do Desagravo do Santíssimo Sacramento, realizada a 11 de maio de 1718; e na tourada comemorativa ao casamento de um nobre, a 23 de outubro. Em uma dessas ocasiões conheceu Madre Paula, de quem não foi o primeiro amante. Desde que fez os votos de noviça, ela mantinha um relacionamento com D. Francisco de Paula de Portugal e Castro (1679-1749), 8º Conde de Vimioso.

Apaixonado pela jovem religiosa, o soberano absolutista que governou Portugal por 44 anos, em um dos períodos mais ricos do país, graças ao ouro e às pedras preciosas chegadas do Brasil, precisou se entender com o rival. “Reza a tradição, mais lendária que histórica, que o rei (…) enamorado de Paula Silva à primeira vista (…) teria dito ao conde de Vimioso que lhe dava duas freiras à escolha se ele deixasse o objeto do seu desejo”, contam Paula Lourenço, Ana Cristina Pereira e Joana Troni, no livro “Amantes dos Reis de Portugal” (A Esfera dos Livros, Lisboa, 2008). D. José, filho da freira e do rei, nasceu em 1720 e se deu bem na vida. Exerceu o poderoso cargo de Inquisidor-Mor do Reino.

A licenciosidade rendia às noviças e freiras valiosas tenças (pensões), bens e privilégios. Tanto que Madre Paula se tornou uma mulher riquíssima. As várias tenças recebidas por ordem de D. João V  totalizaram um rendimento anual de 1.708 mil réis,  uma fortuna na época. Toda a sua família se beneficiou da generosidade do rei. O pai de Madre Paula virou cavaleiro professo da Ordem de Cristo, altíssima honraria.

Para os encontros com a amada, o rei mandou construir uma luxuosa casa perto do convento, a  Torre da Madre Paula, demolida em 1948 devido ao perigo de desabamento. Os tetos eram em talha dourada, as portas e o chão em madeira do Brasil, os vidros vieram da Boêmia, as paredes exibiam azulejos policromados com lindas figuras e paisagens, as cortinas tinham bordados de ouro, as camas em dossel eram rodeadas por veludos vermelhos, havia também uma banheira de prata maciça “dourada por dentro e por fora”  etc. Madre Paula passou a morar na casa com as duas irmãs freiras, servidas por nove criadas.

Odivelas também se destacava pela arte culinária, especialmente pela doçaria, como tantos mosteiros femininos lusitanos. Noviças e freiras preparavam fatias de amêndoa, filhoses, ovos moles, manjar branco, pão de ló pasteis de nata, papos de anjo, pêssegos em calda, queijadas, sequilhos, toucinho do céu, tigelada de queijo etc. Os pratos de sal eram, por exemplo, coelho real, lebre assada e peru corado.

Essas delícias foram publicadas no “Livro de Receitas da Última Freira de Odivelas” (Editorial Verbo, Lisboa, 1999), organizado por Maria Isabel de Vasconcelos Cabral. A religiosa a que se refere era Carolina Augusta de Castro e Silva e faleceu em 1909, deixando um importante caderno de cozinha. Depurados os escândalos do passado, o Mosteiro de Odivelas voltou a ser uma trincheira da espiritualidade católica.

Como D. João V também revelava grande apetite à mesa, Madre Paula recebia o amante com doces, entre os quais os “quadrados de pudim”, de sua autoria. Levavam marmelo e tinham consistência delicada, porém pastosa. Na prática, tratavam-se de quadradinhos de marmelada branca (a cor depende do tempo de cozedura). Hoje, o doce virou atração turística.

Os turistas aparecem para saboreá-lo – há diferentes fabricantes – e visitar o histórico mosteiro, cujo estilo combina os elementos góticos da edificação original com características manuelinas, barrocas e neoclássicas. A marmelada branca foi registrada pelo município de Odivelas como marca coletiva, além de organizar anualmente um festival para promovê-la.

Por mais irreverente que pareça, uma das imagens conhecidas de Madre Paula aparece no quadro “Madre Deus”, pintado pela Escola Portuguesa, do século XVIII. Retrata-a no lugar da Virgem Maria; D. João V, ao lado, representa São José; o filho de ambos D. José, deitado no leito, é o Menino Jesus, que aparece dormindo no meio de dois anjos. Pertence ao acervo do Palácio do Correio Velho, de Lisboa.

RECEITA

BACALHAU À MADRE PAULA

Rende 6 porções

INGREDIENTES

.6 postas altas de bacalhau (prefira o lombo)

.1 kg de batatas com casca

.200 ml de azeite de oliva

.2 cebolas grandes picadas

.2 colheres (chá) de colorau

.7 dentes de alho picados

.Salsinha picada a gosto

.Sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto

 

DECORAÇÃO

.Fatias de tomate

.Folhas de salsinha

.Grãos de pimenta-do-reino preta moídos  grosseiramente

PREPARO

  1. Lave o bacalhau em água corrente e deixe-o de molho na geladeira por cerca de 36 a 48 horas, trocando a água seguidamente. Escorra-o e retire as espinhas.
  2. Cozinhe as batatas com casca, descasque-as  e corte-as em rodelas.
  3. Asse as postas de bacalhau em uma grelha. Na metade do cozimento, mergulhe-as em água fria, sacuda-as delicadamente para escorrer a água  e leve-as novamente à grelha, assando-as dos dois lados.
  4. Depois de prontas, corte-as em lascas grossas e passe-as para uma travessa ou para os pratos,  intercalando-as com as batatas.
  5. Em uma panela, leve ao fogo o azeite de oliva com a cebola picada. Refogue a cebola sem deixar dourar, junte o colorau, o alho, a salsinha e a pimenta. Polvilhe sal, se necessário.
  6. Deixe ferver por alguns minutos e coloque esse preparado sobre o bacalhau.
  7. Decore com algumas rodelas de tomate, com a salsinha e a pimenta. Sirva em seguida.
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  1. Milton Ferro

    “Tratava -se de quadradinhos…”
    Quando o verbo é transitivo indireto, fica no singular, pois, no caso, “quadradinhos…” é objeto indireto, e não sujeito.

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