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Adorável vagabundo

O mundo não esquece do filme no qual Charles Chaplin, no papel de Carlitos, comeu os cadarços das botinas simulando ser spaghetti

Passaram-se quase desapercebidos os quarenta anos da morte do britânico Charles Chaplin (1889-1977), genial diretor, produtor, roteirista, ator, dançarino, humorista e empresário do cinema, além de compositor e escritor. Pela sua contribuição ao cinema e a importância da obra deixada, ele merecia mais lembrança. Qual a razão de uma evocação esmaecida? Terá sido porque os quarenta anos caíram em 25 de dezembro e havia um aniversariante infinitamente mais importante no dia?

Dominando a arte da mímica, da expressão corporal, desempenhando o papel do vagabundo Carlitos, Charlot ou Carlito (como o chamavam nossos avós brasileiros), Chaplin foi um dos construtores da arte e da técnica do cinema. Apresentou-se em 81 filmes curtos e longos, que combinaram humor e drama. O primeiro foi em 1914; o último é de 1967.

Usando chapéu-coco, calças bufantes e sapatos rotos maiores do que o necessário, empunhando    uma bengala, tendo um bigodinho preto e  o coração mole de criança, ele personificou um impagável vagabundo. Nesse papel, viveu situações tragicômicas que divertiram e emocionaram milhões de pessoas pelo mundo.

O diretor, produtor e ator que encarnou Carlitos nasceu em Londres, onde passou a infância nas ruas boêmias e sujas de Kennington Road. Esse período marcante contribuiu para desenvolver sua ideologia vagamente socialista. O adorável vagabundo Carlitos não ligava para nada, inclusive para a comida, exceto quando necessitava matar a fome. Aí, virava-se como podia. Na comédia “Em Busca do Ouro” (“The Gold Rush”, 1925), entretanto, teve a refeição mais engraçada da história do cinema.

O filme gira em torno da Corrida do Ouro do Rio Klondike, iniciada em 1896 na gelada e hostil região de Yukon, ao noroeste do Canadá e a leste da fronteira com o Alasca. Carlitos é um dos milhares de forasteiros que tentaram a sorte como garimpeiro. Para rodar o filme, Chaplin se inspirou em reportagem sobre a Corrida do Ouro,  que leu fascinado. Descrevia a aventura arriscadíssima das cerca de 100 mil pessoas que escalaram a montanha coberta de neve, enfrentando o frio e a fome, cobiçando riqueza. Chaplin reproduziu essa imagem monumental na abertura da fita, com uma legião de 600 extras. O filme foi rodado na Serra Nevada, cordilheira entre a parte oriental da Califórnia e o vizinho estado de Nevada; e em Hollywood, distrito da cidade de Los Angeles.

O talento de Chaplin se manifesa   espetacularmente na sequência em que Carlitos, enfrentando a hostilidade da natureza, encontra refúgio em uma cabana na montanha. Passa a dividir a precária habitação com outro aventureiro, o grandalhão Jim McKay, conhecido como Big Jim, vivido pelo ator Mack Swain. As barrigas de ambos roncavam, sem ter nada que pudesse apaziguá-las. Então, Carlitos retirou a botina preta do pé, enfiou na panela e levou ao fogo.

Depois, colocou-a no prato, tendo o cuidado de acrescentar, com uma concha, o “caldo” do cozimento. Dividiu a botina em porções. A parte que cobria o alto do pé e o tornozelo ficou com Big Jim; a sola repleta de pregos coube a Carlitos. O mesmo acontece com o cadarço, que o vagabundo e aventureiro dispõe em um pratinho. Na imaginação de Carlitos, aquele cordão surrado se converte em saboroso spaghetti, que ele enrola com o garfo e leva à boca.

Acossado pelo estômago, chupa prazerosamente os pregos, como se fossem iguarias. Big Jim, sem a igual elegância, faz o mesmo com a porção que lhe cabe. Mas segue cutucado pela fome. Então, Carlitos propõe cozinhar a outra botina, porém Big Jim recusa, sendo logo acometido de uma perigosa alucinação. Enxerga Carlitos como uma gorda e apetitosa galinha carijó. Tenta caçá-la para comer, mas não consegue.

A cena foi inspirada na notícia, também lida por Chaplin, a respeito das agruras de um grupo de aventureiros que se viu obrigado a comer os sapatos, roupas e cadáveres de amigos na aventura da Serra Nevada. Impressiona a sincronia dos movimentos do frango e de Carlitos quando volta a aparecer na forma humana – ele mesmo se vestiu de galinha. Outra sequência sensacional é a cena de suspense na qual a cabana desliza no gelo e fica dependurada no penhasco, cai-não-cai.

Na prática, Carlitos e Big Jim foram filmados comendo de verdade a botina e seus cadarços. Repetiram a cena várias vezes, até a perfeição. A botina e os cadarços não eram de couro e tecido. O grande diretor, produtor e ator encomendou duas dúzias de sapatos comestíveis, rigorosamente idênticos. Foram moldados por um confeiteiro italiano, que usou ingredientes do seu ofício. Em vez de couro e tecido, misturou xarope de alcaçuz ou liquirizia, arbusto da família das leguminosas; mais açúcar e a resina natural de acácia. Um ator do filme provou e garantiu que botinas e cadarços estavam “uma delícia”.

A fim de alimentar centenas de extras, Chaplin mandou instalar uma cozinha atrás das câmeras, ou seja, junto às filmagens. O chef nascera igualmente na Itália. Ali, sim, comeu-se de verdade. O problema era muitas vezes se tratar de prato único. Mas essa monotonia não parece ter sido levada em conta. “A fome é a melhor cozinheira do mundo”, diz o provérbio. Certo, mas o prato também era delicioso e recebeu o nome de Spaghetti das Montanhas, a ponto de ser saboreado até pelos devoradores de falsas botinas.

RECEITA

SPAGHETTI DAS MONTANHAS

RENDE 4 PORÇÕES

INGREDIENTES

.100g de manteiga

.1 cebola grande bem picada

.4 tomates grandes e maduros, sem pele, bem picados

.1 colher (sopa) de alfavaca em pó

.1/2 colher (chá) de orégano

.200g de spaghetti

.4 ovos ligeiramente batidos e temperados com sal e pimenta

.200g de queijo ralado

.Sal e pimenta-do-reino moída a gosto

PREPARO

1.Leve ao fogo médio uma panela grande, de preferência de barro. Quando estiver quente, coloque a manteiga.

2.Junte a cebola e misture bem, até dourar. Adicione os tomates e tempere com a alfavaca, o orégano, o sal e a pimenta-do-reino. Misture bem e deixe por alguns minutos no fogo, para os temperos se mesclarem.

3.Cozinhe a massa em abundante água fervente com sal, mexendo de vez em quando com um garfo grande . Escorra quando estiver al dente.

4.Junte a massa à panela com o molho quente (fora do fogo) e, com o garfo, misture rapidamente.

5.Incorpore os ovos previamente batidos e temperados com sal e pimenta. Misture mais uma vez, delicadamente, para que cozinhem por igual, no calor da massa.

6.Polvilhe com o queijo ralado e sirva imediatamente.

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