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A grande cortesã

Mulheres como La Belle Otéro eram prostitutas diferenciadas em Paris:  tinham classe e educação, interessavam-se pelas artes e não frequentavam bordéis

Os franceses relembram em 2018 o sesquicentenário de nascimento da grande cortesã La Belle Otéro, nome artístico de Agustina Otéro Iglesias (1868-1965). Embora não fosse sua conterrânea, pois veio ao mundo em uma aldeia galega, ou seja, na Espanha, celebrizou-se em Paris. Além de cortesã, era bailarina profissional, cantava bem e trabalhou como atriz.

Depois de uma tournée triunfal nos Estados Unidos, ela voltou a Paris e se especializou em papéis de bela estrangeira no Folies Bergère, o cabaré que esteve no ápice da fama e da popularidade entre as décadas de 1890 e 1920. Exibia-se vestida suntuosamente, com lindos colares de pérolas e diamantes que destacavam os seios parcialmente expostos.

Há vários cartazes fazendo propaganda dos seus espetáculos, cujos originais são disputados por colecionadores. Em agosto de 1898, quando dançava na cidade russa de São Petersburgo, La Belle Otéro se tornou a primeira estrela do cinema ao ser filmada por um minuto pelo operador Félix Mesguich, que trabalhava para os irmãos franceses Auguste e Louis Lumière, pioneiros da imagem em movimento.

Entre outros lugares elegantes, frequentava assiduamente o famoso Maxim’s, de Paris, epicentro cintilante da Belle Époque – o período de exuberância, requinte, graça e cultura iniciado em 1890, em consequência do progresso industrial, e encerrado em 1914, com a deflagração da Primeira Guerra Mundial. O restaurante grã-fino da rue Royale 3, era o point.

Abria o salão às 17 horas, para os aperitivos; servia o jantar das 20 às 22 horas; a ceia ia até a madrugada. O Maxim’s atraía milionários nobres e plebeus, que beber e comer bem, entabular romances com as cortesãs e dilapidar fortunas com as mais lindas mulheres disponíveis da cidade. Falsos nobres também apareciam.

Néstor Lujan, no livro “Historia de la Gastronomía” (Ediciones Folio, Barcelona, 1997), conta que o Marquês de Castellane, francês conhecido como “líder da beleza” na Belle Époque e primeiro marido da herdeira americana Anna Gould, desmascarou um desses impostores, disparando a frase fulminante: “Quando você morrer, enviarei uma coroa, e essa será, querido, a verdadeira…”.

A mais  fulgurante cortesã do Maxim’s era La Belle Otéro, apreciadora de champagne e de pratos requintados, como os Filets de Sole (linguado) Otéro, cuja receita o genial chef Auguste Escoffier incluiu no seu “Le Guide Culinaire”, de 1903, o livro mais importante da culinária da Belle Époque. Chegava tão carregada de joias ao restaurante que, diziam as más línguas, “precisava apoiar-se nas mesas para caminhar”.

Ela adorava o luxo, a malícia e obviamente a licenciosidade. Posou para uma foto julgada ousadíssima, na qual abre a saia fendida para mostrar a cinta-liga que prendia as meias. O queixo está erguido e o sorriso maroto.  Gostava de ser fotografada por Jean Reutlinger, um talentoso profissional que morreu no campo de batalha, durante a Primeira Guerra Mundial, aos 23 anos de idade.

A cinta-liga havia sido incrustada de pedras preciosas pela famosa casa Boucheron, onde os nobres e os ricos do mundo inteiro compravam joias: a Família Real Inglesa, o Czar Alexandre III, as dinastias americanas dos Astors, Vanderbilts,  Rockefellers e Goulds, as atrizes Sarah Bernhardt, Greta Garbo, Rita Hayworth, Marlene Dietrich, os escritores Marcel Proust e Oscar Wilde.

Em duas décadas e meia, La Belle Otéro faturou o equivalente a 15 milhões de euros. Como conseguiu tanto dinheiro? Cobrando muito alto dos clientes apaixonados, a ponto de provocar vários duelos e seis suicídios. A lista era enorme, incluía seis soberanos: Afonso XIII da Espanha, Alberto I de Mônaco, ao então futuro rei Eduardo VII da Inglaterra, a Guilherme II da Alemanha, a Leopoldo II da Bélgica e a Nicolau II da Rússia.

Seguem-se, não necessariamente nesta ordem, o industrial Jules-Albert de Dion, pioneiro da indústria automobilística francesa, o multimilionário americano Joseph Patrick Kennedy (pai do presidente John) e, segundo os mexericos, o pintor francês Pierre-Auguste Renoir, o escritor italiano Gabriele D’Annunzio e o poeta cubano José Martí.

As cortesãs eram prostitutas de alto luxo na cidade de Paris da Belle Époque. Tinham que ser necessariamente bonitas e poliglotas, esbanjar classe e educação, interessar-se pela dança, música e gostar de artes plásticas, ler romances ou poesias da moda, ir ao teatro, trabalhar em casa própria luxuosa e jamais frequentar de bordel, pois isso as desvalorizaria.

Cartaz anunciando o show de La Belle Otéro no Folies Bergère, o cabaré que estava no auge da fama e da popularidade em Paris (Wikimedia Commons/Reprodução) ((Foto de Jean Reutlinger/Wikimedia Commons/Reprodução)/VEJA)

Deviam usar roupas da moda, perfumes exclusivos e joias verdadeiras, beber champagne, frequentar os melhores restaurantes, saber pedir os pratos, comportar-se de modo clássico à mesa e ter uma segunda profissão, “honesta e bem-comportada”, como se falava, geralmente a de dançarina, cantora ou atriz. Com tais atributos, muitas conquistaram  fortunas de um dia para o outro, como se acertassem na mega-sena.

Além de dinheiro, La Belle Otéro recebia presentes raros. Nicolau II dava-lhe uma joia da Boucheron a cada encontro. De Dion ofereceu-lhe seu último modelo de automóvel; Renoir, um retrato; Jose Martín um poema. A grande cortesã se aposentou em 1914, aos 46 anos de idade. “Mesmo com a aparência mudada, mais velha, ainda fazia as cabeças (dos homens) se virarem ao entrar numa sala”, descreve Susan Griffin, na obra “O Livro das Cortesãs: um Catálogo das Suas Virtudes” (Rocco, Rio de Janeiro, 2003). Mas havia cansado da vida que levava.

Filha de uma camponesa solteira, que se prostituía para pagar a comida de casa, a menina galega pobre, que começou a trabalhar na infância como empregada doméstica, foi estuprada aos onze anos por um sapateiro. Aos catorze fugiu para Portugal, onde se incorporou a uma companhia de cômicos ambulantes. Com o sucesso como cortesã, adquiriu propriedades em toda a França. Incluíam um iate e um colar de pérolas negras que pesava dois quilos, de valor incalculável.

Viciada em jogo, torrou todo o patrimônio nos cassinos. Quase acabou na mais completa miséria. Isso só não aconteceu porque, nos últimos anos, morou em um quarto de hotel da cidade francesa de Nice, onde morreu aos 97 anos de idade. Pagava a hospedagem com a pensão recebida dos donos dos cassinos nos quais desperdiçou o dinheiro. Teve um começo e um final de vida infelizes.

FILETS DE SOLE (LINGUADO) OTÉRO

RENDE 6 PORÇÕES

INGREDIENTES

6 batatas grandes com casca

6 filés de linguado

1/2 cebola picada

2 colheres (sopa) de salsinha picada

1 xícara (chá) de vinho branco

1 xícara (chá) de caldo de peixe

200g de pequenos camarões em dados

300ml de béchamel (molho branco, à base de manteiga, farinha de trigo e leite)

Sal e grãos de pimenta a gosto

Manteiga para untar e regar

PREPARO

1.Cozinhe as batatas com casca por  cerca de 7 minutos. Escorra e termine o cozimento no forno. 2.Faça uma abertura nas batatas, no sentido do comprimento e, com uma colherinha abra uma concavidade, retirando parte da  polpa. Reserve.

3.Coloque os filés de linguado numa caçarola com a cebola, a salsinha e alguns grãos de pimenta. Banhe com o vinho, o caldo de peixe e ajuste o sal. Cozinhe em fogo brando por cerca de 20 a 30 minutos.

4.Misture os camarões com parte do molho béchamel e, com essa mistura, recheie as batatas até um centímetro da borda. Passe-as para um refratário untado com manteiga e apoie sobre cada batata um filé de linguado dobrado.

5.Finalize colocando o molho restante e regue com um pouco de manteiga quente. Leve ao forno alto, por alguns minutos, para dourar.

Sirva imediatamente.

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