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Diário de um Escritor Por Flávio Ricardo Vassoler Um olhar para o cotidiano histórico e cultural da Rússia - mas muito além do futebol

Lições de filosofia da história segundo Putin e Machado de Assis

Um caminho que leva a Samara, a cidade que teria se tornado a capital da União Soviética, caso Moscou tivesse caído nas garras dos piratas nazistas

Por Flávio Ricardo Vassoler - Atualizado em 1 jul 2018, 12h19 - Publicado em 1 jul 2018, 07h00

Samara, 01 de julho de 2018

Para a União Soviética, não houve a Segunda Guerra Mundial, mas a Великая Отечественная Bойна (Velikaia Otetchestvennaia Voiná), a Grande Guerra Patriótica (1941-1945).

Em 1939, às vésperas da invasão nazista à Polônia, o III Reich e a URSS firmaram um pacto de não-agressão que recebeu o nome de seus mediadores e respectivos ministros das relações exteriores: Joachim von Ribbentrop (1893-1946) e Viatcheslav Mikháilovitch Mólotov (1890-1986). Além de estabelecer um período de cinco anos de pax atomica entre a Alemanha nazista e a URSS, o pacto Ribbentrop-Mólotov acordou a cisão da Polônia entre as duas potências e selou o destino dos Países Bálticos – Lituânia, Letônia e Estônia – e da Finlândia. Ainda assim, dois anos após a assinatura do pacto, Hitler invadiria a União Soviética, no dia 22 de junho de 1941, e passaria a lutar nas frentes ocidental e oriental. [Quando da invasão nazista, o ditador soviético Ióssif Stálin (1878-1953) manda reabrir as igrejas que a Revolução Russa de 1917 interditara para conquistar o coração do povo em favor da defesa sagrada da pátria. Daí o pathos e o apelo profundíssimos da expressão Grande Guerra Patriótica.]

Além de dar sobrevida ao fortalecimento militar soviético, o pacto de não-agressão entre o III Reich e a URSS fez com que a Blitzkrieg nazista se irradiasse, por providenciais dois anos, contra a Europa Ocidental e, sobretudo, contra a Inglaterra.

A ofensiva nazista contra a União Soviética ficou conhecida como Operação Barbarossa, em alusão a Frederico Barba-Ruiva (1122-1190), o imperador do Sacro Império Romano-Germânico (1152-1190) que conseguiu impor sua autoridade sobre o papado e assegurou a influência alemã sobre a Europa Ocidental, fato que lhe trouxe a aura de precursor da unidade (e do espraiamento) do povo alemão.

Diante do desespero que tomava conta do povo e do governo soviéticos por causa da rápida metástase das tropas hitleristas pelo território da URSS, Stálin decide fazer um comunicado radiofônico encarecido que foi ao ar no dia 03 de julho de 1941. Eis aqui alguns trechos da fala de Stálin:

“A traiçoeira agressão militar da Alemanha hitlerista à nossa pátria, iniciada em 22 de junho, continua. Apesar da heroica resistência do Exército Vermelho; apesar de as melhores divisões e unidades de aviação inimigas já terem sido destruídas e já terem perecido nos campos de batalha, o inimigo avança em sua incursão, lançando ao front novas forças.

“As tropas hitleristas conseguiram tomar a Lituânia e uma parte significativa da Letônia, o oeste da Bielorrússia e parte do oeste da Ucrânia. A aviação fascista está ampliando as áreas de operação de seus bombardeiros, submetendo a seu fogo Murmansk, Orcha, Magiliou, Smolensk, Kiev, Odessa, Sevastopol. Nossa pátria está correndo um sério perigo.

“Como pôde nosso glorioso Exército Vermelho ter cedido às tropas fascistas tantas cidades e distritos nossos? Será que as tropas fascistas alemãs são realmente um exército invencível, como apregoa sem descanso a vaidosa propaganda fascista?

“É claro que não!

“A história ensina que não há e nunca houve exércitos invencíveis. O exército de Napoleão [1769-1821] se reputava invencível, mas foi sucessivamente destruído por tropas russas, inglesas e alemãs.

“O exército alemão de Guilherme II [1859-1941], à época da Primeira Guerra imperialista [1914-1918], também se reputava invencível, mas foi várias vezes derrotado pelas tropas russas e anglo-francesas, até ser finalmente destruído por ingleses e franceses.

“Deve-se dizer hoje o mesmo sobre o exército fascista alemão de Hitler [1889-1945]. Esse exército ainda não havia encontrado séria resistência no continente europeu, e apenas em nosso território deparou com real oposição. E se, por conta dessa resistência, as melhores divisões do exército fascista alemão foram destruídas por nosso Exército Vermelho, significa que as tropas hitleristas também podem ser (e serão!) destruídas, assim como o foram os exércitos de Napoleão e de Guilherme II”.

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No dia 07 de novembro de 1941, por ocasião do 24º aniversário da Revolução Russa de 1917, Stálin pronuncia um discurso inflamado de sua tribuna à frente do Kremlin, no coração da Praça Vermelha. Eis alguns trechos de sua fala: 

“Devemos celebrar hoje, sob duras condições, o 24º aniversário da Grande Revolução Socialista de Outubro.

“Os bandidos alemães colocaram nosso país em risco ao nos imporem a guerra com sua pérfida agressão.

“Perdemos temporariamente algumas províncias, e o inimigo chegou às portas de Leningrado [São Petersburgo] e Moscou. Ele contava poder, logo ao primeiro golpe, debandar nosso exército e subjugar o país, mas se enganou profundamente.

“Apesar dos reveses passageiros, nosso exército e nossa marinha estão repelindo heroicamente os ataques do inimigo ao longo de todo o front, causando-lhe grandes perdas, e o nosso país – todo o país ‒ organizou-se num campo único para desbaratar, ao lado do exército e da marinha, os agressores alemães.

“Nosso país já esteve outrora numa situação ainda pior. Lembrem-se de que em 1918, quando celebrávamos o primeiro aniversário da Revolução de Outubro, três quartos do território se encontravam nas mãos dos invasores estrangeiros [durante a guerra civil que se seguiu à Revolução de 1917 e que durou até 1921]. A Ucrânia, o Cáucaso, a Ásia Central, os Urais, a Sibéria e o Extremo Oriente foram temporariamente tomados de nós. Não tínhamos aliados, não existia o Exército Vermelho ‒ que mal havíamos começado a formar ‒ e carecíamos de pão, armas e fardas. Catorze estados estrangeiros estavam saqueando nossa terra, mas não deixamos o desânimo nos tomar. Então, nas chamas da guerra, organizamos o Exército Vermelho e transformamos o país num grande acampamento militar. Inspirados pelo gênio do grande Lênin [1870-1924] a combater os invasores, o que conseguimos? Nós os destroçamos, recuperamos todo o território perdido e alcançamos a vitória.

“Hoje, a situação de nosso país é bem melhor do que há 23 anos. Multiplicamos enormemente nossa riqueza em indústrias, alimentos e matérias-primas, além de termos aliados com os quais sustentamos uma frente única contra os agressores alemães. Contamos ainda com a simpatia e o apoio de todos os povos da Europa caídos sob o jugo da tirania hitlerista, além de um exército e marinha magníficos que defendem de corpo e alma a liberdade e a independência da pátria. Também não sofremos grave carência de alimentos, armas ou fardas, e nossas reservas humanas são inesgotáveis.

“Seria possível duvidar de que podemos e devemos derrotar os agressores alemães?

“O inimigo não é tão poderoso como pretendem alguns intelectuais acovardados, nem é um demônio tão medonho como o pintam. Quem pode negar que mais de uma vez nosso Exército Vermelho fez fugir em pânico as celebradas tropas alemãs?

“Considerando não a propaganda vaidosa difundida pela Alemanha, mas a real situação do país, será fácil perceber que esses agressores fascistas estão próximos da ruína.

“O povo alemão, hoje faminto e empobrecido, perdeu quatro milhões e meio de soldados em quatro meses de guerra, esvaindo em sangue suas reservas humanas, e já está sendo tomado por um ânimo insurgente, tais como os povos da Europa submetidos ao jugo dos agressores alemães, por não ver a guerra terminar.

“A agressão alemã está no limite das forças, e não há dúvida de que ela não pode ir muito além. Mais alguns meses, um semestre, ou talvez um ano, e a Alemanha hitlerista deverá ruir sob o peso dos próprios crimes”.

A previsão de Stálin se mostrou demasiado otimista – como se trata de um discurso a infundir ânimo em suas tropas, o líder soviético foi mais panfletário do que propriamente analítico. Seriam necessários mais 4 anos e 20 milhões de vidas russas para que a Grande Guerra Patriótica terminasse.

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Mapa da antiga União Soviética que mostra, com a cor negra, a extensão das regiões que os nazistas efetivamente conquistaram durante a Segunda Guerra Mundial Flávio Ricardo Vassoler/VEJA

O preâmbulo histórico que acabamos de fazer nos leva agora à cidade de Samara, à beira do colossal rio Volga.

Bem mais próxima da fronteira do Cazaquistão, da qual dista pouco mais de 200 km, do que de Moscou, Samara teria se tornado a capital da União Soviética, caso Moscou tivesse caído nas garras dos piratas nazistas.

Samara fora escolhida como possível capital emergencial da URSS pelo fato de, à época, já ser um centro comercial de relativa importância e estar perto do Volga e de suas inúmeras rotas de navegação. Ademais, do subsolo de Samara jorram importantíssimas reservas de petróleo, o sangue negro da guerra.

A bem dizer, faltou muito pouco para que Moscou fosse dominada. As tropas hitleristas chegaram a se posicionar a menos de 2 horas da capital soviética.

Um episódio sumamente triste e trágico nos pode mostrar o que teria acontecido aos moscovitas se a cidade tivesse sucumbido aos invasores.

Na cidade de Tula, situada a pouco mais de duas horas ao sul de Moscou, desponta a belíssima propriedade de Iasnaia Poliana, onde viveu o escritor Liev Tolstói (1828-1910).

Consta que os nazistas chegaram a saquear Iasnaia Poliana e, quando encontraram o caixão de Tolstói, que fica disposto sobre a relva (como se o panteísmo do autor ainda estivesse contemplando a natureza), alguns soldados violaram o esquife e urinaram sobre os ossos de Tolstói.

Basta dizer que estava nos planos de Hitler transformar Moscou em uma grande represa.

Nesse sentido, o governo da URSS começou a transferir uma série de fábricas militares e civis, além do conjunto das embaixadas dos países com os quais mantinha relações diplomáticas, para Kuibichev, nome com o qual os soviéticos rebatizaram Samara, a partir de 1935, em homenagem ao revolucionário e comandante militar Valerian Kuibichev (1888-1935), que consolidou o poder bolchevique na cidade.

Kuibichev só voltou a ser chamada de Samara em 1991, após o colapso da URSS.

Ao longo da história russa, é recorrente a prática de batismos e rebatismos, revisões e revisionismos para tentar erradicar – ou, então, para apequenar sobremaneira – a importância dos inimigos políticos/antecessores no poder. Sendo assim, Stálin não agiu de maneira extemporânea ao erradicar a figura do revolucionário/fundador do Exército Vermelho Liev Trótski (1879-1940) da memória soviética, da mesma maneira que o premiê soviético Nikita Khruschov (1894-1971), sucessor de Stálin, não se mostrou um dissidente herético ao denunciar os crimes do período estalinista e remover o corpo do antecessor do mesmo mausoléu em que a múmia de Lênin permanece até hoje, no coração da Praça Vermelha.

À rua Frunze, 167, Samara me leva ao bunker de Stálin.

Nove meses de gestação (de fevereiro a novembro de 1942) pariram o bunker de 37 metros de profundidade, com paredes sumamente espessas – 4 metros de concreto seguidos de 1 metro de areia e 1 metro de aço – para resistir a potenciais bombardeios nazistas.

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Os trabalhadores que escavaram o bunker não sabiam o que estavam construindo. (Ultrassecreta, a entrada do bunker ficava sob o comitê local do Partido Comunista, para desautorizar, afugentar e/ou expurgar quaisquer curiosidades indevidas.) Por causa da escassez de maquinário civil durante a guerra, os operários tiveram que trabalhar com as mais rudimentares ferramentas – pás, enxadas e picaretas, quando não com as próprias mãos.

Apesar de Samara nunca ter sido bombardeada ou ocupada pelos alemães, 200 mil combatentes da cidade pereceram entre os 500 mil homens de Kuibichev que lutaram na Grande Guerra Patriótica.

As mulheres e crianças de Samara tiveram que trabalhar nas indústrias militares durante a guerra – sobretudo nas enormes plantas para a construção de aviões. (No auge de sua atividade fabril, Samara chegou a produzir 25 aviões por dia.)

Durante a guerra, as condições de trabalho eram atrozes e chegavam a remontar aos primórdios da Revolução Industrial, com níveis de higiene e segurança praticamente inexistentes. Os turnos não discerniam entre noite e dia. Como os combustíveis eram quase que monopolizados pela guerra, não havia gasolina e diesel para o transporte público. Assim, as operárias e os trabalhadores pré-mirins acabavam dormindo nas próprias fábricas, condição que hoje é tida como análoga à escravidão.

Consta que o compositor Dmítri Chostakovitch (1906-1975) estava vivendo em Samara quando, no dia 27 de dezembro de 1941, dedicou sua tocante Sinfonia n.º 7 aos heróis e heroínas de São Petersburgo (rebatizada como Leningrado, em 1924, após a morte de Lênin) que resistiam ao cerco nazista imposto à cidade. [O cerco a Leningrado durou 872 dias (de 08 de setembro de 1941 a 27 de janeiro de 1944) e ceifou, devido aos bombardeios, à inanição e às doenças, algo em torno de 1,5 milhão de vidas (em sua maioria, civis).]

Ninguém sabe ao certo se Stálin chegou a ocupar sua sala de trabalho no bunker. [Sua filha, Svetlana Alliluieva (1926-2011), viveu no abrigo subterrâneo durante o período de evacuação de Moscou.] Ainda assim, a sala austera, com sua mesa de madeira revestida por um tecido verde idêntico ao de uma mesa de bilhar, um telefone preto ao alcance da mão canhota e um sofá hoje revestido por um tecido branco – propício aos cochilos diários de 4 a 5 horas que Stálin tirava – estavam a postos. Sobre a sala pairam dois retratos dos militares que o ditador soviético mais admirava: à esquerda da mesa de Stálin, o Generalíssimo Alexander Vassílievitch Suvorov (1730-1800), um dos poucos generais na história a nunca perder uma batalha; à direita, o Marechal-de-campo Mikhail Ilariónovitch Golenischev-Kutúzov (1745-1813), herói da resistência à invasão da Rússia pelas tropas francesas comandadas por Napoleão, entre 1812 e 1814.

O dado pitoresco (e paranoico) da sala de trabalho de Stálin é que há seis portas de acesso – uma atrás da mesa de trabalho; duas na parede à esquerda, sob o retrato de Suvorov; duas na parede à direita, sob Kutúzov; e uma na parede que desemboca à frente da mesa de trabalho (a porta pela qual eu entrei). Assim, quaisquer pessoas (militares e/ou potenciais espiões contrarrevolucionários) que estivessem na sala à espera de Stálin jamais saberiam por que porta o ditador entraria. [Ora, em face do evangelho segundo talião – olho por olho, dente por dente –, o ditador que condenou à morte, expurgou e escravizou milhões de inocentes precisava julgar os outros por si mesmo; para Stálin, qualquer um, para amealhar seu trono, poderia (e deveria) agir como Stálin.]

Mesa de trabalho de Stálin em seu bunker de Samara, cidade que poderia ter se tornado a capital da URSS durante a Segunda Guerra Mundial Flávio Ricardo Vassoler/VEJA

À saída do bunker, deparo, inusitadamente, com o ex-soldado Valeri Borissovitch Korietski, de 70 anos, com quem começo a conversar. A barba branca, crespa e revolta de Korietski é encimada por um bigode algo ralo que destoa da pelaria vasta sob o queixo e ao largo do maxilar. A despeito de não ter feito carreira no Exército Vermelho – decisão de que Korietski diz se arrepender –, ele esteve em Praga, em 1968, quando os tanques soviéticos, sob as ordens do premiê Leonid Brejnev (1906-1982), invadiram as ruas da capital da então Tchecoslováquia para conter manifestações centrífugas em meio ao país que fazia parte da chamada Cortina de Ferro, a zona de influência (e domínio) da URSS durante a Guerra Fria.  

Sumamente pitoresca é a colocação de Korietski sobre as barricadas inusitadas e etéreas que os jovens tchecos contrapuseram aos tanques soviéticos:

– Eles sabiam que jamais poderiam vencer o nosso poderio militar – contos da carochinha ficam para a Bíblia, é só lá que Davi consegue vencer Golias. Então, o que foi que os tchecos fizeram? Bom, à época não havia essa tecnologia de deslocamento via satélite, então nós ainda lançávamos mão de mapas cartográficos. Assim, a tomada dos postos-chave de Praga estava toda pré-determinada. Eu mesmo era auxiliar de tanquista e tomaria de assalto a rádio local. Ocorre que os estudantes tchecos, ao invés de lançarem coquetéis Mólotov contra os tanques, tiveram uma ideia que, ao fim, acabou nos dando muito mais trabalho: não é que, ardilosos como eles sós, os tchecos vão lá e trocam e embaralham os nomes de todas as ruas nas placas do centro de Praga? Nós ficamos rodando por lá, que nem baratas tontas, por não sei quanto tempo, enquanto os estudantes tiravam sarro da gente em suas barricadas sem fuzis ou pedras, sacos de areia ou mesas e estantes arriadas.

O ex-soldado do Exército Vermelho Valeri Borissovitch Korietski, que participou da invasão soviética a Praga, em 1968 Flávio Ricardo Vassoler/VEJA

Quando faço menção de perguntar a Korietski o que ele acha da Rússia pós-soviética sob a batuta de Vladimir Putin, um rapaz imberbe, de queixo ligeiramente saliente e olhos bem azuis entra na conversa e pergunta se, com o meu bloco de notas à mão, eu estou fazendo algum tipo de reportagem. Eu lhe explico, então, que estudei a obra do escritor Fiódor Dostoiévski (1821-1881), que já morei na Rússia e que venho viajando por uma série de cidades, entre as quais Samara, para compor o Diário de um escritor na Rússia.

Sem tirar a mão direita dubitativa de sob o queixo, Igor (chamemo-lo assim) reverte para mim a pergunta que eu ia fazer para Valeri Korietski:

Igor: O que você acha da Rússia pós-soviética sob a batuta de Vladimir Putin?

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Eu: Bom, Igor… Bem… Acho que, com base nas posições recentes dos Estados Unidos e da Rússia, eu tendo a concordar com uma velha máxima do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, para quem “uma nação zomba da outra – e ambas têm razão”.

Igor: Ah, então você gosta de ficar em cima do muro… Entendo… Você disse que é brasileiro, certo? Pois é… Então, meu caro, acontece que, na história real, na história que acontece para além dos gabinetes dos (supostos) pensadores, as potências disputam o poder – as potências, por sinal, disputam sempre mais (e mais) poder. Imagino que, com as inflexões do seu rosto – sobretudo com as suas sobrancelhas arqueadas agora –, você não esteja muito satisfeito com a política externa de Putin, acertei? [Meneio a cabeça verticalmente.] Pois é, na mosca. E você, como boa parte da comunidade internacional, deve estar furioso com a Rússia por causa da Crimeia, acertei de novo?

Eu: Bingo! – como dizem os amigos norte-americanos da Rússia, Igor.

O russo dá uma risada amarga de canto de boca antes de prosseguir.

Igor: É curioso: os EUA invadem o Afeganistão e o Iraque – ninguém fala nada. Agora, quando outra potência nuclear vem à tona reclamar seu quinhão no xadrez imperial e geopolítico, aí a grita não poderia ser maior. Que coisa, não?

Eu: Igor, o fato de eu ser contrário à anexação da Crimeia pela Rússia não significa, de forma alguma, que eu concorde com as invasões do Afeganistão e do Iraque pelos Estados Unidos. Não me reduza a essa lógica estanque da Guerra Fria – não é por ela que eu tento orientar minhas ideias, não.

Igor: Pois é, meu caro, os (supostos) intelectuais sempre pensam ter o benefício da distância olímpica e incólume. Desde que, é claro, seus gabinetes com ar condicionado não estejam sendo transpassados pelos assovios das ogivas cadentes. Ora, meu caro, venhamos e convenhamos: não é assim que a história real acontece. Vamos aos fatos: em 1954, Khruschov deu a Crimeia de presente para a Ucrânia, que, à época, era uma das repúblicas socialistas soviéticas. A Crimeia, vale frisar, pertencia, anteriormente, à República Socialista Soviética da Rússia. Agora veja: desde o colapso da URSS, os Estados Unidos vêm utilizando os países vassalos da OTAN para apontar mísseis em direção à Rússia. Nossas fronteiras europeias estão todas cercadas – isso sem mencionar as fronteiras a leste e ao norte. Considerando-se, então, que (i) a Crimeia era nosso território; (ii) a Ucrânia só adquiriu existência independente após o colapso da URSS; e (iii) os EUA vêm nos cercando, a decisão da população da Crimeia de se juntar à Federação Russa – população que, em sua maioria, é composta por russos étnicos –, por meio do referendo realizado no início de 2014, me parece bastante acertada.

Eu: Você sustenta essa posição mesmo sabendo que o processo para a realização do referendo se deu à revelia da temporalidade determinada pelos tratados internacionais?

Igor: Ora, meu caro, mas o que você queria? Que nós esperássemos a mídia internacional, orquestrada pelos interesses dos EUA, fabricar um consenso contra o nosso direito territorial? Do ponto de vista estratégico, a decisão de Putin foi perfeita.

Eu: E do ponto de vista ético?

Igor: Como Putin chegou a mais de 85% de aprovação popular quando a Crimeia voltou a integrar o território da Federação Russa, creio que os russos demos o nosso recado.

Eu: Quer dizer então que, segundo a sua lógica de avaliação da história, vale apenas a afirmação do próprio interesse, é isso?

Igor: Minha lógica, meu caro? Desde quando essa lógica se resume apenas ao meu próprio argumento? Essa lógica vem presidindo a história desde que os hominídeos se aventuraram para além das cavernas.

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Eu: Sendo assim, Igor, os nazistas estavam certos quando invadiram a União Soviética, não é mesmo? Eles tinham uma lógica própria para fazê-lo, não tinham?

Igor: Tinham, sim – e como tinham! Antes de Stalingrado, eles detinham a razão. Depois de Stalingrado – e com a ajuda da produção militar aqui de Samara –, a Grande Guerra Patriótica passou a marchar a nosso favor. Então, a razão se perfilou ao nosso lado.

Eu: Quer dizer, então, que tudo não passa da lei do mais forte?

Igor: Qual é a surpresa, meu caro? Você já tem idade suficiente para saber como a banda toca, não?

Eu: Pensando e agindo dessa forma, você não autoriza os outros a pensarem e a agirem segundo a mesma bandeira que você está hasteando?

Igor: Em abstrato, sim, meu caro – dentro do gabinete e da estufa das ideias abstratas, você tem razão. Segundo o imperativo categórico ético do bom e velho Immanuel Kant – que, vale frisar, viveu e morreu em Königsberg, cidade germânica que nós rebatizamos como Kaliningrado e que faz parte, até hoje, da Federação Russa –, cada um de nós precisa agir de modo que todos os demais tenham o mesmo direito de reproduzir a minha ação. Se eu minto, a mentira pode se alastrar como um vírus. Se eu mato, logo pode despencar sobre o mundo a guerra de todos contra todos. Ocorre, meu caro, que o raciocínio de Kant, filósofo que nunca saiu da pequenina Kaliningrado, padece de um problema histórico congênito: se a Alemanha e a Polônia quiserem reivindicar antigos nacos de território que hoje pertencem à Rússia, elas terão que se ver com nosso poderio nuclear. E aí, elas vão nos encarar? O mesmo raciocínio, é claro, vale para a anã Ucrânia. Sobre a Europa Ocidental, em termos gerais, vale a velha máxima de que a Europa é um gigante econômico e um anão (geo)político. Hoje em dia, nós, os russos, só devemos ficar atentos em relação a dois países: Estados Unidos e China. Todos os demais, por ora, são cartas fora do baralho – a não ser que a Rússia, os Estados Unidos e a China queiram tais cartas sob as próprias mangas.

Eu: Não lhe parece uma tragédia que o preço da lógica cínica com que você analisa a história sejam 20 milhões d e vidas russas ceifadas durante a Grande Guerra Patriótica?

Igor: Ossos do ofício, meu caro, tristes ossos do ofício. Se Hitler tivesse vencido a guerra, os 20 milhões de mortos teriam arrastado atrás de si 200 milhões de escravos. A Rússia, hoje, seria o cemitério dos vivos.  

Eu: Tudo isso me remete a um aforismo de um escritor brasileiro que, a despeito de nunca ter saído da cidade do Rio de Janeiro, soube compreender muito bem as engrenagens que movem (e emperram) a história e as relações humanas.

Igor: Que aforismo é esse? Quem é o autor?

Eu: Assim falou Joaquim Maria Machado de Assis: “A vida é uma enorme loteria; os prêmios são poucos; os malogrados, inúmeros; e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra”.

Igor: Interessante, muito interessante… Afiado como um punhal – ou melhor, como uma baioneta! Esse Machado de Assis esteve nas fileiras do Exército Vermelho e conheceu o front oriental – o local de maior carnificina da história das guerras – sem nunca ter saído do Rio de Janeiro. Pois, se você quer saber, eu acho que o Putin já leu o Machado de Assis, meu caro.

Eu: É mesmo? Por que você diz isso?

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Igor: Porque o Putin, aparentemente secundado pelo Machado de Assis, há pouco tempo disse o seguinte: “O Ocidente, suas instituições e sua mídia só vão respeitar a Rússia e seus interesses, integralmente, no dia em que nós, os russos, lhes entregarmos, em uma bandeja de ouro, todas e cada uma de nossas reservas petrolíferas, todas e cada uma de nossas reservas minerais, todos e cada um de nossos gasodutos, todas e cada uma de nossas ogivas nucleares e todas e cada uma de nossas belas mulheres. Nesse dia, e tão somente nesse dia, nós, os russos, seremos aceitos no time seleto de nações pelas quais o Ocidente, civilizado como ele só, tem o mais encarecido respeito”.

Sobre o autor

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com pós-doutorado em Literatura Russa pela Northwestern University (EUA). É autor das obras O evangelho segundo Talião (nVersos, 2013), Tiro de misericórdia (nVersos, 2014) e Dostoiévski e a dialética: Fetichismo da forma, utopia como conteúdo (Hedra, 2018), além de ter organizado o livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012) e, ao lado de Alexandre Rosa e Ieda Lebensztayn, o livro Pai contra mãe e outros contos (Hedra, 2018), de Machado de Assis. Página na internet: Portal Heráclito, http://www.portalheraclito.com.br.

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