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Diário da Vacina Por Laryssa Borges A repórter Laryssa Borges, de VEJA, relata sua participação em uma das mais importantes experiências científicas da atualidade: a busca da vacina contra o coronavírus. Laryssa é voluntária inscrita no programa de testagem do imunizante produzido pelo laboratório Janssen-Cilag, braço farmacêutico da Johnson & Johnson.

Os primeiros efeitos colaterais: ‘Atropelada por um caminhão’

Após receber a dose no estudo clínico, a dúvida: tomei vacina ou placebo?

Por Laryssa Borges Atualizado em 20 nov 2020, 15h44 - Publicado em 19 nov 2020, 11h56

17 de novembro, 19h43: Saí da clínica há menos de uma hora. A cabeça lateja. Será que já era o primeiro dano colateral? Será que efeitos adversos surgem assim tão imediatamente? Faço um retrospecto do dia em que tomei a vacina e percebo que almocei meio omelete quase dez horas antes. É fome.

Pouco antes, fiquei 15 minutos sentada dentro da clínica onde realizo os testes, o Instituto Brasil de Pesquisa Clínica (IBPClin), sendo monitorada. Os médicos queriam saber se eu desenvolveria uma reação alérgica ou um efeito adverso qualquer logo após ter recebido a dose com o princípio ativo (ou placebo). Nada. Até o minuto em que o relógio marcou 19h43.

21h: Depois de jantar no dia em que recebi a vacina, a cabeça não dói mais, estou relaxada e empolgada pelo vai-e-vem em consultórios, laboratórios e salas de espera. Mas sou um turbilhão de dúvidas. Começo a preencher meu diário virtual. Este diário faz parte do estudo clínico. É nele que relatarei dia após dia aos pesquisadores o que senti. Duas vezes por semana também terei de medir o nível de oxigenação no meu sangue com um oxímetro que recebi. Tudo que eu escrever lá vai ser armazenado em um grande banco de dados para análise das informações dos voluntários desta pesquisa.

18 de novembro, 00h03: Estou convencida de que tomei um placebo. Nada acontece, não tenho febre, dor, cansaço, náusea. Nada. O local de aplicação da dose é imperceptível. Três horas antes, minha temperatura corporal era de 35,5ºC. Placebo, certeza.

Vou dormir com uma certa carga de frustração. Deito virada para o lado esquerdo, o mesmo que recebeu a aplicação, com o braço onde ministraram a potencial vacina prensado no colchão. Se isso significar alguma coisa vou descobrir em breve.

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9h36: A cabeça parece que vai explodir. Uma dor forte na base da nuca, nos braços, antebraços, coxas. O braço direito, que não foi onde tomei a dose da vacina, dói tanto ou mais do que o esquerdo, local da aplicação. A lateral direita da cintura dói de um jeito estranho (nem sabia que poderia existir dor naquela região). Placebo que nada. Eu tomei a vacina!

Existe uma certa oscilação de percepções em uma voluntária absolutamente leiga na área médica, como eu. Saí da clínica no dia anterior com a convicção de que me deram uma substância sem nenhum princípio ativo – no caso da experiência da Janssen-Cilag, seria uma dose de soro fisiológico. Depois das primeiras reações colaterais posso jurar que dentro de mim foi injetada uma solução com adenovírus 26 e um pedaço da proteína do espinho do coronavírus, a vacina real que busca induzir meu corpo a produzir anticorpos. Se vacina ou placebo só saberei mesmo dentro de 25 meses, quando os pesquisadores abrem os dados confidenciais dos estudos e informam os voluntários se eles receberam doses com princípio ativo ou uma substância sem nenhuma eficácia clínica.

  • Trabalho mesmo com as dores. É um teste para ver se a mialgia que sinto é dilacerante, incapacitante ou se me impediu de exercer quaisquer atividades diárias. Essa espécie de medição da minha sensação de dor é importante porque precisarei relatar, no aplicativo do programa, se fiquei de cama, se meu dia parou por causa da dor, se tomei remédio. Por enquanto, é administrável.

    13h09: Enquanto escrevo outra reportagem, tenho de alongar quatro vezes as costas. A lateral direita da cintura teima em não parar de doer. Na verdade, tudo dói. O corpo pesa. As articulações dos dedos estão sensíveis e também dão o ar da graça. Onde fui me meter? Parece que fui atropelada por um caminhão. Ando devagar. Não por cansaço ou fraqueza. Talvez por cautela. Talvez por medo. Almoço e vou para o aeroporto. Preciso voltar a Brasília.

    19h08: No aeroporto, preencho os sintomas do dia no programa de celular do estudo clínico da Janssen-Cilag e relato as dores. Não foram incapacitantes, mas longe de serem absolutamente tranquilas. O tipo de reação adversa que estou experimentando é muito comum. O pesquisador principal do projeto, o doutor Luis Augusto Russo, listou os efeitos colaterais clássicos há mais de dois meses para mim: dor, sensibilidade e vermelhidão no local da injeção, dor de cabeça, calafrios, dor muscular, cansaço, náusea e febre.

    19 de  novembro, 8h20: Acordo e levanto devagar com medo de os efeitos terem piorado.

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