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Claudio Lottenberg Mestre e doutor em Oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp), é presidente do Instituto Coalizão Saúde e do conselho do Hospital Albert Einstein

Tratamento da saúde mental vai além dos medicamentos

A solução dos problemas mentais não se esgota nos remédios: é preciso considerar também os determinantes sociais da saúde mental, diz a revista The Lancet

Por Claudio Lottenberg Atualizado em 27 set 2021, 18h27 - Publicado em 27 set 2021, 18h26

O fenômeno da medicalização da vida já é conhecido e registrado na literatura médica. Trata-se da ideia de que basta um remédio para que nos livremos de toda e qualquer doença – incluindo aí as mentais. No caso destas especificamente, é forte e sedutora a noção de que um comprimido nos tiraria da depressão, da ansiedade, da esquizofrenia e da bipolaridade. Mas não vivemos – ou não apenas – dentro de nossas próprias mentes. Estamos inseridos em diversos contextos – social, econômico, político, educacional e outros – e não é razoável supor que não tenham influência sobre nossa saúde mental.

Em um exemplo recente, a Covid-19 provocou ondas de ansiedade, no Brasil e em outros países, devido ao medo da morte iminente frente ao vírus, de perder o emprego, após a insegurança econômica e as restrições de funcionamento das atividades econômicas impostas para combater a doença na forma de isolamento social. Levantamento recente da Confederação Nacional dos Municípios (CNM) mostrou que em 483 cidades do país houve aumento de casos de violência contra a mulher desde o início da pandemia, em fevereiro do ano passado (o equivalente a 20% dos 2.383 municípios pesquisados); em parte desses municípios, as agressões atingiram também mais crianças e jovens, idosos e pessoas com deficiência. A perda de aulas devido ao fechamento de escolas pode ter causado danos cognitivos às crianças que levarão tempo para serem revertidos.

A solução dos problemas mentais não se esgota nos remédios: é preciso considerar também os determinantes sociais da saúde mental. Essa é a conclusão a que conduz o editorial recentemente publicado pelo periódico especializado em medicina The Lancet acerca da nova liderança da Associação Psiquiátrica Americana (APA). Como diz o texto, “alcançar o receituário certamente é mais fácil do que consertar as circunstâncias econômicas e sociais de um paciente”. O texto lembra que o conceito de boa saúde cerebral, tal como definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), não é a mera ausência de doenças – uma definição pela negação. Ela é, isso sim, um estado em que cada um pode “otimizar seu funcionamento cognitivo, emocional, psicológico e comportamental”.

Isso significa considerar diferenças econômicas, culturais e sociais, ambientes físicos e naturais, saúde materno-infantil, educação, emprego, qualidade do trabalho e envelhecimento saudável. Todos esses fatores exercem influência no modo como vivemos, como nos organizamos e no valor que damos para a vida em sociedade. A abordagem, diz o editorial, tem de se tornar holística, porque não vivemos como partes isoladas. Somos um todo e tudo que nos circunda nos influencia. A pesquisa tem mostrado melhora nos resultados terapêuticos quando as abordagens psicodinâmica e cognitivo-comportamental são combinadas.

O Brasil teria um longo caminho a percorrer para que pudesse adotar essa abordagem dos problemas mentais. Os indicadores sociais mostram que o desafio é grande: no caso da violência doméstica, por exemplo, em 2020 foram mais de 105 mil casos, segundo dados divulgados pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, em março. O número de desempregados no país passa de 14 milhões. Dezenas de milhares de alunos tanto na rede pública como na privada foram afetados. Nada disso passou ou passará sem deixar um custo em termos de saúde mental para quem foi afetado – e também para o conjunto da sociedade.

O que a nova abordagem propõe é: saúde mental não é mais algo que possa ser resolvido por soluções apenas biológicas, médicas ou farmacológicas. É preciso entender como afetamos e somos afetados por nosso meio. E para agir no contexto social, os governos “devem fazer melhor”, diz o editorial da The Lancet. Aqueles que exercem a medicina também precisam integrar o esforço de exigir das autoridades medidas que encontrem alternativas para desemprego, déficit habitacional, uso de drogas, violência doméstica, educação infantil e diversas outras questões.

Como escreveu em 1914 o filósofo espanhol José Ortega y Gasset, “eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim”. Deixar de fora no cuidado com a saúde mental do paciente o contexto em que ele se insere – incluindo as dificuldades sociais que o pressionam – significa, segundo esse novo modo de ver, permitir que o sofrimento dele continue.

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