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Claudio Lottenberg Mestre e doutor em Oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp), é presidente do Instituto Coalizão Saúde e do conselho do Hospital Albert Einstein

Sinergia entre público e privado pode acelerar imunização

Participação da iniciativa privada nos processos de vacinação faz parte da história do nosso país

Por Claudio Lottenberg Atualizado em 11 jan 2021, 17h31 - Publicado em 11 jan 2021, 17h29

A vacinação contra a Covid-19 será um movimento mundial, que está apenas em seus passos iniciais. Diversos dos principais laboratórios do mundo desenvolveram imunizantes, os testes foram realizados (alguns ainda estão em andamento) e em mais de 40 países a imunização já começou, entre eles Israel, Estados Unidos, Reino Unido, Argentina, Rússia e China. E a lista só vai crescer no futuro próximo. O Brasil, no entanto, parece paralisado e agora surge um debate sobre que papéis os setores público e privado devem desempenhar na vacinação das pessoas. Ora, só um: sinergia.

Temos no Brasil os setores público e privado de saúde, tal como diversos dos países em que a vacinação já teve início. Por ser um país em que uma parcela da população tem acesso a tratamentos a que outras parcelas só alcançam com dificuldade, é tentador achar que se fará escolhas arbitrárias e se dará preferência a quem tem recursos – e não aos grupos prioritários, como seria de se esperar de políticas públicas. A discussão sobre como remediar as injustiças e desigualdades sociais no país merece toda a atenção, de autoridades públicas, especialistas, da própria iniciativa privada, e envolve não só a área de saúde. Não é uma questão a se tratar de forma ligeira, e que demandará tempo – como tem demandado desde a Constituição de 1988. E a ideia não é privilegiar, mas sim somar.

O que não se pode ignorar é que, enquanto essa questão (importante, sem dúvida) ganha espaço na arena pública, a Covid-19 avança e continua a causar mortes, fazendo crescer a trágica lista de 200 mil óbitos no Brasil, marca atingida há menos de uma semana. Se o que se pretende fazer é dar resposta definitiva a tal questão para só então dar início a um programa de vacinação, mais tempo será gasto, e a Covid-19 seguirá sua marcha. Vacinar também não é uma decisão única, que, tomada, faz tudo aparecer e acontecer como num passe de mágica. Há suas complicações internas, como os problemas de logística envolvidos: transporte, estocagem, manuseio, entre outros. Há ainda um trabalho de convencimento da população – muitas pessoas se opõem a qualquer tipo de vacinação.

Perder tempo não é, nem nunca foi, uma opção. É preciso dar início ao processo, e a iniciativa privada tem plenas condições de ser instrumental para agilizar a imunização. Não haverá competição, mas cooperação: as clínicas que buscam comprar a vacina da Índia procuraram um laboratório que não está negociando com as autoridades brasileiras, então não haverá disputa nem prejuízo para a população que conta apenas com o SUS. Deixar que a iniciativa privada auxilie na aceleração do processo fará também com que cheguemos à imunidade de rebanho mais rápido – e disso se beneficiará toda a sociedade brasileira.

À espera de que o Brasil encontre solução para seu problema de acesso da população a serviços de saúde de qualidade, para que só aí se proceda à vacinação contra uma pandemia que não dá trégua, a maior das injustiças pode acabar acontecendo: não se vacinará ninguém. Esse certamente é o pior resultado.

A burocracia poderia sair de cena, ou ser reduzida ao menor nível possível. Sem ela, teríamos no Brasil um processo de vacinação eficiente, porque a iniciativa privada teria mais liberdade para acelerá-lo. Aliar a capilaridade do sistema público à eficiência do setor privado faria do programa de vacinação brasileiro um caso de sucesso a ser estudado mundo afora.

A sinergia entre o público e o privado, que permite trazer agilidade e eficiência para o sistema brasileiro de saúde como um todo, já existe. O setor privado participar dos processos de vacinação faz parte da história do nosso país. Nisso não há nada que seja novo. Respeitando as prioridades dos grupos de risco, que são os idosos e profissionais de saúde, dentro de uma visão integrada, teremos uma máquina eficiente que poderá mitigar o sofrimento que essa doença já causou. Mas para chegar a isso, precisamos sair do marco zero.

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