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Claudio Lottenberg Mestre e doutor em Oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp), é presidente do Instituto Coalizão Saúde e do conselho do Hospital Albert Einstein

O fator político do repique da Covid

Quando os responsáveis pelas ações contra a pandemia falham quem paga conta é a população

Por Claudio Lottenberg 17 nov 2020, 08h44

Após um período de estabilização na transmissão do novo coronavírus, alguns países voltaram a apresentar aumento preocupante no número de infectados pela Covid-19. É o caso dos Estados Unidos e de várias nações europeias.

Na semana passada, o mundo ultrapassou 50 milhões de contaminados, segundo a Universidade Johns Hopkins, que monitora a doença no planeta. O dado foi confirmado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A instituição acadêmica divulgou também que mais de 660 mil casos foram confirmados em 24 horas – um recorde desde que o vírus foi identificado, em dezembro de 2019.

O progresso no combate à doença não significa vitória, alertou o diretor geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus. O número de casos, com efeito, vinha apresentando diminuição. Mas a tendência não se manteve em muitos locais. O fato é que, apesar dos avanços e das boas perspectivas, ainda não dispomos de arsenal capaz de barrar o vírus. Ou seja, ainda não temos a vacina ou uma droga antiviral e estamos muito longe da chamada imunidade de rebanho.

No Brasil, a situação se estabilizou e há tendência de queda em algumas regiões, mas, devido a falhas de planejamento, há ainda dezenas de milhares de novos casos e um número alto de mortes.

A credibilidade dos responsáveis pelas políticas públicas é fator decisivo no combate à pandemia. Quando falham quem paga conta é a população.

Podemos tomar como exemplo o que vem acontecendo nos Estados Unidos, que tem 4% da população mundial e 20% das mortes por Covid. Lideranças pouco habituadas à literatura médica, por mais bem-sucedidas que sejam, descartam a boa ciência e impõem modelos sem consistência, ignorando a prevenção mais eficiente do distanciamento social, associado a higiene permanente e uso de máscara, além do monitoramento de pessoas com suspeita de estarem contaminadas. Foi esse o tipo de medida que se mostrou eficiente quando começamos a nos dedicar a fazer bem feito aquilo que já conhecíamos dentro das Unidades de Terapia Intensiva.

Além disso, usando medicamentos cujo conhecimento era adequado para o uso, o número de novos casos diminuiu e a taxa de sobrevida melhorou. Mas isso não foi suficiente, e um novo debate surgiu a respeito da vacina ainda em fase de testes. O foco da comunicação mudou e, evidentemente, uma tendência é o aumento do número de casos. Estamos perdendo o controle? Ainda é cedo para dizer, mas será que tínhamos algum controle? Como bem diz a professora Natalia Pasternak, especialista em genética molecular e pesquisadora do Instituto de Ciência Biomédicas da USP: “Nós estamos cansados do vírus, mas o vírus não está cansado de nós”.

O planejamento adequado e consciente é fundamental para o combate eficiente ao coronavírus. Sem isso, e a continuar a crise do mundo político, com informação utilizada de forma imprópria, vamos em breve lamentar o que poderíamos ter feito.

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